terça-feira, 3 de julho de 2012

Ensinamentos Para a Vida Adulta (2010)

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Ensinamentos para a Vida Adulta de Ernesto Bacalhau foi a curta-metragem vencedora do Shortcutz Lisboa em Novembro de 2011 e uma das justas finalistas seleccionadas para o Sophia na respectiva categoria.
Quando uma rapariga (Maria Leite) se desloca para a sua primeira aula de condução estava longe de imaginar que Efigénio (Orlando Costa) o seu instrutor a fizesse passar por uma das maiores provas da sua vida com a cumplicidade da sua mulher (Lucinda Loureiro).
Aquilo que começa como uma simples e muito simpática lição de condução acaba no que poderia ser o maior pesadelo da vida de qualquer um. Se a carta e o respectivo automóvel são um sinal de independência, tal como tão brilhantemente é referido ao longo desta curta, o que é certo é que para aquela rapariga consegue obter o simbolismo do seu maior pesadelo e tortura.
Quando Efigénio e a mulher a transportam contra a sua vontade para aquele que poderá ser o seu último destino só restam duas soluções... parar e pensar no perigo em que se encontra ou reagir e obter, na pior das circunstâncias, a sua tão desejada independência.
Esta curta-metragem representa uma continuidade na brilhante originalidade que o cinema de curta duração português tem vindo a apresentar nos últimos tempos. Para ser franco cada vez que vejo um destes filmes páro para pensar na quantidade de talento que tenho visto e como ele, em muitas situações, se encontra tão "escondido" dos olhares de quem deve ver.
Assim, e falando desta muito em concreto mas sem revelar nada daquilo que deve ser visto neste vinte minutos de muita emoção, temos aqui um argumento da autoria de Ricardo Figueira que começa por ser simpático e a todos agradar para avançar para uma história de clausura e medo e terminar num conto de violência, vingança e afirmação.
Os actores não poderiam ter sido melhor escolhidos. Por um lado temos um Orlando Costa que todos nós estamos habituados a ver em produções televisivas onde encarna sempre o bom da fita. Sempre um homem calmo, paciente e com os seus enormes rasgos de alegria que preenchem o serão de qualquer um. Aqui, se inicialmente dá continuidade a este seu look mais familiar, rapidamente mostra o seu lado oculto e sombrio capaz de cometer as maiores atrocidades em nome da segurança dos seus. Um rosto amigo que esconde um ladro tenebroso e impiedoso capaz de "dar conta do recado" sem o mínimo de coração. Se já me tinha conquistado com o seu lado bom... fez-me render com o seu lado sombrio. Simplesmente brilhante.
Ao seu lado temos uma sempre impiedosa Lucinda Loureiro como a sua mulher e enfermeira de profissão que com mais garra e convicção consegue ser mortífera. No entanto desta actriz não poderia esperar outra coisa. Aliás, acrescento que se fizesse o papel da "boazinha" julgo que nem me conseguiria agradar. Está "au point" como aliás se quer.
Finalmente temos uma igualmente surpreendente Maria Leite que era até agora uma desconhecida para mim, mas que se afirma como a menina ingénua transformada em heroína e que com uma garra tão grande ou maior que os seus captores consegue dominá-los e controlar toda a situação.
Igualmente impressionante a fotografia de André Szankowski que recria uma atmosfera "seca" desprovida de grandes artifícios que nos faça dispersar a atenção com detalhes supérfulos, transformando espaços e ruas que podem ser em qualquer cidade ou vila portuguesa num ambiente que parece retirado de um qualquer deserto no interior profundo dos Estados Unidos onde estas acções ao estilo de Terror na Auto-Estrada se desenrolam.
E não esquecendo a brilhante banda-sonora de Paus (lamento se estou a cometer alguma gaffe mas é o que me pareceu na minúscula letra dos créditos finais) que "apenas" intensifica toda uma tensão que se sente crescente ao longo de todo o filme.
Esta curta-metragem é sem dúvida uma muito agradável surpresa que não se deve perder e, como tal, aqui fica na íntegra para que possa ser vista. Acreditem que não se vão arrepender.
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9 / 10
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