sexta-feira, 29 de março de 2013

La Migliore Offerta (2013)

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A Melhor Oferta de Giuseppe Tornatore foi o filme seleccionado para a cerimónia de encerramento da 6ª edição da Festa do Cinema Italiano de Lisboa e também a mais recente obra do realizador italiano.
Este filme conta-nos a história de Virgil Oldman (Geoffrey Rush), um reconhecido e reputado especialista em arte que através da sua leiloeira e avaliadora, toma contacto com um diversificado conjunto de obras de arte que admira.
No entanto Virgil é tão reputado na sua profissão como infeliz na sua vida afectiva e sentimental na qual não deixa entrar ninguém ao ponto de criar um verdadeiro laço de cumplicidade. Todos aqueles que lhe são mais próximos apenas o são por intermédio profissional sem que, com eles, partilhe qualquer tipo de intimidade ou amizade.
É quando inicia uma invulgar relação profissional com Claire (Sylvia Hoeks), uma misteriosa jovem que nunca se dá fisicamente a conhecer, mas que deposita nele toda a sua confiança para vender o seu património, que Virgil começa aos poucos a modificar a sua vida por se sentir imediatamente fascinado com aquela curiosa e peculiar mulher transformando assim radicalmente todos os seus hábitos que o irão levar à surpreendente descoberta de que tudo pode, realmente, ser falsificado.
Sendo um fã incondicional da obra de Tornatore, foi com assumido entusiasmo que esperei por este filme durante bastante tempo. Poder tê-lo em Lisboa antes de uma estreia comercial que iria provavelmente ser esquecida por muitos, foi um pequeno grande bónus que muito me motivou a ser dos primeiros a entrar naquela enorme sala do Cinema São Jorge.
Os sinais de que este era um filme de Tornatore eram óbvios assim que se começaram a escutar os primeiros acordes da banda-sonora e era assim inconfundível a mão do mestre Ennio Morricone que tão magistralmente tem composto as mais belas e sentidas sinfonias para os filmes do realizador italiano com quem colabora há largos anos tendo participado nos filmes Cinema Paraíso, Malèna, A Lenda de 1900 ou A Desconhecida. A magia dos seus filmes deve-se não só ao simbolismo e magnetismo das suas histórias como também muito contribuem as suas músicas que não deixarão ninguém indiferente e, à semelhança do que acontecera há mais de dez anos com A Lenda de 1900, Tornatore volta a filmar com actores cuja língua materna não é o italiano.
Para este elenco foram seleccionados alguns nomes de Hollywood que bem conhecemos como Geoffrey Rush para interpretar "Virgil", numa composição à qual dá uma perfeita alma como aquele homem que está tão indiferente ao que o rodeia como desejoso e expectante para que esse mesmo ambiente lhe traga algo, ou alguém, que o faça poder olhar à sua volta com uma maior tranquilidade e dedicação. "Virgil" não é um homem frio por natureza mas sim alguém que não teve com o passar dos anos, uma sociabilização normal com os demais. Dotado de uma sensibilidade extrema para as grandes obras de arte que artistas de renome deram ao mundo, e que o próprio resguarda de mãos mais inapropriadas, o seu lado social onde deveria ter interagido com o mesmo cuidado com os demais ficou gravemente afectado e, como tal, encara todos os que estão à sua volta não como pessoas menos dignas mas sim pessoas com as quais não consegue estabelecer uma relação dita normal. Até ao dia em que, ao conhecer "Claire", se entrega de corpo e alma não questionando a fundo nenhum dos seus comportamentos e acções que, noutros tempos, não iria tolerar.
O elenco é ainda composto por uma interpretação secundária de Donald Sutherland como "Billy", o fiel amigo de "Virgil" que com ele elabora alguns interessantes esquemas para poder ele próprio comprar as obras de arte que considera mais valiosas, e ainda um Jim Sturgess como "Robert", o jovem técnico que o auxilia nas tarefas mais mecânicas de recuperação de algumas obras.
Se é um facto que este filme consegue ser emocionante do início ao final, muito graças à interpretação de um sempre inspirado e notado Geoffrey Rush, não deixa também de ser verdade que o afastamento das tradicionais histórias da sua Sicília natal fazem perder uma certa magia que lhe é inerente, excepção feita ao já referido A Lenda de 1900 que é por si só uma magnífica obra-prima. Sem que percam o encanto, estas personagens não detêm o brilho e a magia que aquelas de filmes como Malèna, Cinema Paraíso ou O Homem das Estrelas possuem, sendo que aqui apenas o actor australiano brilha em exclusividade sem que para isso contribua em grande medida todo o restante ambiente, e nem mesmo um inspirado Sutherland consegue aqui reter o protagonismo que lhe é merecido sendo quase uma figura decorativa e não uma personagem com a importância que já perto do final percebemos que tem.
Dito isto, e sem retirar o mérito a um filme inspirado (como sempre), com uma história apelativa e personagens interessantes, destaco apenas a curiosidade de que as mulheres de "Virgil" (pintadas ou reais) deterem, sem excepção, a particularidade de se encontrarem encerradas numa redoma longe de todo o contacto com o público. Dentro da sua casa (que não o é), as "suas" mulheres encontram-se num cofre, longe do olhar do público quase como se não existissem para o restante mundo. "Claire", que se transforma na única mulher que "Virgil" realmente conhecera está, também ela, supostamente fechada na sua própria redoma longe do contacto com o mundo exterior que a rodeia, construindo assim os seus próprios universos numa quase apática e autista relação com esse mesmo mundo.
Não sendo a melhor obra de Tornatore, onde qualquer uma das anteriormente referidas a consegue ultrapassar, este filme vale pelos seus dois mais fortes e destacados elementos. Em primeiro lugar, um inspirado, forte e determinado Geoffrey Rush que muito facilmente transforma este filme numa sua preciosidade quase tão imaculada como as próprias obras que o seu "Virgil" salvaguarda e, em segundo lugar, uma exímia e perfeita música original da autoria de um dos, senão o, maior mestre e compositor que é Ennio Morricone, que graças à sua partitura consegue transportar-nos para um qualquer outro lugar e ambiente provocando-nos, por momentos, algum esquecimento em relação ao filme a que estamos a assistir.
La Migliore Offerta tem como seria de esperar a marca Tornatore mas, não é de facto, um dos seus mais fortes e intensos trabalhos que nos consiga apaixonar ou que ficará marcado na história ou na nossa memória como aqueles outros que nos conseguiram verdadeiramente emocionar.
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"Virgil Oldman: How is it living with a woman?
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Lambert: It's like taking part in an auction sale... you never know if yours is the best offer."
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8 / 10
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