sexta-feira, 10 de abril de 2015

Um Filme Francês (2015)

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Um Filme Francês de Cavi Borges é uma longa-metragem brasileira presente na Mostra Brasileira de Longas-Metragens no decorrer da sexta edição do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que decorre até ao próxima dia 15 de Abril no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Cleo (Patrícia Nierdermeier) prepara-se para realizar um filme tendo como base a nouvelle vague francesa e mestres como Truffaut ou Godard. Como seus actores terá Michel (Erom Cordeiro) e Patrícia (Juliana Terra). No filme a realizar Patrícia e Michel devem interpretar duas pessoas que se reencontram quatro anos depois da sua separação enquanto casal, num período em que evidenciam percursos de vida distantes e distintos. No entanto, na vida "real"... Michel, Patrícia e Cleo denotam comportamentos que não parecem ser assim tão distantes entre si.
Uma das personagens silenciosas de Um Filme Francês é logo de imediato a cidade - seus espaços e lugares - que, como pano de fundo, ocupa um espaço central na viagem pela direcção deste filme ficcionado e das suas personagens mais ou menos reais. Filmada a preto e branco, a cidade de Rio de Janeiro ocupa assim um lugar não tão vibrante mas mesclado na história como uma parte integrante da mesma que comunica à sua própria maneira através da homenagem que parece querer ser feita por "Cleo" (Nierdermeier).
No entanto, à medida que Um Filme Francês ganha forma, a narrativa não se prende tanto com o filme dentro do filme - à excepção de alguns momentos em que assistimos à sua construção - para dar forma às relações humanas que se desenvolvem ao longo do referido processo. Isto é, se a construção do filme é o ponto de partida, acabam por ser as relações de realizadora mais actor e actriz que se assumem como os motores dinamizadores da história confundindo o enredo do suposto filme com aquele que é criado e elaborado à volta daqueles que o constroem como constatamos em diversos momentos onde "Michel" tanto seduz "Cleo" como "Patrícia"... ou talvez não seja tanto assim tendo elas as suas próprias ideias sobre como deverá funcionar a "relação" que desenvolvem com "Michel".
O amor e a sua confirmação como característica da Nouvelle Vague, marcam presença em Um Filme Francês desde o primeiro instante não só com o filme dentro do filme - não esquecer que a obra que "Cleo" pretende retratar é uma história de amor perdido - como também na dinâmica, mais física é um facto, que se desenvolve entre "Michel" e as duas mulheres que o acompanham ainda que em momentos distintos da produção que vivem num constante e intenso flirt - por vezes até aparentemente inofensivo - que os transforma num trio não como é apresentado ao espectador ao longo desta longa-metragem mas sim com a confirmação que nos é surpreendentemente revelada no final quando exposta a real "relação" existente entre eles.
Se "Michel" é desde logo exposto como uma mulherengo engatatão sempre preparado para a próxima relação que lhe oferece o prazer carnal que necessita - não como uma máquina de sexo pois entrega-se realmente à pessoa com quem deseja estar - não é menos verdade que são, no entanto, as duas figuras femininas que se revelam mais complexas e misteriosas sendo apenas revelados os seus propósitos nos instantes finais de Um Filme Francês. "Cleo" é uma mulher obcecada com o seu filme, com a necessidade de contar a sua história e, ao mesmo tempo, com os actores perfeitos capazes de ser o seu veículo mostrando-se possessiva em todas as facetas da sua vida incluindo a mais física. Já "Patrícia" é uma mulher mais reservada, actriz de teatro como se afirma a certa altura, não se expõe com a mesma descontracção com que o faz "Cleo". Inicialmente reservada, "Patrícia" aparenta ser a mulher sonhadora e que aguarda pelo amor da sua vida mas que afinal revela já o ter encontrado.
Por entre conversas existencialistas banais que são apimentadas com uma - percebe-se . sentida homenagem aos mestres da Nouvelle Vague como Godard, Truffaut ou Cassavetes, Um Filme Francês de Cavi Borges sente a necessidade de justificar a sua existência através de um discurso sobre diversas formas de arte, os artistas e o respeito que estes necessitam - e que todos sabemos nem sempre ser uma realidade - sobre aqueles que lutam para finalizar as suas obras que, feitas sem grande apoio financeiro, subsistem como arte verdadeira saída do âmago de cada um dos seus realizadores.
Numa sentida reflexão sobre a arte e a sua dimensão, que homenageia não só o amor, os artistas, a cidade como espaço e o cinema, Um Filme Francês revela-se como uma aposta marcadamente diferente e distinta do habitual cinema brasileiro como também faz emergir através de Cavi Borges, um realizador arriscado que sendo contemporâneo recupera uma distinta época do cinema maioritariamente europeu, retratando a época com um sentido apurado do seu tempo onde as relações podem não ser necessariamente sobre a recuperação do amor mas um das suas inúmeras e dinâmicas variáveis.
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