domingo, 26 de abril de 2015

Rabo de Peixe (2015)

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Rabo de Peixe de Joaquim Pinto e Nuno Leonel é um documentário português em formato de longa-metragem presente na Secção Director's Cut do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer até ao próximo dia 3 de Maio e a mais recente obra de Pinto e Leonel apesar de já ter sido filmada há quinze anos.
Entre 1999 e 2001 os dois realizadores deslocaram-se aos Açores, mais concretamente à Ilha de São Miguel e à freguesia de Rabo de Peixe onde conviveram e acompanharam um conjunto de pescadores artesanais não só na actividade piscatória mas também na sua intimidade junto das suas famílias e no seio de alguns projectos e anseios.
Numa comunidade que, tal como Joaquim Pinto referiu aquando da apresentação de Rabo de Peixe, já não existe tal como filmada no documentário, perdida no meio do Atlântico onde se cruzam as placas continentais Americana e Europeia, formam-se amizades, cumplicidades, partilhas e momentos que apenas a memória na sua amplitude consegue registar. A memória, o mesmo recorrente e tão importante tema já abordado por Pinto em E Agora? Lembra-me e que é aqui - temporalmente - iniciado nesta sua parceria com Nuno Leonel, narrado por ambos enquanto assistimos aos mais variados intervenientes - Pedro, Rui, Emanuel e Artur entre outros - e registamos a sua aceitação de dois completos estranhos que se tornam com o tempo em dois amigos e parceiros com quem partilham a sua profissão, os seus costumes e rituais bem como momentos da sua vida que passam desde o nascimento da sua descendência até aos seus medos - como o não saber nadar numa comunidade que faz do mar a sua vida -, expectativas, ânsias sobre o ter licenças que lhes permitam "viver", e tantos outros dos quais possivelmente nunca iremos saber.
A mesma memória que se denota ser uma preocupação de Joaquim Pinto e Nuno Leonel registada graças à sua obra por detrás das câmaras que encontra o seu semelhante nas vontade de uma pequena comunidade piscatória em lembrar os seus costumes, honrar as suas tradições e principalmente não esquecer aqueles que perderão no mar, a sua fonte de rendimento mas também onde jazem muitos daqueles que conheceram.
É através da calma narração de Pinto e Leonel que o espectador entra naqueles espaços e naqueles momentos vivendo-os como uma partilha, percebendo o espírito comunitário e de união onde tudo funciona com um conjunto de regras verbais - de honra e não obrigacionais ou escritas - e onde Pedro - um dos pescadores - arrisca para além daquilo que lhe é permitido por lei para conseguir o sustento através daquilo que sempre conheceu: o mar.
De uma vivência simples e aparentemente não afectado pelo tempo ou pela dita evolução, Rabo de Peixe é um local de gente e vidas simples. Gente com uma vida difícil e dura mas que consegue encontrar alegria nas pequenas coisas, no mar nem sempre gentil ou mesmo nos pequenos grandes paraísos terrestres perdidos pelas ilhas e que dificilmente alguém de fora conhece ou tão pouco suspeita que existem. O mar, essa personagem sempre presente e também ele com a sua própria linguagem, faz-nos conhecer não só os seus próprios habitantes como também fornece o sustento para aquela "tribo" de pescadores que subsiste com o que lhe é fornecido para além de se preocuparem com a sustentabilidade dos recursos - facto desprezado pelas grandes embarcações espanholas e coreanas que "povoam" os mares da região.
No final, Rabo de Peixe - tanto o documentário como a localidade - são o registo de uma passagem, de um tempo recente mas sentido como distante, da sua memória e do que dela perdurou, da sua gente, dos seus hábitos, dos seus costumes, da sua vivência e principalmente da sua evidente simplicidade com um sentimento de prenúncio dos tempos complicados e difíceis para o futuro. O registo último de um século que estava a terminar e uma celebração dos seus tempos em que as pessoas e a sua palavra ainda tinham um valor e que são celebrados pelo olhar íntimo e humano da dupla de realizadores.
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8 / 10
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