quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Efeitos Secundários (2008)

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Efeitos Secundários de Paulo Rebelo era um dos filmes portugueses dos quais já me perguntava porque motivo nunca mais estreava nas salas. E por "nas salas" quero dizer NA sala, considerando que o filme apenas estreou (tanto quanto sei) no Teatro do Bairro em Lisboa, por isso o convite que recebi para assistir a este filme foi bastante gratificante.
Este filme leva-nos a um pequeno bairro onde conhecemos duas mulheres. Laura (Maria João Luís), uma cabeleireira viúva que vive presa à memória do seu marido, a dois filhos que vê ocasionalmente e a uma vida recatada. A outra mulher é Carmo (Rita Martins), que vive dentro do carro fugida de uma vida que esconde algo.
A união entre ambas rapidamente se estabelece e Carmo faz renascer em Laura a mulher que há muito estava esquecida e adormecida. Renasce a paixão aqui encarnada por Rui (Nuno Lopes) e a vontade de viver uma vida liberta de complexos e protocolos que Laura há muito estava habituada. Mas também renasce essa vontade de amar em Carmo que ao conhecer Bruno (Nuno Gil) revela a vontade que ainda tem de ser amada... apesar do terrível segredo que de todos esconde.
Paulo Rebelo que aqui se estreia como realizador após participações como argumentista em filmes como O Fantasma ou Odete, dá-nos esta história que é, acima de tudo, um conto sobre a vida. Vejamos... Se nos concentrarmos apenas e só nas personagens principais verificamos que todas elas, sem excepção, vivem dramas com a sua forma de vida ou como a têm levado até então. Temos uma excelente interpretação de Maria João Luís, que dá corpo e alma a uma "Laura", mulher recatada e que faz por não dar vida ou alma aos seus sonhos e desejos, nem mesmo à sua própria vida sentimental refugiando-se na luz da imagem do marido que perdera há largos anos. Esta mesma "Laura" que ao conhecer a "Carmo" a que Rita Martins, brilhante como sempre, dá alma e com isso volta a divertir-se e a sentir as sensações que há muito reprimia.
Rita Martins que com esta interpretação venceu o Prémio de Melhor Actriz nos Caminhos do Cinema Português em Coimbra em 2010, tem aqui uma forte interpretação. Rebelde e cheia de vida está, no entanto, presa a uma condição que tudo faz por esconder. A mágoa que nos transmite é ao mesmo tempo sinal da vontade que tem de ser tocada, amada e acarinhada por alguém que veja para além da condição em que se encontra. Como já disse a respeito das suas interpretações noutros filmes, ela é uma forte e segura aposta para qualquer interpretação que tenha pois mostra-nos o quão fortes podes ser os seus olhares, expressões e a transmissão de emoções que pretende ter e dar ao espectador.
Nuno Lopes que aqui venceu o Prémio de Melhor Actor Secundário no festival anteriormente referido, tem também ele uma segura intepretação (como aliás todo o grupo de actores deste filme tem) e "serve" como o elemento desanuviador da tensão que se vai sentindo ao longo do filme com os seus apontamentos de comédia que apesar de serem muitos não são, todavia, todos.
Finalmente temos a completar o elenco principal do filme o actor Nuno Gil que aqui interpreta o alvo do amor e do desejo de afecto que "Carmo" lhe confere. Uma interpretação mais secundária entre o conjunto de actores mas que acaba por ser uma das mais determinantes para o desenvolvimento do seu conjunto na medida em que acaba por determinar o desfecho sentimental, e de certa forma o próprio resultado final deste filme.
É curioso reparar como os argumentos de Paulo Rebelo, que além dos dois referenciados mais acima também assina este da sua estreia como realizador, acabam por se focar maioritariamente nas relações humanas. Assim o tinhamos n'O Fantasma, onde o desejo era o mote principal que as unia, ou a obsessão sentida em Odete e como aqui acabam por se transformar em algo mais forte mas ao mesmo tempo tão mais sensível como o amor ou a necessidade de um ser se sentir amado. A necessidade do toque. Isto sim, foi o que o seu argumento me fez lembrar e recordar. A necessidade que nós temos de sentir o toque. O afecto em oposição à indiferença e à individualidade que o mundo actual tanto defende.
Outro dos aspectos positivos deste filme foi a sua extraordinária e bem mexida banda-sonora da autoria d'Os Tornados, a qual podemos ouvir uma pequena parte no trailer que se encontra no final deste comentário e que recupera uma certa sonoridade de décadas passadas que é aqui muito bem enquadrada.
Finalmente comento ainda a brilhante direcção artística de João Rui Guerra da Mata que consegue colocar todos os elementos no respectivo lugar e criar através dos espaços as referências perfeitas para cada um dos actores. Sabemos perfeitamente ao vê-los e aos seus espaços aquilo que tão bem os caracteriza.
Dá-me gosto perceber que o cinema português vai felizmente tendo a capacidade de contar vários tipos de histórias, várias histórias dentro da História ou mesmo várias histórias dentro das suas pessoas, fugindo assim aos poucos de uma certa intelectualidade que nós, o seu público, tanto lhe têm atribuído no passado. É com este contar de histórias que felizmente aumentam de dia para dia de qualidade, que se vão atraindo pessoas às salas de cinema nacionais. No entanto, e pegando naquilo com que iniciei este comentário, tenho pena não só que a publicidade dada ao cinema falado em português seja ainda tão pouca ou que as salas onde este mesmo cinema estreia sejam ou poucas ou durante pouco tempo.
Este filme será seguramente alvo de atenções nas próximas galas de prémios de cinema em Portugal, quer dos Globos de Ouro da SIC/Caras quer dos recentemente criados Sophia da Academia Portuguesa de Cinema. Face a um ano que considero ter bons filmes portugueses, não sei até que ponto este filme, que seguramente se afirma entre os bons, poderá sair vencedor de algum, mas estou certo que qualidade para isso ele tem. Estive numa sala de cinema onde o filme tanto fez sorrir como emocionou algumas pessoas levando-as a silenciosamente escutar, ver e sentir aquilo que as palavras e os olhares de tão bons actores nos queriam transmitir. E estou igualmente certo que aos poucos o público português irá finalmente reconciliar-se com o seu cinema e dar-lhe assim o seu devido valor.
Ao realizador Paulo Rebelo quero deixar os parabéns pela sua obra de estreia como realizador e que venham muitos mais que retratem, tal como ele, a união entre pessoas que podem à partida parecer tão diferentes e tão distantes mas que, lá no fundo, só procuram e precisam de alguém que as faça ver aquilo que elas sempre quiseram... o amor. O amor incondicional de alguém que não procure nada em especial a não ser saber que têm perto de si alguém disposto a dar um abraço, um beijo ou a mão.
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"Carmo: Tu não tens medo de mim?"
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8 / 10
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