sábado, 24 de agosto de 2013

Lovelace (2013)

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Lovelace de Rob Epstein e Jeffrey Friedman é uma muito aguardada longa-metragem sobre Linda Lovelace, a actriz que participou no maior êxito do cinema pornográfico Deep Throat que em Portugal recebeu o título de Garganta Funda.
Linda (Amanda Seyfried) é uma jovem adolescente que provém de um lar profundamente católico e conservador do qual pretende escapar o mais rapidamente possível. John (Robert Patrick) o seu pai é um homem que praticamente se anula dentro de casa enquanto Dorothy (Sharon Stone) a sua mãe, a obriga a um conjunto de regras severas que não pode ultrapassar.
Quando Linda conhece Chuck (Peter Sarsgaard) um homem mais velho que a seduz e encanta com sonhos de liberdade e de uma vida livre de problemas, Linda estava longe de imaginar que o seu destino iria cruzar-se com o da indústria pornográfica que inicialmente abraça por diversão mas que rapidamente se transforma numa penitência quando ela é vista como alguém fácil e "disponível" para ser abusada, com o consentimento do marido, pela oferta mais elevada.
Esta é assim a sua história, a de uma mulher que queria a liberdade mas que na sua busca encontrou uma prisão bem mais perigosa do que aquela em que alguma vez se julgou encontrar mas da qual conseguiu escapar e fazer ouvir a sua voz.
Inicialmente muitos poderão ser levados ao engano com este filme e pensar que vamos apenas ter um conjunto de momentos estereotipados sobre a vida de uma estrela do cinema pornográfico. No entanto, Andy Bellin que escreveu o argumento, consegue fazer dele um interessante filme de época que nos conta a história de uma jovem mulher com sonhos e desejos bem maiores do que aqueles que a sua casa, família e cidade lhe poderiam alguma vez proporcionar.
Sonhos esses que a iriam trair não pela sua própria "mão", mas através daquele que a iludiu sobre a sua concretização... o marido que em nome das promessas das viagens, do conhecer pessoas e lugares e experimentar uma liberdade que até então lhe eram desconhecidos, a fez entrar num perigoso submundo onde esses desejos e os sentimentos que deles poderiam advir eram apenas uma miragem do mundo "real" em que estava colocada no qual a emergência do dinheiro rápido e fácil estarão para além de qualquer sonho.
Muito deste filme, cujos factos a maioria desconhece, reside na força que uma inesperada Amanda Seyfried tem e transmite na sua interpretação. Da menina sensível e de grande coração de Mamma Mia!, comprova aqui ser mais do que uma cara bonita a interpretar uma figura pública mais ou menos conhecida e que levou uma vida controversa que uns admiravam (não por si mas por aquilo que representou em tempos num meio muito específico) e que outros detestavam em igual medida e exactamente pelos mesmos motivos. Seyfried consegue, no entanto, mostrar aquilo que Linda Lovelace era para lá da figura mediática. A jovem mulher, a sonhadora, a vítima, a excluída e finalmente a mulher casada e mãe que possivelmente ninguém nunca se deu ao trabalho de ver e conhecer, mas que lutou pela sua dignidade.
A seu lado temos duas outras grandes interpretações... a de Peter Sarsgaard como "Chuck" o seu abusivo marido que se aproveitou do mediatismo e dela para ter uma vida fácil com um luxo constante e finalmente Sharon Stone como "Dorothy", a igualmente abusiva mãe que numa constante luta para a prender e evitar que levasse um rumo de vida complicado e fora dos limites conservadores que ambicionava, esqueceu que estava a entregá-la de braços abertos ao primeiro homem que lhe prometesse o mundo... que nunca chegaria. Se Seyfried num ano menos competitivo poderia com a dose certa de mediatismo do filme e da sua interpretação poderia ser uma eventual candidata ao Oscar, não é menos verdade que Sharon Stone merece essa nomeação na categoria secundária pela sua composição neste filme. Uma interpretação atípica e pouco comum da actriz que aqui se mostra uma mulher bem mais recatada e austera, para a qual contribui decisivamente a caracterização que lhe é efectuada, Stone demonstra que com o realizador e desempenho certo consegue fazer arte do seu trabalho. Se irá chegar a essa nomeação é algo que francamente tenho as minhas dúvidas, e reservas, pois não me parece que este seja o tipo de filme que irá no final do ano estar em destaque e na memória das pessoas mas, ainda assim, não deixa de ser verdade que é das interpretações mais sérias e bem conseguidas da actriz nos últimos largos anos.
Finalmente há ainda que destacar positivamente os aspectos técnicos que contribuem para a inserção do espectador em todo um clima e ambiente de época, nomeadamente a direcção de arte da autoria de Gary Myers e David Smith que juntamente com o guarda-roupa de Karyn Wagner nos inserem nos loucos anos 60 e 70 do século passado onde a liberdade era a palavra de ordem, e finalmente a música original de Stephen Trask que recupera muitas das melodias da referida época ou mesmo a direcção de fotografia de Eric Alan Edwards que em diversas ocasiões nos imerge no estilo de longa-metragem da época retirando-nos a perspectiva século XXI da mesma.
Não será o filme do ano... Aliás, está longe de ser uma obra memorável mas, no entanto, não deixa de ser um interessante filme com sólidas interpretações e que recupera um dos mitos do cinema pornográfico revelando-nos o que estava por detrás do ícone pondo a nu a mulher que cometeu o crime de sonhar com a liberdade... a sua.
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8 / 10
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