sábado, 14 de maio de 2016

A Noite de Santo António (2015)

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A Noite de Santo António de João Gomes é uma curta-metragem portuguesa de ficção e a mais recente obra do realizador de Natália, a Diva Tragicómica (2011) e Estórias (2013).
Ana (Diana Costa e Silva) viaja para o centro de Lisboa na noite de Santo António. Pensativa e reflexiva sobre as suas aulas de música, dirige-se para um encontro com um Homem (Victor Gonçalves). Em Alfama encontra a folia de toda uma cidade mas uma pergunta fica no ar... O que procura Ana?
João Gomes - também argumentista de A Noite de Santo António - começa por apresentar uma história na qual a sua personagem principal procura - ou espera encontrar - aquele que será o seu par ideal. Desconhecendo-o pois apenas conversaram online, "Ana" troca breves conversas telefónicas onde "Ele" parece não revelar muito quer da sua identidade quer do local em que se encontra. No entanto, não é este o elemento que se destaca de imediata em A Noite de Santo António.
Para quem conhece as loucas noites das festas populares de Lisboa, mais concretamente a véspera do dia do santo padroeiro da capital, sabe o quão estreitas se tornam as já de si pequenas ruas da cidade que se enchem de pessoas por todos e quaisquer recantos. Desta forma, A Noite de Santo António captada numa dessas noites - 12 de Junho de 2015 -, regista o quão sobrepovoada estão as ruas onde todos os estranhos parecem comungar dum mesmo objectivo noite dentro... música, festa, comer e beber. Assim, no ambiente perfeito para a socialização, o espectador encontra uma "Ana" solitária e perdida nos seus pensamentos sobre os ensaios de música enquanto ecoam pelas ruas todos os êxitos populares do momento dos quais ela se abstrai.
Mas esta abstracção não é apenas da música. "Ana" está distante dos milhares de pessoas que com ela partilham as ruas concentrando-se apenas nos pensamentos de sempre e num eventual desconhecido que irá (?) conhecer nesta noite. Vagueando pela multidão em folia, "Ana" é praticamente invisível desconhecendo não só as pessoas como o espaço. Perdida no meio de uma agitação com a qual parece não se identificar, não só começa a desligar-se daquela situação como também da que a trouxe até ali. De repente o "estranho" que vinha conhecer é apenas mais um desconhecido no meio de toda uma situação que parece não compreender.
É, no entanto, com a saída da marcha bairrista que finalmente estabelece o primeiro contacto que a faz voltar à realidade - a uma - com um outro homem (Ruben Dias) com o qual conversa, dança, bebe e fundamentalmente se diverte longe de qualquer preconceito ou distanciamento social que a noite faz eliminar esquecendo-se do propósito que a levou àquele bairro e de quem pretendia encontrar.
Para lá de um filme sobre a noite de Santo António que, no entanto, capta uma personagem fundamental para toda a narrativa que é o próprio espírito de uma cidade que desperta nesta noite, esta curta-metragem é um filme exemplar na forma como consegue transmitir não só a sentida solidão no seio de uma multidão como principalmente a forma como tece uma interessante reflexão sobre a solidão per si, ou seja, "Ana" é uma mulher que se encontra só na vida. Muito à semelhança daquilo que João Gomes já tinha entregue com o seu documentário Estórias, A Noite de Santo António é também um conto sobre as relações humanas - ou a falta delas - na medida em que os seus principais intervenientes podem até conviver com dezenas (ou centenas) de pessoas mas, na prática, são almas solitárias que co-habitam um espaço comum - uma rua ou uma cidade - mas que na realidade nunca chegam a conhecer aqueles com quem diariamente se cruzam.
Assim, longe de qualquer contacto com o mundo - pelo menos que o espectador conheça - "Ana" é o oposto daquilo que o espaço em que se encontra representa. Se ela é solitária, a noite em questão é a mais movimentada e cheia de vida possível... no entanto, e funcionando como um claro contraditório, é na noite de Santo António que se podem viver claros momentos de solidão... afinal, não é no meio de tanta gente que se pode encontrar o maior e mais profundo silêncio? Anónima e perdida que nem uma conversa espontânea e natural a fizeram regressar a um mundo real, "Ana" acaba por desaparecer, novamente silenciada, no meio da multidão.
"Ana" - num interessante e apático na perfeição registo da actriz Diana Costa e Silva - é o perfeito exemplo de uma sociedade moderna que contacta com os demais através de um conjunto de redes sociais ou de novas formas de comunicação que aproximando as pessoas consegue, principalmente, distanciá-las de todos os contactos físicos, presenciais ou pessoais. Metida com os seus próprios pensamentos e com a sua vida que se move apenas dentro de um círculo restrito, é a tal apatia social que a faz não saber comportar-se em grupo - mesmo que o grupo seja inicialmente desconhecido - isolando-se de tal forma a dar lugar a um anonimato social e a um eventual "desaparecimento" na comunidade. Incapaz de lidar com os seus sentimentos ou reacções... o espectador pergunta-se sobre quem será realmente esta jovem mulher de quem - no final - tão pouco ficámos a conhecer.
São também, no entanto, as personagens invisíveis de A Noite de Santo António que ganham um interessante semi-protagonismo começando, desde logo, com os dois actores que "surgem" nesta curta-metragem; o primeiro e assumidamente invisível para lá da sua voz é o tal "homem no topo da colina" que apesar de querer conhecer "Ana" - pelo menos assim aparenta -, nunca se revela e finalmente o ilustre desconhecido que socializa com ela mas com o qual "Ana" apenas parece estabelecer uma empatia momentânea. O espectador pergunta-se... quem seriam estes dois homens? Teriam os dois algum interesse nela? Porque desistiu o primeiro tão rapidamente e, em exacta medida, porque também ela desistiu tão depressa da relação amigável que parece ter estabelecido com o segundo?
Finalmente as duas outras "personagens" de A Noite de Santo António sendo a primeira a cidade de Lisboa que vive aqui a sua noite mais agitada do ano onde todos, sem distinção, parecem descer às ruas da capital numa mescla que não conseguimos assistir em qualquer outra altura e também, a música que da clássica à moderna sem esquecer os óbvios êxitos populares que tão típicos são das festividades da cidade marcam aqui presença estabelecendo uma imediata relação com a própria dinâmica do filme - e das festas.
A Noite de Santo António poderá assim ser um conto - mais ou menos ficcionado - não só sobre a solidão como sobre o dito mundo contemporâneo onde se privilegiam encontros e momentos fugazes, sem qualquer tipo de ligação ou empatia mais profundo. Tudo - e todos - estão à distância de pequenos momentos que são, na sua maioria, passageiros e redundantes aumentando exponencialmente toda a individualidade fazendo questionar sobre quem sou eu no mundo... e principalmente quem serei eu para o mundo. Na incapacidade de uma resposta melhor, João Gomes responde com um segmento final onde "Ana" - como tantos outros - desaparece no meio da multidão sem que ninguém dê pela sua ausência... nem mesmo aquele com quem ela priva breves instantes e com o qual parecia estabelecer uma qualquer... "proximidade".
No final apenas resta uma questão ao espectador... como se pode ficar tão solitário quando todo o mundo parece estar a dançar em completa folia... ali... exactamente ao lado?!
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8 / 10
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