terça-feira, 10 de maio de 2016

Se Eu Fosse Ladrão... Roubava (2013)

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Se Eu Fosse Ladrão... Roubava de Paulo Rocha é uma longa-metragem portuguesa de ficção e nomeada aos Sophia da Academia Portuguesa de Cinema em três categorias - Actriz (Isabel Ruth), Actriz Secundária (Carla Chambel) e Fotografia (Acácio de Almeida) - sendo ainda a última obra do realizador.
Numa visita ao passado, observamos fotos e momentos de um país perdido no tempo onde todos ambicionam o Brasil do outro lado do Atlântico. Encontramo-nos em 1917, ano de doença, de miséria e de um Portugal na Primeira Guerra Mundial.
Vitalino (Chandra Malatitch) deseja fervorosamente deixar o país em que nasceu e partir, como tantos outros, rumo a esse Brasil el-dorado. Para trás ficam três irmãs dispostas a convencê-lo a não as abandonar, aliciando-o com parte do dote.
Regina Guimarães, João Carlos Viana e o próprio Paulo Rocha assinam o argumento deste filme-testamento do realizador que elabora uma despedida da e à sua obra enquanto se despede igualmente de um país marcado pela desgraça, pela emigração, pela saudade e pelo lamento.
Não é por acaso o início de Se Eu Fosse Ladrão... Roubava caracterizado por um conjunto de memórias de um povo que não ficou e que, sentindo a sua terra, partiu rumo ao desconhecido esperando encontrar novas e melhores paragens. Em igual medida, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava também termina com o tão eterno e sebastianista nevoeiro onde todos aqueles que nele desaparecem se esperam um dia ver regressar.
Num misto de acentuada crítica nacional - não fosse uma das imagens mais marcantes desta longa-metragem de Paulo Rocha o recurso ao comentário de "Catão" de A Raíz do Coração (2000) que admira uma "Lisboa imunda violada por políticos" - Se Eu Fosse Ladrão... Roubava não esquece ainda os tempos passados de um país que parece ter a sua população sempre numa constante espera da "ida" sem regresso marcado.
No entanto, para lá de um filme crítica a um Portugal sempre em queda, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava é, acima de tudo, uma memória viva de um passado auto-biográfico, onde Paulo Rocha revisita não só o seu passado como a sua obra fragmentando-a a unindo-a numa tentativa de coerência e co-habitação de personagens, mundos e universos. Nesta viagem existe uma pergunta quase omnipresente que se prende com a necessidade quase pessoal de perceber o que é realmente Portugal - enquanto Nação e não Estado - quando todos parecem dele querer partir sem nunca esquecer o tal elo de ligação que os impede de jamais regressar. Se Eu Fosse Ladrão... Roubava viaja assim pela fome, pela doença, pela miséria, pela fuga, por um eventual regresso de e a um país que parece tão depressa odiar-se como amar-se profundamente - qual relação esquizofrénica - presentes na obra do realizador em filmes como Os Verdes Anos (1963), A Ilha dos Amores (1982), O Rio do Ouro (1998) e A Raíz do Coração (2000).
Igualmente omnipresente é a sua musa de sempre... Isabel Ruth que parece, também ela, navegar nesta mescla de momentos e situações que caracterizam um país - uma família - perdida na memória de si própria. As personagens que interpretou às mãos de Paulo Rocha parecem a determinada altura povoar Se Eu Fosse Ladrão... Roubava ganhando uma linha de continuidade que parecem ter - brevemente - sido cuidadosamente criadas e estudadas pela esta obra de despedida ganhando, elas próprias, uma presença constante na sua obra. Ao assistirmos como elas surgem ao longo desta narrativa, o espectador questiona-se se não terão sido elas próprias estudadas para este preciso instante da obra.
Num registo que roça o filme delírio - qual mescla "abusiva" de personagens que invadem os mútuos espaços -, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava subtilmente ironiza com o próprio Paulo Rocha que recicla ("rouba") momentos dos seus filmes passados e cria uma nova abordagem à vida que as suas personagens outrora tiveram dando-lhes continuidade com aquelas para aqui criadas. "Nada resta da memória (...)" diz o jovem "Vitalino" sobre os pertences do seu pai.... aqui, pelo contrário, tudo sobra e encontra uma nova continuidade perpetuando não só a própria memória de Paulo Rocha como aqueles vários "eus" que foram sendo criados ao longo dos anos.
Não será, certamente, o melhor filme de Paulo Rocha - sendo "melhor" sempre algo tão subjectivo como os olhos daquele que o vê - nem tão pouco aquele que será considerado como o mais emblemático de toda uma carreira - facilmente qualquer espectador se irá recordar primeiramente de Os Verdes Anos - mas, no entanto, Se Eu Fosse Ladrão... Roubava será sem margem para dúvida aquele que ele utilizou para homenagear as suas memórias, as suas personagens, os seus actores e as histórias que sentia ter e precisar de contar.
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"Tia: Coisinha mais ruim que uma madrasta... a mãe pátria."
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6 / 10
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