terça-feira, 3 de maio de 2016

Algo que Decir (2015)

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Algo que Decir de José Ángel Lázaro é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção competitiva Nacional da sétima edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre na Cantábria, em Espanha, até ao próximo dia 7 de Maio.
Durante vinte anos e mais de mil concertos, os Monkey Rumbers decidem separar-se. Na noite do seu último concerto, todos percebem que não conseguiram viver da música que faziam e que tanto as relações, como os sonhos e claro, as necessidades não são as mesmas do que quando eram jovens adultos.
O realizador e argumentista José Ángel Lázaro cria com Algo que Decir uma história que se centra essencialmente nas relações humanas tendo, no entanto, a música como o reflexo das mesmas. Numa única noite que comporta o peso de ser "a última", esta curta-metragem leva o espectador a uma viagem que tendo ultrapassado os sonhos de uma juventude onde estes brotavam por todo o lado - alguns dos quais como aspirações de marca e identificação pessoal -, consegue marcar o ponto final numa etapa da vida que se fecha encarando, de forma significativamente diferente, que o "amanhã" marcará o início de uma descoberta pessoal totalmente distinta do esperado. Por outras palavras, se no início daquela noite os membros dos Monkey Rumbers eram definidos - enquanto indivíduos - como tal, é a partir deste momento que todos têm de encontrar um novo, e quem sabe definitivo, rumo para as suas vidas.
Ainda que membros de uma banda que tem um notório sucesso - visível nas dezenas de fãs que se deslocaram ao bar em que se preparam para a despedida - "José", "Maité" (a vocalista) e "Nacho" fazem denotar uma evidente melancolia e sensação de missão por cumprir quer seja esta a que era esperada profissionalmente ou no caso dos dois primeiros, também a sentimental que ficou por se confirmar.
Sem grandes artifícios - aliás, o que aqui predomina é o desencanto e não o brilho de uma vida que fora, em tempos, esperada - Algo que Decir parece mergulhar numa completa rendição aos sonhos não cumpridos, às esperanças falhadas e às emoções reprimidas. No fundo, aquilo que a certa altura parece querer ser confirmado é que chegou - finalmente - o momento em que todos têm (precisam?) encarar que o tempo avançou sem esperar e que já não são os adolescentes com sonhos e esperanças que em tempos foram. Aqueles - sonhos - que se confirmaram já os viveram... os outros têm (?) obrigatoriamente de permanecer num recanto escondido da memória.
Mas será a mudança má? Será que ela chega realmente a ser confirmada ou tudo não é mais do que um breve momento no seu - deles - percurso que poderá ser um dia revertido tendo, no entretanto, de dar continuidade a um novo rumo e a novas escolhas e oportunidades? Será o mundo deles composto apenas por um estrada ou poderá nele existir mais do que uma escolha? Afinal, não serão estas escolhas tomadas a porta de entrada para todo um novo conjunto de momentos e situações?
É com este pensamento em mente que tranquilamente e sem palavras "José" se despede de um público que também cresceu com eles e naquele modo de vida depositou boa parte da sua confiança e expectativas. E despede-se da melhor forma... com a música que durante vinte anos tocou e que o fez sentir como ele sempre desejou. Se esta será uma despedida - e uma mudança - definitiva, nenhum de nós poderá saber... mas afinal, será que precisamos? A reflexão mantém-se única e exclusivamente sobre a noção de "mudança"... sobre a possibilidade do futuro não ser aquilo que dele esperamos - alguma vez o é?! - e que mesmo com uma eventual porta fechada, outras tantas poderão ser abertas (ainda que inesperadas). A única confirmação tida é que a vida - até àquele momento - foi vivida segundo os ditames do coração, da convicção e do sonho... a questão é se a partir dali poderá ou não continuar a sê-lo.
Sem artifícios mas com muita alma, Algo que Decir faz da música o sonho... das dúvidas a percepção do tempo e do desencanto a certeza que uma vez - pelo menos uma - algo foi esperado, desejado e amado.
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9 / 10
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