terça-feira, 17 de maio de 2016

Blood for Dracula (1974)

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Sangue Virgem para Drácula de Paul Morrissey é uma longa-metragem franco-italiana e uma das muitas incursões do universo de Drácula que aqui é interpretado pelo actor alemão Udo Kier.
Drácula (Kier) viaja com Anton (Arno Juerging) para Itália de forma a poder encontrar uma noiva... virgem. Pensando ter encontrado o lugar certo em casa do Marquês Di Fiore (Vittorio De Sica), o Conde Drácula seduz as suas jovens filhas para encontrar a noiva perfeita.
Tido como um marco no género, esta obra produzida por Andy Warhol é interpretada por alguns nomes de primeira linha do cinema europeu como são Udo Kier, Milena Vukotic e Vittorio De Sica sem esquecer aquele que foi - provavelmente - o nome mais eternizado por esta obra (e que a ela ficou conotado), o actor norte-americana Joe Dalessandro.
Blood for Dracula poderia ser um dos muitos contos sobre o famoso Conde da Transilvânia, não fosse a sua componente altamente erotizada que o destaca de praticamente todas as demais. Aqui a "sede" é tanto de sangue para "Drácula" como o é de sedução, erotismo e algum sexo tido como "pouco convencional" para a época. Num universo em que procura desesperadamente a sua sobrevivência, o Conde Drácula de Udo Kier é um ser quase romântico que procura a noiva perfeita num mundo de encanto, opulência e valores éticos e morais. No entanto, aquilo do qual nem o próprio suspeita é que a sociedade tal como a romantiza... já não existe. A opulência apenas está travestida de um conjunto de outrora sumptuosos palácios cujos donos agora mais não querem do que a sua própria sobrevivência e manutenção graças a um portentoso conde vindo dos confins de uma Europa - também ela - decadente.
A ética e a moral são, elas igualmente, concepções desaparecidas de um mundo à beira da mudança onde as convulsões sociais se perfilam e no qual as diferenças de classe opõem aqueles que pouco têm aos que - supostamente - sempre tudo tiveram. A figura de "Mario Balato" (Dalessandro) como o criado de uma rica família de nome e brasão é disso o perfeito retrato na medida em que encarna o espírito de uma sociedade onde os ideais comunistas começavam a ser propagados. É neste conflito entre valores, classe e política que encontramos um "Drácula" (Kier) que tão depressa pode morrer por falta do perfeito alimento - sangue de uma virgem - como ainda mais rapidamente da estaca de madeira atirada pelo conflituoso comunista que desdenha de famílias ricas e com título para as quais, no entanto, trabalha sem as respeitar.
No seio de todos os conflitos... eis que surgem as irmãs "Di Fiore" que se auto-promovem como virgens imaculadas mas que se rendem aos encantos de "Mario" que pouca as ama mas tenta levar à condição de nobres com gostos carnais mais operários. Enquanto "Drácula" definha lentamente à procura da sua princesa... todo o mundo gira à volta de planos mais ou menos programados para defender os seus próprios interesses.
Não fosse este filme apresentado como uma obra de terror - que não é - o espectador comum pensaria de imediato que, graças a estas premissas, iria encontrar uma obra de comédia - da qual bem perto está - e não fosse um ou outro momento mais politicamente activo (ainda que camuflado), este questionar-se-ia sobre o que afinal foi pretendido com este filme. Esta questão, ainda que muitas teorias sejam sobre ela levantadas - está longe de ter uma resposta consensual. Aqui encontramos um "Drácula" praticamente moribundo, uma nobreza não só financeira como moralmente falida e uma nova revolução à beira de ser consumada onde as classes iriam ser colocadas à prova. Sem dinheiro e sem trabalho... só os mais aptos conseguiriam sobreviver. Um "Drácula" doente face a um operário robusto e com ideias de classe bem distintas... não poderá resistir para além de uma esperança, também ela, moribunda. No essencial, Blood for Dracula é isso mesmo... um relato sobre a luta de classes e a sobrevivência dos mais aptos numa nova era que acabara de despertar. Longe dos velhos contos sobre o tão famoso conde transilvano, esta longa-metragem perde-se em momentos semi-eróticos onde a sexualidade é tida com desprezo e desdém - sempre no ponto de vista de classe social - e onde a sobrevivência está para lá da próxima gota de sangue que é consumida. Num mais ou menos admirável mundo novo... apenas sobrevivem as aparências e aquilo que delas se pretende retirar.
Sem grande empatia para com o espectador, estas personagens deambulam num ritmo semi-automático - por vezes robótico - distanciando-as de qualquer réstia de humanidade que poderiam ter... Nobres que sem nada se imaginam mais do que os demais, outros que apenas comungam em sociedade pelo alimento - sangue - de que precisam e finalmente a classe emergente que desespera por um momento de vingança contra um opressor para o qual trabalha. Blood for Dracula sobrevive - ele próprio - como um filme com um bom décor e um ou dois momentos mais gore - se bem que também eles pobremente elaborados - e por um conjunto de actores e personagens que parecem - eles próprios - não se levar a sério fazendo assim brilhar a pouca "comédia" que parece querer ter.
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5 / 10
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