quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Que Eu Entendo por Amor (2013)

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O Que Eu Entendo por Amor de Ricardo Martins é uma curta-metragem portuguesa que foi exibida na respectiva secção competitiva do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa e cujo argumento da autoria de Tiago Bastos Capitão nos leva a conhecer Julieta (Celeste Ribeiro), uma mulher idosa que um dia acordo com o seu marido Hilário (Carlos Nery) morto a seu lado.
Aquilo que se segue é um conjunto de pensamentos em voz alta por parte de Julieta que nos revelam a sua vida de sofrimento, solidão e mágoa por toda uma vida sem amor e sem uma companhia para os dias que passou. Percebemos que a Julieta tudo lhe foi recusado... uma vida com um amigo, com um amor e principalmente com filhos com quem ela poderia ter partilhado momentos mais tranquilos e que hoje, tal como refere, pudessem visitá-la e dar continuidade à sua vida que a cada dia que passa sente estar mais próxima do final.
A opção de Ricardo Martins em centrar toda a acção dentro de um apartamento é, por si só, muito inteligente. Não só estamos perante uma vida que percebemos ter sido solitária como nos encontramos agora neste local que em tudo parece assemelhar-se a uma pequena prisão. Janelas cerradas encerram um silêncio absoluto que nos impede de escutar ou perceber o que se passa para além daquelas quatro paredes. A porta de entrada sempre trancada à chave, impede qualquer circulação em ambas as direcções. Todo o mundo exterior está vedado... não temos percepção de nenhum televisor, a música é agora uma lembrança quase desaparecida e o telefone só tem uso para uma ocasional chamada de emergência que nunca é confirmada.
O único elemento do que temos para lá daquela apartamento é assim, os pensamentos de "Julieta" que transportam o espectador para um mundo que experienciou e viveu com mágoa e amargura. A sua vida solitária em que desejava que o marido chegasse a casa e não fosse abusivo, o assistir às suas sucessivas traições feitas mais ou menos em silêncio e finalmente a privação de poder ser mãe e ter alguém a quem realmente a amasse sem questões, sem barreiras e sem limites. Limites esses que sempre sentiu e que lhe foram impostos pelas paredes daquele apartamento que a tudo assistiu menos a amor.
Foi esta mesma privação que a levou um dia a dizer basta. O fim que não lhe foi imposto mas que ela determinou como sendo necessário para finalmente poder ter a sua tranquilidade e a sua paz. O momento em que decidiu ser aquele em que tomaria o seu destino pelas suas próprias mãos sendo assim o mesmo que a fez perceber que só ela poderia ter amor por ela própria. Falta esta que sempre determinou que às mãos do "outro" (o seu marido) seria sempre um "objecto" de segunda categoria e não alguém que precisava, e estava) de se sentir viva.
Celeste Ribeiro tem uma interpretação notável e espelha o terror e a demência sem que para isso seja necessário recorrer a uma caracterização assustadora. São as suas palavras e os locais para onde estas transportam o espectador que nos fazem imaginar o pesadelo pelo qual viveu não um dia mas todos aqueles que constituem a sua vida. Vida essa que começou com ilusões e desejos que cedo e depressa se mostraram impossíveis de concretizar pois mais não foi do que uma escrava, em todos os sentidos, de um homem que se serviu dela sem nunca a amar. O Que Eu Entendo por Amor é assim a sua forma de dizer não só que nunca o teve como de mostrar que só ela seria capaz de executar algo que terminasse a sua dor e, dessa mesma forma, perceber que só ela seria capaz de o demonstrar por si própria.
É desta forma que Ricardo Martins nos mostra que O Que Eu Entendo por Amor pode ser uma interessante reflexão não sobre aquilo que o amor é mas aquilo em que ele se pode tornar quando é unidireccional e sentido apenas por um breve período de tempo... se é que este chegou de alguma forma a existir, transformando assim esta curta-metragem não só num exercício sobre o drama de uma vida esquecida como também um breve relato sobre o sofrimento e o terror não visível de uma vida que o sentiu.
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8 / 10
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