sábado, 5 de abril de 2014

O Pacote (2013)

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O Pacote de Rafael Aidar é uma curta-metragem brasileira de ficção presente na secção competitiva do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 9 de Abril.
Quando Leandro (Victor Monteiro) chega à sua nova escola em São Paulo, a atracção por Jefferson (Jefferson Brito) é imediata e os dois travam uma amizade muito próxima passando juntos uma boa parte do seu tempo.
No entanto, à medida que esta amizade se desenvolve para um amor, Jefferson tem um segredo que precisa de partilhar com Leandro, o qual irá pôr em prova a cumplicidade que até então haviam partilhado, percebendo assim se o que existe entre ambos é de facto mais do que uma amizade de ocasião.
Rafael Aidar, também autor do argumento desta curta-metragem foca vários temas que são muito actuais e os quais são ao mesmo tempo esquecidos ou tabus que ninguém quer quebrar. Se por um lado somos levados a meandros menos claros da vida de "Jefferson", que até um dado momento não estabeleceu qualquer tipo de ligação ou intimidade com alguém, não é menos verdade que esta história faz-nos observar o seu crescimento e amadurecimento quando encontra a pessoa que imagina a seu lado e com o qual pretende partilhar a sua vida, mesmo os detalhes e situações mais frágeis e delicadas como acabamos por observar.
No entanto, o seu amadurecimento não é tido sózinho, e é "Leandro", que aparentemente se evidencia como a personagem mais frágil e possivelmente aquele que tem menos a perder ou a "jogar" nesta relação ainda pouco estabelecida que após o teste em que é colocado se demonstra ser a  personagem mais amadurecida principalmente pela sua aparente simplicidade de encarar a vida, pois nela também pensa ainda que sem os dramatismos de alguém a quem o tempo já tenha marcado de forma mais negativa.
O Pacote obriga o espectador a pensar também sobre a forma como os laços afectivos são estabelecidos... os prós e os contras que são, na prática, ultrapassados quando o sentimento se mostra superior a qualquer aparente barreira que exista ou que é colocada por aqueles mesmos que vivem a situação em questão e que nem mesmo uma potencial situação mais debilitante ou que provocará condicionamentos na relação quando tida mais física podem, ou conseguem, impedir que a mesma se concretize.
No entanto para o bom funcionamento de um argumento é necessário também que existe uma dupla de actores que denote uma química imediata, e isso acontece quando observamos a interpretação de Jefferson Brito e Victor Monteiro desde os primeiros instantes. Os seus olhares cruzam-se e basta um simples instante para percebermos que as personagens que interpretam têm mais a dizer sobre si (por si e no seu conjunto) do que a simples amizade que aparentemente poderiam ter, e ainda que esta curta-metragem não se resuma apenas a uma dita história de amor, pois ela reflecte também sobre a sua existência entre dois jovens como uma vida pela frente e que podem não estar interessados em estabelecer laços afectivos duradouros ou mesmo sobre o facto de um deles se encontrar perante uma condição mais debilitante, percebemos que ambos estão dispostos a assumir o risco e crescer juntos independentemente dos bons e dos maus momentos.
Ainda que centrada quase exclusivamente nas interpretações de Brito e Monteiro, há que destacar a interpretação sóbria e esclarecida de Francisco Gaspar enquanto "Professor Clóvis", o mesmo que aconselha "Jefferson" a que se quer uma relação séria precisa partilhar até o mais escondido dos segredos, aqueles que podem no futuro determinar todo o rumo da sua vida e que, ao mesmo tempo, funciona como um retrato de que o HIV ou o SIDA podem existir por detrás de qualquer um dos rostos com que nos cruzamos diariamente e que esta não passa de uma doença como tantas outras que já não são tabu.
Finalmente, e talvez aquela que seja a mensagem mais importante de toda esta curta-metragem, é o facto de que tenta consciencializar o espectador de que por vezes, quem sabe se não na maior parte das situações, não é tanto a doença ou a sua potencial capacidade destruidora que mata, mas sim a ideia de um vazio e de uma solidão que esta transporta quando aqueles que "nos" rodeiam se resolvem a afastar e esquecer a amizade que em tempos os uniu àqueles que se diziam seus "amigos". É esta mesma solidão, ou a sua perspectiva, que deve ser combatida e eliminada terminando com o tabu que a doença mata e esquecendo que aquilo que destrói aos poucos é a ideia de que o tempo passa sem ninguém ao lado que o testemunhe, mensagem esta que torna O Pacote mais do que uma simples curta-metragem mas sim um testemunho sobre a sobrevivência e o amor.
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9 / 10
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