sábado, 19 de abril de 2014

Il Capitale Umano (2013)

.
O Capital Humano de Paolo Virzì é uma longa-metragem italiana e o filme de encerramento da sétima edição da Festa do Cinema Italiano que ontem terminou no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Massimiliano (Guglielmo Pinelli) e Serena (Matilde Gioli) namoram. Ou pelo menos assim todos pensam. É esta relação que faz os destinos de duas famílias distintas se aproximarem de forma inequívoca.
Numa noite, um ciclista é atropelado e toda uma série de acontecimentos irá revelar não só os destinos como principalmente o carácter de todos os membros destas duas famílias.
Dividido em quatro capítulos distintos, o argumento de Il Capitale Umano da autoria do próprio realizador em colaboração com Francesco Bruni e Francesco Piccolo entrega o primeiro deles como um reflexão sobre uma das personagens principais deste filme, ou seja, "Dino" (Fabrizio Bentivoglio), um homem sedento de uma oportunidade de sucesso económico e financeiro e que vê na ligação que une a sua filha à poderosa família Bernaschi o seu momento.
O segundo capítulo entrega ao espectador uma perspectiva sobre a referida família Bernaschi através de "Carla" (Valeria Bruni Tedeschi), uma mulher da classe alta, abastada e de boas famílias mas incapaz de ter um projecto próprio de vida deixando-se ser anónima no seu propósito. Desinteressada e no seio de uma família que a ignora em boa medida, "Carla" pretende apenas conseguir ter um fim que justifique a sua existência. O terceiro capítulo dedicado a "Serena" (Matilde Gioli) - e o último dedicado a uma personagem específica - centra a sua dinâmica em torno da filha de "Dino", uma rapariga desinteressada de "Massimiliano", o seu namorado prepotente e dedicado a impressionar os amigos humilhando os demais. Com uma súbita paixão por "Luca" (Giovanni Anzaldo), é esta relação que irá dar o mote para a tragédia que se percebe estar próxima.
O último capítulo dá título a esta longa-metragem... "O Capital Humano". Considera-se capital humano os atributos de um indivíduo adquiridos através da sua edução, e é neste segmento que o espectador toma real conhecimento de toda uma vontade de uns se tornarem membros de um "meio" enquanto que outros tentam desesperadamente dele sair. Mas no final, o espectador questiona-se sobre aquilo que é realmente importante... Será o meio que define aqueles que a ele "pertencem" ou, por sua vez, serão as experiências e a compreensão do "outro" que definem a forma como cada elemento - independentemente do seu meio - interage com os demais? No essencial, é neste último segmento que o carácter de todos os personagens é finalmente revelado. Se uns querem desesperadamente fazer parte de uma suposta classe mais alta e abastada, estando portanto disposto a tudo, é também verdade que o espectador observa uma certa desumanização daqueles que a ele pertencem "naturalmente" não por se encontrarem distante do que se passa à sua volta mas sim porque vivem desesperadamente desinteressados do mesmo. Para alguns o que interessam as dificuldades alheias quando elas não lhes batem à porta? O que interessa um teatro ir encerrar quando o seu lugar poderá ser ocupado por um condomínio privado onde uma elite mais "abastada" pode criar melhor vizinhança?
Mas é também aqui que, no entanto, são também dados a conhecer todo um grupo de desumanizados mais "populares"... Os pseudo-intelectuais de fachada, os ideólogos que ninguém quer escutar e até mesmo aqueles que pouco tendo estão dispostos a tudo perder - valores incluídos - por uma miragem de aceitação num meio que simplesmente não os quer por perto ou aqueles que outrora culpados de um crime esperam agora por uma oportunidade que não chegará. Independentemente do seu estrato ou condição social, o "capital humano" - tido como os valores, educação e capacidades de cada um - mostram-se então como perdidos numa espiral de acontecimentos descontrolados dos quais todos pretendem escapar quer por medo, desdém ou medo irracional que as suas míseras existências estejam condenadas a um papel social que não transcenda aquilo que eles secretamente desejam.
Assim, e sempre cruzando segmentos e momentos pontuais, Il Capitale Umano reconta a história a partir de um acontecimento específico mostrando o outro lado do mesmo entregando, dessa forma, continuidade aos eventos que se sucedem sempre com o fim maior de revelar a condição humana - daqueles que têm todo o mundo nas mãos como daqueles que não o tendo pretende lá chegar - naquilo que têm de bom e principalmente ao mal que podem chegar transformando-se naquilo que repudiam.
Com um humor dramático - por vezes até trágico - e com interpretações que denotam o lado mais solitário de vidas que tudo e todos têm por perto, Il Capitale Umano reflecte sobre o Homem como um ser que normalmente sem valores, carácter ou motivações para lá das materiais, que desespera por uma ligação com os outros mas que igualmente treme quando a encontra.
Com uma intensa interpretação quer de Valeria Bruni Tedeschi como de Fabrizio Bentivoglio, Il Capitale Umano encerrou esta Festa do Cinema Italiano de Lisboa naquela que é uma estreia internacional que comprova, uma vez mais, toda uma clássica dimensão do cinema transalpino em saber contar histórias (des)humanas mostrando os dois lados do Homem... aquele que quer vencer mas principalmente aquele que se sente derrotado não só pelas suas limitações e circunstâncias mas principalmente pela forma como tenta alcançar aquele espaço que não é, ou será, seu.
.

.
8 / 10
.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário