quinta-feira, 9 de maio de 2013

Depois de Abril (2012)

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Depois de Abril de José Alberto Pinheiro é um documentário em curta-metragem que recupera um tema por vezes muito esquecido no cinema português como é o período do 25 de Abril de 1974.
Este documentário conta-nos a história do jovem militar Orlando Mesquita pelas palavras do próprio, a partir do 25 de Abril de 1974 quando se juntou à grande massa popular que saiu às ruas naquele importante dia da nossa História moderna.
Semanas após este dia que pôs um fim à ditadura que fez o país atravessar por décadas de pobreza, opressão e austeridade, Orlando é tal como inúmeros outros jovens, enviado para África para ajudar a limpar os vestígios do conflito. É então que se iniciam uma série de acontecimentos que o iriam marcar profundamente e, ao mesmo tempo, ajudar a reflectir sobre o mundo em que vivia e especialmente sobre o mundo em que hoje vive.
Eu poderia resumir todo este documentário numa breve, mas muito sentida, expressão... ele é simplesmente uma agradável e comovente experiência cinematográfica. Tantos são os documentários que, centrados numa tentativa de contar um facto histórico, se perdem em inúmeros relatos desprovidos de um factor essencial...a sua Humanidade. Aqui, por sua vez, é de forma intimista e próxima não só do realizador como principalmente do espectador a quem se destina a sua mensagem, transmitida toda uma experiência de vida que começa não necessariamente com os acontecimentos que Orlando Mesquita vivera em África mas principalmente sobre os ensinamentos de vida que lhe foram por eles proporcionados.
Não só este documentário é intimista pela forma como transmite as suas inúmeras mensagens sobre os reais valores de liberdade como também o faz de uma forma assertiva graças à constante presença de Orlando Mesquita que com muita calma e tranquilidade fala não para a câmara mas sim a pensar naqueles que estão para lá da mesma... os espectadores. A sua forma de transmitir a sua (e de todos) mensagem é cativante e perdemo-nos a escutar cada palavra sua com gosto e com vontade de termos mais dos seus conhecimentos, tão importantes são.
Desde as suas recordações de África onde ao contrário do que se pensava a guerra não havia terminado como que de um passo de magia se tratasse, e onde tal como nos relata Mesquita, "tudo o que era branco era para eliminar", o seu "batalhão de paz", acaba por se ver envolvido numa continuidade do conflito apesar de, oficialmente, este já não existir e do qual vários pensamentos traumáticos ainda permanecem como por exemplo o ter de eliminar uma quantidade enorme de cadáveres que, não podendo ser enterrados haviam de ser queimados. A morte é uma constante nas suas memórias, e todas as histórias que tem acabam por denotá-lo. Até mesmo no ambiente em que as conta, é presente a ironia das pinturas que se encontram atrás de si denotarem alguns destes elementos sendo que, ao mesmo tempo consegue manter uma postura muito espiritual e calma que nos faz querer sempre saber um pouco mais das suas experiências ditas "ultramarinas".
Tudo valia para se abstrairem da guerra desde a fé, a amizade que unia aqueles militares e até mesmo os "esquemas" que encontravam para se livrarem do conflito como por exemplo fingir insanidade e poderem assim voltar a Portugal, e é inquestionável que este período o(s) marcou para sempre, e cada sua expressão marca vincadamente este período das(s) sua(s) vida(s).
Orlando Mesquita é, do início ao final, a alma deste documentário. Não só o é por ser o indivíduo que nos fala sobre as suas experiências como também pela forma como o faz e, ao mesmo tempo, ter composto a música que ambienta as suas palavras e fazendo assim com que o espectador o escute como se o estivesse a fazer num frente a frente e deixando-nos com um conjunto de pensamentos que exprimem por um lado a sua celebração à liberdade que tem como por outro lado, as mágoas e as feridas que este período da sua vida e da nossa História lhe deixaram.
Normalmente prefiro nunca comentar grandes pensamentos retirados dos filmes a que assisto mas, no entanto, achei de grande interesse algumas ideias aqui explicitadas, nomeadamente aquela que escolho para terminar este comentário a este genial documentário, um dos melhores que vi nos últimos tempos e digo-o sem qualquer reserva ou segundo pensamento. Expressão essa que sem qualquer imagem é apenas escutada, tal a sua importância, e que deveria ser retida pela sua dimensão como que numa representação de um local onde a realidade (seja ela qual fôr) não é um dado presente. Para além de sabermos que Orlando, possivelmente como tantos outros, nunca matou ninguém em conflito, ele refere-nos que "nunca se deixou morrer". A dor, para um humanista, de ter passado por um conflito onde a vida é um bem que está sempre em risco, é um fardo real mas que nunca se esquece, e é esta sua mensagem de tal forma comovente que a meu ver representa o clímax de todo o documentário.
E ao mesmo tempo Orlando deixa-nos alguns pensamentos sobre o passado que podem muito bem ser aplicados nestes dias conturbados pelos quais atravessamos... Fala-nos sobre a incapacidade de o destruir enquanto ser humano pois não conseguindo comprometer os seus valores, a sua capacidade de raciocínio ou de felicidade, não destruíram o indivíduo, o Homem e o ser pensante capaz de interagir e de viver em sociedade podendo assim transmitir a sua mensagem, especialmente por ser tão importante.
As conquistas e os feitos deste documentário são demasiadamente importantes para que ele não seja visto. Desde o seu conteúdo histórico que é importante para qualquer sociedade que se preze, como também pelo conteúdo humanista e forma de "interagir" através do seu interlucutor, a mensagem que pretende fazer chegar ao espectador. Com uma estrutura simples e eficaz, este documentário prende-nos ao ecrã durante os pouco mais de vinte e quatro minutos de duração que tanto poderiam ser três vezes mais que não seriam demasiados. A capacidade de transmitir uma época histórica e uma mensagem humana predominam ao longo de todo o filme que se assume facilmente como um dos mais importantes trabalhos documentais dos últimos tempos bem como uma aposta forte e segura do realizador que acertou no ponto certo da nossa História ao conseguir transpôr o passado para o presente fazendo com que a sua mensagem seja eterna e muito actual e que num país que levasse a sua História e o seu cinema a sério o tornaria obrigatório em qualquer escola e o facilitaria para exibições públicas sobre o nosso passado recente.
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"Orlando Mesquita: Nunca me deixei matar... não é fácil viver com isso."
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10 / 10
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