domingo, 5 de maio de 2013

Dune (1984)

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Dune de David Lynch, que em algumas versões aparece referenciado como Alan Smithee por se ter afastado do projecto após conflitos relacionados com o aspecto criativo com que discordava, vai ser possivelmente um daqueles comentários que faço e com o qual muito poucos irão concordar.
Num futuro muito distante, todo o Universo conhecido é governado pelo Imperador Shaddam Corrino IV (José Ferrer) que controla a exploração de uma importante e vital especiaria que todos cobiçam. Esta especiaria permite não só a extensão da vida como da própria consciência e, mais importante ainda, permite a segura concretização de viagens no espaço a qualquer momento.
Os conflitos de poder levam a que o Imperador inicie uma perseguição à casa de Atreides onde o seu líder, o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) goza de uma popularidade invejável e do qual suspeita estar a criar uma nova arma que ameace o seu poder. Os planos do Imperador são assim criar uma emboscada ao Duque, e enviar os Harkonnens para o eliminar, ao mesmo tempo que planeiam matar Paul Atreides (Kyle MacLachlan), filho do Duque que tem sonhos proféticos sobre o seu próprio destino heróico.
Pelo meio das intrigas palacianas e das conspirações que põem em causa toda a segurança do Universo e muitas histórias paralelas que poderiam causar outros tantos filmes independentes desta trama principal, será realmente Paul o tão esperado Messias que irá conduzir o Universo no rumo da prosperidade?
É assumido que a minha simpatia pelas obras de David Lynch recai sobre aqueles títulos que normalmente muito poucos gostam nomeadamente The Straight Story, O Homem Elefante ou Coração Selvagem e que tenho uma certa resistência a todo o demais conjunto de títulos que este realizador tem assinado, sendo que no entanto reconheço o verdadeiro mérito e potencial que o realizador tem para recriar universos muito próprios e característicos que de uma ou outra forma acabam por seduzir um vasto leque de fãs e seguidores.
No entanto, se lhe reconheço esse mérito não deixa também de ser verdade que este Dune, uma obra que arrisco dizer roça o trágico e muito pobre, e que surge depois de títulos como O Homem Elefante e Veludo Azul que são algumas das suas mais emblemáticas obras. Dune, cujo argumento escrito pelo próprio Lynch tendo como base a obra de Frank Herbert, é um conjunto de pequenas histórias que nunca se completam ou com potencial suficiente para se desenvolverem (mas que originariam um filme de mais de dez horas certamente) e que apesar de conter um vasto e interessante elenco de actores é completamente arrasado e arruinado por uma série de clichés baratos e efeitos especiais que nem o mais amador dos filmes faria.
Os cenários não só não são credíveis como todo o universo que se pretende recriar parece retirado de um qualquer cenário de terceira categoria que sobreposto se assemelha a uma colagem primária de elementos descoordenados e descontextualizados. O potencial de vida noutros planetas em sociedades das quais estamos afastados por milhares de anos é vasto o suficiente para se concretizarem histórias ricas e desafiantes mas, no entanto, aquilo que aqui temos é de um perfeito amadorismo do qual nem os próprios actores, reputados e galardoados, se escapam.
A fotografia de Freddie Francis que pretende transformar todo o ambiente numa atmosfera futurista e surreal (que poderia ter-se concretizado caso Salvador Dalì tivesse realmente feito parte deste filme), são completamente destruídos pela pouca credibilidade que os cenários têm que, quando não parecem montagens, são claramente filmados em estúdio onde a imagem se sobrepõe ao cenário.
As interpretações, como já referi, são desastrosas. Se pensarmos na presença de actores como José Ferrer, Max Von Sydow, Linda Hunt, Virginia Madsen, Kyle MacLachlan, Patrick Stewart, Brad Dourif e Silvana Mangano entre tantos outros, esperamos ter um filme que seja não só o tal "desfile de estrelas", mas principalmente uma obra que tenha tanto de desafiante como de entusiasmante e nos cative pela sua prestação como principalmente pelo ambiente para o qual estas mesmas interpretações devem contribuir. Aqui... tudo falha em grande. Não gostamos dos vilões nem simpatizamos com os supostos heróis... o que dizem e fazem parece fraco, pobre e sem qualquer ponta de entusiasmo, e logo credibilidade, e parece que estão todos lançados à sua sorte na esperança de que algo, alguma vez, corra bem e à excepção do futurista e rico guarda-roupa de Bob Ringwood tudo o demais é mau o suficiente para ser verdade.
O potencial existe... o filme no entanto é enfadonho e de tal forma turtuoso que muito rapidamente estamos perfeitamente fartos dele e a desejar para uma morte (final) bem rápida. Para os fãs incondicionais de Lynch, ou do género, o filme possivelmente até pode funcionar, mas para aqueles que como eu chegaram a este filme receptivos por uma história futurista e cativante mas que pouco conheciam do ambiente da obra, o que é certo é que vamos encontrar um filme estranho, sem uma linha condutora credível e com pontas soltas que davam para a tal história de mais de dez horas que, na prática, jamais iremos ver.
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3 / 10
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