terça-feira, 14 de maio de 2013

Two Moon Junction (1988)

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Corpos Escaldantes de Zalman King dá continuidade a uma certa obsessão que o realizador manteve em dirigir pequenos contos eróticos de fraca qualidade mas que, misteriosamente, fizeram sucesso junto do público sedente das mais imaginativas coreografias sexuais.
April (Sherilyn Fenn) é uma jovem sulista que regressa a casa depois de terminar os seus estudos num reputado colégio. Como todas as jovens de uma sociedade bem hierarquizada, April prepara-se para casar com Chad (Martin Hewitt), o seu respeitado e aceitável namorado.
Num pequeno passeio com as suas irmãs pela feira local, April conhece Perry (Richard Tyson), um tipo que vive as suas próprias regras e conduta moral que na prática representa tudo aquilo que a família bem "estruturada" de April repudia mas que a fascina. No momento em que a sua vida parece estar planeada para sempre, April reconsidera tudo aquilo em que sempre pensou e que achou ser moralmente aceite, ao mesmo tempo que a sua paixão sentimental e sexual por Perry conhece contornos que até então lhe eram desconhecidos.
Pouco, muito pouco, há mais para dizer sobre este filme cujo argumento de Zalman King e MacGregor Douglas parece falar por si só. King dá continuidade ao devaneio começado com Nove Semanas e Meia e que continuaria com Orquídea Selvagem entre outros títulos dúbios do género onde as, há altura, novas esperanças cinematográficas femininas davam também asas às suas próprias fantasias de como conseguiriam alcançar a fama e o sucesso. Se Kim Basinger pagou caro durante anos com a sua credibilidade arruínada até quase final dos anos 90, não é menos verdade que Carré Otis se eclipsou quase instantaneamente e Sherilyn Fenn que aparentava ser uma jovem promissora, igualmente se desvaneceu em presença mais ou menos irregulares em filmes que eram também eles bem duvidosos e que jamais passariam das prateleiras empoeiradas do mais dúbio clube de vídeo.
A história quase ininterrupta apenas muda de rostos... De Mickey Rourke e Kim Basinger passamos a Richard Tyson e Sherilyn Fenn para mais tarde voltarmos a Mickey Rourke e Carré Otis, num sem fim de meninas mais ou menos inocentes e com vontade de viver e se afirmarem no mundo contra a vontade dos país, das famílias e das sociedades ultra-conservadores que de uma ou outra forma não só controlavam os seus destinos como as suas vontades e que encontravam aqui no mais suspeito e destemido "garanhão" de serviço a forma de se rebelarem (sexualmente) contra as normas impostas em tempos e que apenas se destinavam a cumprir como perpetuação das poderosas famílias de outros tempos. Não importava que, neste caso concreto, "April" seja uma mulher com estudos e com um futuro promissor porque na prática o que importa é que seja mais uma mulher/mãe de uma extensa família que o seu marido, normalmente mais imbecil que ela, sustenta orgulhosamente.
A "April" de Sherilyn Fenn é assim a personificação da emacipação da mulher que podendo ter tudo, não tem o principal... a sua individualidade. No entanto, tal como o filme, nada disto é tão linear ou perfeito assim, e esta história que na teoria tem um fundo de auto-afirmação e dignificação do ser "mulher", na prática desvirtualiza toda esta afirmação para a transformar em mais um objecto de desejo, menos digno ainda do que aquelas que o são assumidamente... e porquê? Porque esta quer mais e melhor para si, para a sua vida e para aquilo que sabe representar mas, na prática, assume a mesma postura e comportamentos que aquelas que logo de início se assumem como "mulheres para o prazer carnal", ridicularizando assim toda uma vontade de ser mais do que um mero "desejo".
Dito isto, e depois de perto de uma hora e meia de boas vontades que não são cumpridas, interrogo-me apenas com uma pergunta que é, a meu ver, essencial... o que terá levado Louise Fletcher vencedora de um Oscar pela sua tenebrosa interpretação como a Enfermeira Ratched no filme Voando Sobre um Ninho de Cucos, a participar num filme como este que está não só a milhas do seu potencial como também a milhas de um qualquer patamar mínimo de qualidade? Desejo profundamente que a resposta a esta pergunta se mantenha apenas e só pela necessidade de um salário e que esta "interpretação" tenha vindo colmatar qualquer dificuldade momentânea. À Louise Fletcher garanto que irei eliminar com convicção esta imagem da minha mente e fingir que nunca a vi por aqui.
Este filme é assim um trabalho que apenas irá interessar aos apreciadores do género (eles existem?), e mesmo esses tenho a impressão que ficarão desiludidos com a falta de "sumo" que existe por estas bandas porque ele é, do princípio ao fim, um relato medíocre e absurdo dos actores, da história, do género e principalmente do nosso tempo.
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2 / 10
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