quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Turno da Noite (2017)

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O Turno da Noite de Hugo Pedro é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Ela (Filipa Matta) é empregada de quarto num hotel de luxo. Sem que dê conta uma famosa actriz (Fanny Ardant) está no quarto. O mundo das duas colide quando trocam umas quantas palavras. Mas, poderá Ela esperar algo mais daquele encontro?
A ascensão social e o desejo de uma vida de luxo e opulência estão no centro desta nova curta-metragem do realizador de Primária (2013) e A Minha Idade (2014) opondo num mesmo espaço dois mundos distintos e centrados em objectivos diferentes. A primeira destas personagens é uma empregado de quarto de hotel interpretada por Filipa Matta, farta do seu trabalho e pelo que percebemos da sua própria vida, deseja poder viver um pouco do luxo e da opulência que qualquer uma daquelas pessoas a quem limpa o quarto vive. Com o pensamento fora do espaço em que se encontra, ela deixa-se levar pelos seus devaneios e pelas conversas que vai ocasionalmente tendo quer ao telefone quer para consigo própria até que... uma das hóspedes do hotel está no mesmo quarto em que ela se encontra.
A actriz - uma sempre magnífica Fanny Ardant - observa-a e deixa-se levar pelo ar de curiosidade que tenta esconder. A troca de palavras que têm denota não só que a empregada já se expôs demais nos seus desejos como uma certa frieza realista por parte desta actriz que não encontra grande brilho ou encanto na vida que leva. Esta troca de palavras cai num momento de triste realidade quando ambas se revelam... uma ansiosa por uma vida melhor que a tire daquele lugar e a faça esquecer o meio mais humilde de onde vem e a outra desesperada por um abraço - ou mais algum contacto físico - que o dito "mundo real" não lhe permite ter.
A sua imediata separação - ainda que por breves dias - permite então que a empregada assuma o lugar da cliente. Que vista as suas roupas... que experimente o seu quarto... que se banhe com sais e até que disfrute o devaneio sexual e fetiche sado-masoquista que e actriz havia encomendado... para ela própria. Se uma sentiu o abraço "sincero"... a outra sentiu uma vida diferente repleta de novas experiências mas que, ainda assim, não deixa também de ser suficientemente artificial para que dela nada reste.
Os dois mundos separam-se com a noção de que não existe liberdade, tal como aquela que é retirada ao pequeno pardal que a actriz mantém no seu quarto e, ainda que permaneça numa gaiola dourada que a diferencie das demais, não deixa de ser uma prisão que todos - actriz, empregada e pardal, têm de viver. Todos existem nas malhas de uma sociedade que os prendeu a um canto... à fama e ao estrelato... ao trabalho e à percepção de que nada mais existe para além do mesmo... e um outro a uma prisão conferida por uma espécie dominante... com mais força e mais poder que o condenam a uma prisão dourada. No entanto, é esta mesma noção de realidade que a todos une... a noção de uma aparência que tem de ser mantida como se a própria fosse garante de uma vida real... de uma vida especial ou mesmo uma vida à qual todos estivessem destinados. Então, porque não fingir um pouco e esperar - quando se pode - ter algo mais?!
Se Filipa Matta tem a interpretação dominante desta curta-metragem revelando alguém cujos objectivos não foram cumpridos e que é consumida pelo seu desejo desesperante de "algo mais", é Fanny Ardant que consegue roubar todo o foco da câmara graças aos seus breves instantes "em cena". A sedução e a confirmação de uma grande senhora do cinema transparecem nestes breves instantes e o seu discurso (des)moralizador concentram, no fundo, toda a dinâmica que estas duas mulheres desenvolvem entre si e para com o mundo que as rodeia.
O Turno da Noite é assim uma - mais uma - das magníficas obras de Hugo Pedro que cada vez mais se afirma como um dos nomes maiores de um novo cinema português bem como confirma a sua capacidade em revelar e contar histórias que vão para lá da simples comédia - como é o caso - fácil transformando-se naquela que é trágica, mordaz e até mesmo satírica de mundos que se aproximam mais do que aquilo que se distanciam.
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7 / 10
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