sábado, 18 de novembro de 2017

It Comes at Night (2017)

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Ele Vem à Noite de Trey Edward Shults é uma longa-metragem norte-americana cujo argumento da autoria do próprio realizador remete o espectador para um tempo incerto onde a desolação, o medo e a existência de uma praga desconhecida remetem Paul (Joel Edgerton) e a sua família para o seio de uma floresta onde sobrevivem isolados do mundo exterior graças a uma ordem e um ritual ao qual se auto-impuseram para se refugiaram de um perigo que espreita para lá do desconhecido.
No entanto, é quando chega Will (Christopher Abbott) e a sua família que todos são colocados à prova, deixando-se consumir por esse desconhecido e pelo medo irracional que o mesmo impõe no seio de todos, fazendo-os temer não só o que se encontra para lá das suas novas fronteiras como principalmente aquilo com que se deparam dentro da sua própria casa.
It Comes at Night não poderia ter chegado em melhor altura. Num momento histórico e político em que se suspeita de tudo e de todos e que se criam medos e resistências para lá do imaginável sobre o que se esconde para lá do nosso próprio campo de visão, a longa-metragem de Trey Edward Shults chega primeiro como uma fria análise sobre os comportamentos humanos neste século XXI como também uma feita àquilo que esconde a irracionalidade daqueles que são (foram) os homens ditos de bem.
À excepção de todo um clima tenso e de suspeito que afecta todos as personagens de It Comes at Night de uma forma geral, são os pequenos e muito breves momentos em que a vida parece finalmente começar a "correr bem" dentro da catástrofe que o espectador pode analisar de forma mais fiel aquilo que são, no fundo, os comportamentos e o fundamental da personalidade dos membros destas duas famílias. Se a suspeita mina a inicial relação entre os dois homens - Edgerton e Abbott -, é a sua convivência que os transforma em improváveis aliados nestes (agora) tempos de crise onde a união faz, literalmente, a força. De potenciais inimigos a uma dupla que une duas famílias, a suspeita chega quando os comportamentos de alguns fazem ameaçar o bem-estar de todos e, por consequência, o estado de saúde que pode ser facilmente ameaçado por esse "vírus" que ameaçou - e talvez até tenha eliminado - a Humanidade. Deste vírus pouco sabemos. Aliás, o único elemento que nos chega do mesmo são os breves "rumores" de que falam sobre o seu aparecimento e, ainda que nada seja revelado dos seus efeitos, aquilo do qual o espectador tem conhecimento é, no fundo, os breves efeitos físicos que algumas destas personagens denotam no decorrer do seu relato. Sabemos que se propaga pelo ar e apenas de noite - eis a sugestão do título - mas claramente não a todos os humanos... e pouco sabemos da vida animal aparentemente não afectada pelo mesmo. Sabemos que existe alguma vida (talvez) inteligente nos poucos humanos que parecem resistir mas não onde se encontram ou em que condições para lá da óbvia militarização dos mesmos. No entanto, é no seio deste pequeno grupo de seis membros que residem os elementos importantes de It Comes at Night.
O perigo exterior está, obviamente, já mencionado; o vírus. No entanto, e voltando um pouco atrás no relato, é a suspeita que surge entre as famílias que reside o mais importante. Em condições ditas normais e nas quais a sociedade funciona com os mecanismos de segurança e protecção assegurados, a suspeita de uma infecção, de uma doença, de um contágio ou até mesmo de uma pandemia colocaria todos sobre-aviso e com atenção para os pequenos sinais de alarme. Aqui, onde tudo aparenta ter falido e onde a sociedade - então como a conheceram - já não existe, são as pequenas suspeitas dentro do grupo que marcam o tom e o passo dos destinos de todos. Permitir que um estranho - por muito próximo que com ele agora se esteja - continue a residir no espaço que é "meu" ou, por sua vez, eliminar este invasor de quem, na prática, nada se conhece? Esta decisão, agora fulcral, poderá manter o espaço livre de qualquer elemento potencialmente perigoso que, pela força ou pelo uso dos recursos (para os quais também contribuiu) tente dominar e controlar e, dessa forma, manter a sua superioridade, é aquela que irá num instante dominar a mente de todos... e num mundo (agora) dominado pelo medo, quem tem mais poder controla não só os recursos como todos aqueles que circulam ao seu redor. E It Comes at Night é sobre isto mesmo... a irracionalidade, a percepção do poder como forma de sobrevivência e o encontrar nos demais o tal "outro" que pode pôr a causa a existência do meu "eu".
No meio desta análise sobre a irracionalidade e sobre a suspeita existe ainda a simbologia presente mais ou menos explícita de It Comes at Night começando pelo mais óbvio e que é, no fundo, um dos principais elementos da "segurança" de todos... a porta vermelha. Depois de ver It Comes at Night, o espectador começa involuntariamente a pensar no que observara nomeadamente sobre o referido mundo exterior... Nunca são confirmados detalhes do que está para lá das árvores ou da floresta, nem mesmo quando "Paul" e "Will" são confrontados com alguns desconhecidos que os tentam eliminar... Aliás, o único destes sobreviventes é instantaneamente eliminado por "Paul" impedindo-os de obter respostas sobre o mundo tal como o conheceram, levantando - de imediato - uma questão pertinente sobre a existência ou não do mesmo ou, por sua vez, será que nos encontramos nalguma "real" realidade e não num subterfúgio onde mentes perdidas passaram a residir como se de um novo purgatório se tratasse.
Ainda que esta ideia de purgatório parece conflituosa - para o espectador - e até mesmo improvável dada, por exemplo, a necessidade de encontrar alimentos para subsistir ou mesmo água, a realidade é que a existência da já referida porta como garantia de uma segurança face ao desconhecido perde-se quando, arbitrariamente e sem aparente conhecimento de nenhum dos resistentes, "Stanley", o cão de "Paul" é brutalmente ferido por... ninguém... regressando à casa depois de um misterioso desaparecimento ao encontrar "algo" nesse tal horizonte desconhecido para lá das árvores da floresta. Rapidamente, e sem grandes demoras, aquilo que assola a mente do espectador é, por um lado, estar perante um cenário macabro onde já nada existe além da porvir tomada de consciência de alguém que já não é, ou seja, almas que ficaram retidas nesse purgatório à espera de compreenderem a sua extinção ou, num cenário mais negro e catastrófico esta extinção confirmou-se e aquilo que existe é o nada - daí nunca ser vislumbrado pelos intervenientes - deixando apenas a estas personagens a capacidade de reproduzirem pelas suas expressões a incredulidade e a desconfiança face a tudo o que vêem "à sua frente". Se o "nada" consegue ganhar forma... então é esse mesmo "nada" que por eles é observado.. quão assustador será?!
Mas, no final, e sem visões mais ou menos românticas (ou esperadas) desse fim não anunciado, aquilo que permanece com mais firmeza na mente do espectador é a irracionalidade dos homens normais. A irracionalidade que se apodera do mesmo quando em tempo de crise... tempos de incertezas, de faltas de segurança, dos medos face a um (im)provável desconhecido, face ao "outro" e até mesmo a propósito dos "meus" que, no risco de serem afectados por esse mal desconhecido, se transformam também eles em alvos do meu medo e, como tal, elementos que precisam ser eliminados em nome da minha segurança que é, pela falta de recursos e da minha própria desumanização, cada vez menos.
Em It Comes at Night residem ainda três pilares fundamentais... Edgerton como o pai de família que tenta sobreviver com a mesma mantendo tudo o que é exterior à sua casa trancado... Trancado metaforicamente uma vez que é o próprio que se isola dentro de uma casa deixando todo o demais mundo - ou o que dele existe - fora de portas. Forte, letrado e no antigo mundo talvez um homem incapaz de manter um trabalho mais físico, é ele que agora domina o meio tomando nas suas mãos o trabalho mais árduo mesmo que este implique livrar-se daqueles que entretanto ficam doentes. Por outro encontramos o "Travis" de Kelvin Harrison Jr. - filho de "Paul" - cujas ânsias de um jovem de dezassete anos ganham cada vez mais forma não só pela perda dos seus, como do mundo que deveria estar a descobrir assim como pela "invasão" de um novo grupo de  pessoas que despertam (em certa medida) os seus próprios anseios sexuais e sentimentais agora cada vez mais difíceis de serem respondidos. Finalmente encontram Christopher Abbott e o seu "Will" que, de certa forma, acaba por ser uma personagem em muito semelhante ao "Paul" de Edgerton na medida em que é um pai de família para a qual tudo faz - incluindo mentir - para a proteger e manter e que tenta encontrar na aliança com os poucos demais que ainda subsistem a sua própria sobrevivência mantendo, no entanto, sempre a confiada desconfiança como método de auto-sobrevivência. Três pilares, três mundos, três pontos-de-vista e três existências que, em tempos normais, poderiam ser complementares mas que, neste novo mundo, apenas se assumem como marcos de uma desconfiança generalizada na qual o "outro" (mesmo que conhecido) é todo um mundo de potenciais ameaças às quais "eu" não posso - nem quero - ceder porque o medo que "sinto" e que se apoderou de "mim" e da minha existência comanda e condiciona todo o "meu" pensamento.
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8 / 10
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