domingo, 30 de junho de 2013

4M (2011)

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4M de Nelson de Castro e Wilson Pereira é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos conta a história de Diogo (Hugo Costa Ramos) e Estela (Sara Gonçalves), dois activistas que vivenciam uma penitência numa altura social, económica e moralmente conturbada.
Quando Diogo é capturado e aplicada sobre ele a nova lei 4M, a pergunta que se impõe prende-se com a impossibilidade das relações humanas e o futuro dos cidadãos que estão assim impedidos de manifestar as opiniões divergentes das impostas pelo governo.
O argumento de João Farinha, Nelson de Castro e Wilson Pereira não poderia ser mais ironicamente actual quando nos deparamos com uma vontade secreta de banalizar a manifestação e o direito à mesma onde numa sociedade que se assume cada vez mais individualista e desinteressada para com os reais problemas que a afectam se conforma lentamente com a "inevitabilidade" daquilo que lhe é imposto.
Numa época, independentemente dela qual fôr, em que alguns dos mais importantes direitos pelos quais toda a nossa sociedade se rege, devemos questionar-nos sobre a relevância dos mesmos não só para a mesma como principalmente para a consciencialização de classe e do próprio ser Humano e, como consequência directa, até que ponto abdicar hoje de um direito abre um precedente para outros serem questionados.
Esta curta-metragem que me chegou às mãos muito recentemente, deixa-me assim pensar sobre a sociedade em que vivemos e os perigos que afectam diariamente a nossa forma de vida onde se incute constantemente uma certa ideia de que manifestar é perigoso, que as manifestações e greves não trazem benefícios (antes pelo contrário), e especialmente que se o fizermos poderemos colocar em causa certas seguranças e garantias que até à data nos têm sido "dadas", quando na prática todas elas foram conquistadas no passado através da luta de muitos.
As inspiradas e cúmplices interpretações de Hugo Costa Ramos e de Sara Gonçalves encarnam assim na perfeição este sentimento de estarem por um lado marcados pelo afastamento que lhes é imposto e assim impedidos de socializar a uma distância que lhes permita solidificar a sua própria relação, e por outro sentimos também que o clima da sociedade em que vivem é fortemente austero e pouco livre, fazendo com que todos sintam o receio de viver tranquilamente as suas opiniões e posições sociais e políticas.
Destaque ainda para a direcção de fotografia de Nelson de Castro que consegue conferir a esta curta-metragem uma interessante atmosfera ao tempo e ao espaço em que se vive, como se nos encontrássemos numa época diferente, mas não tão distante quanto isso.
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8 / 10
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