sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Os Meninos do Rio (2014)

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Os Meninos do Rio de Javier Macipe é uma curta-metragem luso-espanhola de ficção já vencedora de vários prémios internacionais que leva o espectador a uma viagem entre dois mundos específicos... O primeiro prende-se com a realidade de uma classe mais desfavorecida que vive junto da Ponte D. Luís I na zona ribeira do Porto e a segunda - algo mais fantasiosa - remete-nos para os sonhos e desejos sentimentais de Leo (Leonardo Durães) um jovem rapaz para com Samira (Samira Ramos), uma sua vizinha.
O ponto de encontro de ambos - e de todos os demais jovens da zona - é aquela Ponte de onde saltam para o Douro como o único hobbie que encontram num tempo que não lhes é favorável. Mas Leo pretende conquistar o coração de Samira e, para isso, tem de impressioná-la com algo diferente e original.
Javier Macipe escreve este argumento que tem tanto de terna e de despertar sentimental como, ao mesmo tempo, lhe confere um olhar cru e actual onde a crise económica paira no ar não só pelas notícias que se escutam em pano de fundo como também pelo próprio meio social escolhido para que esta história ganhe forma. Um dos rapazes - "Eurico" (Eurico Garcês) - salva um suicida e quase ao mesmo tempo escutamos as notícias de cortes salariais que pairam no ar. Existe um misto de melancolia e desespero nos corações destas pessoas e quer seja pelo despertar sentimental de "Leo" ou pela dura realidade que vive para lá daquilo que o seu coração revela, o espectador percebe que estes tempos não são os mesmos... algo mudou enquanto os olhos piscaram e o sonho, ainda que pequeno aos olhos dos demais, deu lugar a uma realidade que é ainda desconhecida. Quer seja constatar aquilo com que todos os dias se tem de conviver ou mesmo a adolescência que bate à porta - deixando para trás toda uma existência inocente - o mundo simplesmente mudou.
Num registo que facilmente poderá aproximar o espectador de Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira, Javier Macipe consegue com Os Meninos do Rio entregar um retrato actual sobre esses mesmos meninos - outros - que parece retirado da época... com as mesmas ilusões, os mesmos desejos e os mesmos sentimentos, aqui encontramos a prova de que o mundo avança no tempo - cronológico - mas este não é portador de grandes e significativas mudanças nas vidas daqueles que o habitam. Todos acabam por ter a mesma vontade de existência, de amar, de pertencer, de encontrar e viver algo que os diferencie... A mesma inocência perde-se um dia quando o mundo deixa de ser tão cor-de-rosa como algures no tempo o pintámos e os problemas - ou ânsias - crescem à medida que o tempo se faz marcar nos nossos rostos... primeiramente de forma quase imperceptível e aos poucos marca a sua estadia.
O Porto é, também ela, uma cidade que se assume personagem. Os lugares e os recantos, a Ponte D. Luís I e as suas gentes complementam um espaço de si único e com um encanto que não a deixam para trás de qualquer outra cidade. Cativa pela sua presença, pelos seus sotaques e pela sua tranquila imposição. A história - composta de várias histórias - apenas poderia ser contada nesta cidade e neste espaço em particular e ela assume-se silenciosamente como um elemento que, não falando, comunica com os seus sons tornando perfeitamente compreensível o porquê do fascínio de Macipe por filmar esta história neste local.
No final, uma não tão simples dedicatória que - também ela - fala por si... "a las chicas que nunca me quisieron y nunca me querran"... firmando Os Meninos do Rio como um filme curto que encerra uma etapa... que confirma uma despedida e abre a porta a um novo caminho... um caminho que se vislumbra por explorar e que com todas as incertezas de quem começa de novo se mostra grande, difícil e incerto... mas que se percebe ter de ser explorado, vivido e experimentado.
No final, e depois de reflectidas as pequenas histórias e nuances de Os Meninos do Rio, o espectador percebe que acabou de assistir a uma pequena jóia que conseguirá guardar com o mesmo carinho e admiração com que tem guardado a referida obra de Manoel de Oliveira e que - afastadas as comparações de maior - pode ser também ela o filme de uma geração... mas agora do século XXI. Nesse mesmo final pergunto-me ainda se encontramos assim tantas diferenças entre os jovens dos idos anos 40 e aqueles que agora dão a cara por esta história...
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"Leo: Já só resta de mim esta voz que te fala silenciosamente."
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9 / 10
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