sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Desespero (2013)

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Desespero de Rui Pilão é a mais recente curta-metragem do jovem realizador português que venceu o CinEuphoria de Melhor Curta-Metragem Portuguesa no início do ano com a sua magnífica curta Aqui Jaz a Minha Casa, e que agora concorre ao Prémio YORN de Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa na edição deste ano do MOTELx.
Um homem (Miguel Rubim) senta-se no escuro da sua casa depois de um acto hediondo que iria definir irremediavelmente o destino da sua família. Ele aguarda por algo ou alguém que irá culminar num clímax inesperadamente assustador.
Ela (Vanessa Ribeiro Rodrigues), a sua mulher, chega a casa e questiona-o sobre o corte da luz enquanto comenta que os dias serão melhores depois de receber o salário daquele mês. Este pequeno confronto verbal irá desencadear uma sucessão de acontecimentos que nos irá revelar as suas verdadeiras personalidades e, acima de tudo isto, até onde vão para colocar um fim aos seus problemas económicos.
Rui Pilão consegue com o seu argumento entregar uma história de terror diferente do habitual. Longe de qualquer possessão demoníaca ou assombração, aqui o terror (sobre)vive graças a algo bem mais assustador e presente nos nossos dias e que se prende essencialmente com factores da dita crise que hoje atravessamos. Aquele jovem casal, com anos e tempo pela frente, depara-se com uma situação que parece aos poucos ir castrando qualquer tipo de sonho ou ambição que possam ter. Os alimentos que escasseiam e que estão impossibilitados de comprar ou uma conta de luz que não conseguem pagar são apenas alguns dos muitos problemas que podem estar a atravessar naquele momento. Ele sem trabalho... ela com um que exerce mas que não consegue colmatar todos os seus compromissos fazem com que a sensação de impotência tome conta das suas vidas.
Dito isto, o "demónio" (a existir um), é aquele que pelo desespero do momento se vai aos poucos apoderando das suas vidas, das suas acções e das escolhas que têm invariavelmente de fazer. Escolhas estas que para além de os guiar os vão definindo num ser que não conhecem (ou que julgavam não conhecer) e que age segundo parâmetros muito diferentes daqueles que sempre idealizaram e com os quais se identificavam até àquele momento específico. Momento esse que parece funcionar como um escape, como uma forma de atravessar uma situação que pode parecer claustrofóbica, sufocante e demasiadamente surreal pois mesmo passando por ela parece que a estão a observar a uma distância de segurança que os afasta da tal realidade que, essa sim, consegue ser assustadora.
O par protagonista consegue transferir para o espectador uma estranha e invulgar dinâmica que só peca por não se concretizar ainda mais. Percebemos que aquele casal um dia teve amor, que existia cumplicidade e que construíram aquilo que em tempos foi "uma" vida. O último acto entre ambos isso confirmou... o beijo. O beijo que embora forçado no meio de um desentendimento demonstra que estabeleceram um último elo de ligação, ou pelo menos aquilo que se pretendia como tal. No entanto, esse mais não foi do que o "click" que fez despoletar toda a tragédia que se fazia adivinhar.
Entre os dois actores existe uma ligação bem conseguida e condutora para a narrativa desta curta-metragem mas, ao mesmo tempo, temos dois elementos que nos deixa à espera de mais. De Miguel Rubim, que recria um novo tipo de vilão ao encontrar apenas no seu (deles) desaparecimento a solução para todos os seus problemas, e que tem uma presença forte e dinâmica em Desespero, há uma certa necessidade do espectador em ter mais da sua personagem. O que tem feito desde que ficou sem trabalho? Qual o tal click que o levou a transformar aquele dia no último que poderia ver? O que fazia antes e que tipo de homem era? São tudo questões que independentemente de não obstruírem o desenrolar da acção, fazem com que se sinta falta de as ver respondidas.
No que diz respeito a Vanessa Ribeiro Rodrigues que começa como uma simpática e afável mulher com a qual criamos uma instantânea cumplicidade, a sua personagem fica algo tremida quando, no momento mais alto do seu próprio crescendo, parece denotar uma certa teatralidade que quebra um pouco a dinâmica que recriou com o espectador. No entanto, a sua personagem fica redimida com o público quando no exacto final mostra um estranho alívio e contentamento com toda a finalização da sua "obra".
Tecnicamente, a direcção de fotografia de António Morais consegue transportar-nos para um ambiente e espaço quase mórbidos. A falta de luz, a ausência de espaços vivos para onde desviarmos a atenção e dando àqueles mais apagados uma estranha "vida" que nos obriga a concentrar nas expressões dos dois actores, faz o espectador sentir que se encontra num espaço outrora que calor mas que agora apenas alberga a morte ou aqueles que para lá caminham. Já a música original de Nuno Osório que nos insere numa atmosfera dura e pesada poderia ser dispensada nos momentos em que "Ela" caminha para a descoberta da morte do seu ente mais querido pois corta alguma da tensão dramática que se espera obter apenas pelo espaço, pela sua esperada dor e pelo som da sua respiração ofegante que aumentariam exponencialmente o clímax de toda a curta-metragem.
Como os dois apontamentos finais apenas posso referir aquilo que já se torna óbvio em primeiro lugar quanto à confirmação de Rui Pilão como um jovem e emergente cineasta que terá com toda a certeza um futuro promissor num cinema português que (espero) lhe abra as portas e em segundo lugar que o terror está para além de uma "simples" possessão... O verdadeiro terror encontra-se nas reais acções e intenções dos homens comuns que um dia encontram o seu ponto de ruptura não conseguindo dele fugir e que praticam o mal apenas porque sabem que o podem e "devem" fazer. Desespero é disso um reflexo ficcionado (ou talvez não) que nos deve preocupar pela potencial semelhança com acontecimentos reais que, de vez em quando, nos entram pela casa graças aos inúmeros relatos televisivos a que assistimos.
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7 / 10
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