terça-feira, 17 de setembro de 2013

Harvey (1950)

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Harvey de Henry Koster é possivelmente um dos mais emblemáticos títulos da extensa carreira de James Stewart e que lhe valeu uma das inúmeras nomeações a Oscar de Melhor Actor, numa adaptação da peça homónima de Mary Chase.
Esta é a história de Elwood P. Dowd (Stewart), um homem simpático e prestável que afirma sem qualquer pudor estar sempre na companhia de Harvey, o seu melhor amigo, que não é mais do que um coelho gigante e invisível (apenas ele o vê), que com ele comunica naturalmente.
Quando esta estranha ocorrência de Elwood põe em causa o bom nome da família perante a sociedade, Veta Louise (Josephine Hull) a sua irmã, embarca numa missão de o internar numa instituição psiquiátrica na esperança de que ele fique melhor. No entanto, como nada ocorre como se espera, é a partir deste momento que um conjunto aparentemente interminável de mal entendidos ganham forma, sempre com Elwood e "Harvey" como os seus centros dinâmicos, tendo como consequência acontecimentos maiores que ninguém poderia prever, nomeadamente o saldar dívidas com o passado ou até mesmo o nascer de uma paixão improvável.
Oscar Brodney e Myles Connolly juntam-se a Mary Chase para a adaptação cinematográfica da sua peça, e criam em conjunto um argumento que nos remete para um campo bem mais longínquo do que uma "simples" alucinação sobre um qualquer amigo imaginário que nos conta algumas verdades incómodas. Aqui, o espectador é levado para um espaço onde "Elwood", o único interveniente mais ou menos lúcido (será sempre discutível), encarnado por uma magnífica interpretação de James Stewart, consegue ver para além das intenções da maioria daqueles com quem convive ou se cruza. Assim, e num misto de loucura afirmada pelos demais, tece comentários sobre as suas acções para com os outros, sobre as suas próprias posturas no mundo ou na sociedade que tentam desesperadamente impressionar ou, num domínio mais pessoal, sobre a capacidade de expressar sentimentos que jamais se assumiriam em condições ditas "normais" e sempre, sem excepção, com uma acentuada comédia que funciona não necessariamente para o espectador se deixar levar pelas gargalhadas mas sim poder pensar na verdade daquelas palavras que foram proferidas por "Elwood".
Aqueles que lhe resistem acabam eles próprios por mostrar sinais de uma loucura que jamais iremos ver em "Elwood", enquanto que aqueles que se deixam levar pelos seus comentários e observações sobre a vida conseguem, a seu tempo, encontrar nas suas palavras uma estranha razão para a qual não tinham olhado mas que lhes abre portas para a vida (ou seu possível sentido), facto para o qual contribui em absoluto uma notável interpretação de James Stewart que não só é (foi) um dos rostos de primeira linha da velha Hollywood com também um expressivo actor que por vezes e apenas com um (não tão) simples olhar consegue entregar um mundo de emoções e de sentimentos nem sempre possíveis de expressar por palavras. E mesmo estas, quando lhe chegam a um ritmo quase tão alucinado como aquele no qual ele parece viver, são não só cortantes como conseguem desarmar qualquer um pela lucidez com que as profere. Afinal, não teremos todos nós um louco dentro de nós?!
É esta mesma lucidez que por vezes se coloca como um entrave no trato entre as pessoas, criando barreiras e limites às relações interpessoais que "Elwood" aqui consegue quebrar mostrando-se afável, próximo e prestável mas que face à lucidez dos restantes se revela, aos seus olhos, como o factor que delimita a sua própria sanidade. Poderá alguém ser assim tão "saudável" se diz estar na companhia de um coelho gigante que fala com ele? No entanto, nunca ninguém se questiona do porquê de um homem adulto, com uma vida aparentemente estável e sem problemas ter de recorrer a essa mesma figura para se sentir inserido numa sociedade que abertamente lhe diz não o querer. Enquanto uns utilizam métodos pouco convencionais para se inserir num espaço ou grupo outros parecem pouco se preocupar com o mesmo. Enquanto os primeiros aceitam ser excluídos ou ter de provar ali pertencer, outros decidem não se importar com as convenções e padrões de etiqueta estabelecidos pelo "socialmente correcto". Mas no fundo todos, sem qualquer excepção, procuram apenas o seu espaço numa comunidade que nem sempre está preparada, ou receptiva, a aceitar a diferença. Diferença essa que, no entanto, caracteriza cada um e a sua respectiva diversidade.
Finalmente a compôr o duo dinâmico deste filme temos Josephine Hull como "Veta", a irmã de "Elwood" que tudo faz para manter as aparências, sempre as aparências, para com essa mesma sociedade mesmo que isso represente afastar-se de um irmão que a ama em favor de uma sociedade que simplesmente pode afastá-la também a ela, constituindo assim um elemento dinâmico da comédia, mas não uma qualquer... daquelas que nos mostram o quão absurdo qualquer um de nós pode ser quando perdemos tempo a respeitar padrões esquecendo toda uma vida que espera por nós.
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"Elwood P. Dowd: Years ago my mother used to say to me, she'd say, "In this world, Elwood, you must be" - she always called me Elwood - "In this world, Elwood, you must be oh so smart or oh so pleasant." Well, for years I was smart. I recommend pleasant. You may quote me."
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7 / 10
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