sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Chained (2012)

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Chained de Jennifer Lynch foi um dos últimos filmes exibidos no segundo dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e que conta com a interpretação de um intenso Vincent D'Onofrio como actor principal.
Bob (D'Onofrio) é um sinistro condutor de táxi que de cada vez que em serviço tem uma mulher no seu táxi a leva para casa onde a viola e mata. Num dos seus "serviços" transporta Sarah (Julia Ormond) e Tim (Evan Bird), o seu filho de sete anos. Enquanto Sarah tem o mesmo trágico destino, Bob serve-se de Tim para seu escravo e efectuar todo o tipo de serviços que deseja.
Os anos passam e Tim torna-se num jovem homem (Eamon Farren) que, acorrentado para não poder escapar, testemunha tudo aquilo que Bob faz ao longo dos anos ao mesmo tempo que pretender fazer dele o seu protegifo.
Irá o agora adulto Tim continuar o legado de Bob... ou será que finalmente vai descobrir toda a verdade por detrás deste sinistro rapto?
Jennifer Lynch que além de dirigir o filme escreveu também o seu argumento inspirada na história de Damian O'Donnell, consegue não só dar continuidade a um registo onde as suas personagens parecem pertencer a um universo alternativo demasiadamente violento para ser real, mas que o é, como também recriar um ambiente tenso e claustrofóbico do qual parece que as suas personagens (as vítimas) jamais irão conseguir escapar naquela que se mantém uma estranha e desconfortável expectativa até bem perto do final da narrativa.
As personagens seguem desde o primeiro instante uma continuidade quase mórbida, tal como o é a relação estabelecida entre ambos, e que apenas tem um elemento explicativo perto do final quando percebemos quais os elos que ligam "Bob" a "Tim" e o verdadeiro motivo pelo qual o primeiro manteve sempre vivo o segundo como se de um disciplinador e educador se tratasse.
Vincent D'Onofrio é o vilão perfeito para o género em questão e cedo percebemos que ele consegue ser verdadeiramente assustador e manter-nos em suspenso relativamente aos seus actos. Se por um lado ele se mostra como um demónio vestido de uma aparência pacata que vive uma existência banal igual a tantas outras, não é menos verdade que muito rapidamente se transforma revelando assim aquilo que tão arduamente esconde dos demais e, apesar de algo esbatido em tantos outros filmes do género, a explicação dada para tal comportamento chega muito cedo demonstrando alguma previsibilidade que, ainda assim, não afecta a dinâmica principal do filme.
Por sua vez Evan Bird e Eamon Farren que interpretam o jovem "Tim" em dois momentos específicos da sua vida conseguem captar o fundamental da sua essência e, no fundo, da relação que manteve com o seu raptor. Se inicialmente enquanto jovem criança Bird dá um retrato de alguém perdido que apenas que voltar a encontrar o seu pai e fugir de alguém que destabilizou toda a sua existência, não é menos verdade que Farren revela um lado mais ponderado, pensativo e calculista que equaciona todas as suas hipóteses e como deles tirar o melhor partido, algo que no seu cativeiro conseguiu reter de tão abominável homem como fora "Bob", aparentemente desenvolvendo por ele uma estranha e invulgar empatia e da qual só serão mais tarde revelados os seus verdadeiros motivos e "porquês", mostrando assim a duplicidade do seu título que faz de Chained não propriamente a referência à corrente que o detém mas sim aos elos invisíveis que nos prendem às mais diversas pessoas.
Shane Daly, o director de fotografia, consegue captar a essência do ambiente pretendido. Por um lado uma casa perdida no meio de um ambiente austero que elimina qualquer cor que poderia entregar ao espaço um ambiente mais familiar e próximo do desejado desenvolvimento de uma criança. Por outro, não deixa de inserir pequenos apontamentos de luz que tornam o espaço onde este passa a maior parte do seu tempo como o lar que deixara de conhecer. É esta dinâmica aqui encontrada que nos faz perceber a real dimensão da ligação entre raptor e raptado que nos atinge de surpresa já bem perto do final, e que explica muita da dinâmica entre ambos.
Finalmente, e como um apontamento paralelo, é curioso verificar como Chained denota uma vez mais a tendência geral deste ano cinematográfico de terror onde a crise e as sucessivas carências financeiras e sociais marcam aquilo que se quer do real terror... longe de possessões demoníacas são os espíritos irrequietos do homem comum que realmente atormentam e espalham o terror no seio daqueles que com eles convivem por vezes até muito de perto demonstrando que o verdadeiro demónio pode esconder-se por detrás dos rostos daqueles que sempre conhecemos.
Um passo à frente de Surveillance faz deste Chained a marca actual de Lynch que se quer assumir como um dos novos nomes do terror moderno e irreverente.
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8 / 10
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