terça-feira, 20 de maio de 2014

Whip It (2009)

.
Sobre Rodas de Drew Barrymore, e a sua primeira longa-metragem de ficção enquanto realizadora, conta com um elenco de interessantes intérpretes que se destacaram na comédia ao longo da sua carreira, nomeadamente a própria Barrymore, e ainda Ellen Page enquanto protagonista, Kristen Wiig, Jimmy Fallon, Marcia Gay Harden e Daniel Stern.
Bliss Cavender (Page) é uma jovem de dezassete anos cuja mãe Brooke (Harden) considera que a forma de ser feliz e conquistar um futuro estável passa pela vitória de concursos de beleza para adolescentes.
No entanto, os concursos de beleza pouco significado têm para Bliss e quando descobre que em Austin, a metrópole mais próxima da pequena cidade de interior onde vive, existe uma competição dita "profissional" de patinadoras que jogam forte e feio no seu desporto... Bliss ganha um novo significado para a sua pequena e desinteressante vida.
É no seu percurso de descoberta do mundo, e principalmente da sua auto-descoberta, que Bliss vai finalmente perceber qual o significado da (sua) verdadeira felicidade (numa curiosa ironia com o seu próprio nome).
Shauna Cross escreve o argumento de Whip It tendo como base o seu romance "Derby Girl" que tem como principal mensagem a auto-afirmação e descoberta de uma jovem que sente ser grande demais para o local de onde provém. Os sinais estão todos presentes desde o primeiro instante começando logo de imeadiato quando vemos a jovem "Bliss" na tentativa de agradar a uma controladora mãe que pretende sim a felicidade da filha desde que a mesma não pressuponha ter novas experiências que desafiem os limites da pequena comunidade em que vive. Afinal nada mais perturbador do que alguém conseguir encontrar-se, e ao seu próprio caminho, numa comunidade que não está preparada para reconhecer a diferença... seja ela qual fôr.
A individualidade perdeu-se... ou melhor, nunca se encontrou. "Quem sou eu?" "Quais os meus objectivos?" Ou um simples "onde está a minha felicidade?" são perguntas às quais "Bliss" se auto-reprimia de questionar. A ideia de um futuro incerto ou de um caminho que lhe poderia trazer precalços diferentes daqueles que haviam sido impostos aos seus pais era algo assustador demais ao ponto de ser considerado impossível. Afinal, enquanto jovem mulher o seu passo seguinte será o de vencer aqueles concursos de beleza em que a sua mãe a inscrevia e consequentemente casar e ser mãe preparando de forma quase ininterrupta o mesmo caminho para as suas filhas. Um ciclo vicioso que não determina aquilo que ela será mas sim aquilo que os demais esperam que ela se torne, também eles quase inconscientemente... é uma norma... um costume... um hábito...
O que acontece quando esse hábito se quebra é, no entanto, a revelação da verdadeira essência de cada um. A descoberta de um novo percurso e a aceitação, de "Bliss" enquanto quem constrói o seu próprio futuro, mas especialmente dos seus pais que querendo a sua felicidade questionam-se se as suas ideias e escolhas serão as melhores para a alcançar.
É esta ruptura entre as diversas personagens que constitui, desta forma, a melhor mensagem deste filme pois questiona-se, e questionamo-nos, sobre aquilo que cada um de nós é realmente, ou seja, a imagem que criamos sobre os nossos gostos, preferências, desejos, ambições e objectivos ou se apenas somos um reflexo daquilo que os outros têm aos longo dos tempos visto como sendo o "melhor" para nós, independentemente de estar correcto ou não ou sequer de ser bem ou mal intencionado?!
Podem ser pequenas e quase frívolas as ideias de felicidade que cada um tem para si mas, no entanto, é a sua execução e concretização que nos define, ou pelo menos parte de nós próprios, e que estabelecem os ensinamentos, positivos ou não, que nos formam e nos moldam face aos conhecimentos que deles adquirimos. É nesta amálgama de sentimentos e de experiências, que não esquecem o primeiro amor, que "Bliss" vive, e ao qual Ellen Page entrega uma vez mais muita alma e uma dose extraordinária de sarcasmo, e que nos remete então para aquele pequeno grande detalhe que conjuga a mensagem de Whip It com a ironia do nome da sua personagem principal... "Bliss" (felicidade), não se encontra perdida algures através de ideias pré-formatadas pelos demais... A felicidade, composta seja pelo que fôr, encontra-se dentro da auto-realização... dentro da concretização dos nossos sonhos, objectivos, princípios e limites ultrapassados que, a seu tempo, nos garantem os conhecimentos suficientes para percebermos o que queremos e onde podemos ir ou estar. Numa ideia mais resumida... a felicidade encontra-se dentro de cada um... tão perto e tão óbvio que se torna em tantos momentos tão difícil de encontrar... sem sequer estar escondida.
A dinâmica estabelecida entre Ellen Page e Marcia Gay Harden é sentida desde o primeiro instante. Ambas estão perfeitas enquanto mãe, conservadora e controladora, e filha desejosa de uma liberdade que parece não chegar, que sabe ir contra os princípios da sua mãe mas que não consegue ignorar pois sabe ser neles que se encontra a si própria. Harden, não sendo propriamente uma personagem maldosa ou rancorosa, é perfeita enquanto a mãe receosa do futuro da sua filha, que deseja objectivos maiores para a sua filha, possivelmente os mesmos que nunca conseguiu alcançar para si própria e que por esse mesmo motivo vê no seu diferente rumo uma forma desta não os conseguir obter.
Ainda que ambas estejam longe de nomações para prémios, ou até mesmo das suas melhores interpretações, não é menos verdade que ambas estão num patamar em que dividem de forma harmoniosa os dois polos opostos de uma potencial mesma alma... uma recalcada pela segurança que os seus objectivos lhe dão e a outra pela liberdade que os seus pensamentos lhe mostram e que, como tal, anseia e deseja recorrendo assim a todo um conjunto de novas experiências que, aos poucos, a vão moldando para o seu próprio futuro.
O restante elenco secundário (mas não menos importante) compõe um conjunto de personagens ricas em mensagens também elas simbólicas e que quase funcionam como vozes da consciência... Daniel Stern enquanto "Earl", o pai, é o típico elemento que tenta a estabilidade cedendo tanto a mãe como a filha para encontrar o ponto comum a ambas... A já referida Kristen Wiig que se torna na melhor amiga de "Bliss" e aquela que lhe dá ocasionais e ponderados conselhos sobre a forma como deve conjugar a sua nova vida e aqueles valores que os seus pais lhe transmitiram, e uma Juliette Lewis como "Iron Maven", a arqui-inimiga de "Bliss" que no seu próprio processo de auto-descoberta irá fazer de tudo para prejudicar a vida da protagonista.
Barrymore, que também interpreta este filme num desempenho banal e assumidamente secundário, destaca-se mais pela sua realização competente e capaz de captar planos bem interessantes do meio (dos quais deixo já a imediata referência para todo o segmento debaixo de água entre Ellen Page e Landon Pigg), assim como para a captação de imagens durante os torneios que se destacam pela intensidade e agressividade que transmitem de uma competição que se assume como feroz e bruta.
Ainda que Whip It não seja um daqueles filmes que ficam enquanto referência de uma época, e possivelmente tão pouco dos actores que o interpretam ou da realizadora que o dirige, não é menos verdade que não deixa de ser um bom filme de entretenimento que se preocupa não só em divertir os espectadores como transmitir uma interessante e ponderada mensagem de auto-afirmação e descoberta pelos quais todos atravessam... cada um à sua própria maneira.
.
.
7 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário