sábado, 3 de maio de 2014

Remissão Completa (2014)

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Remissão Completa de Carlos Melim é uma curta-metragem portuguesa de ficção que foi seleccionada para o Short Film Corner do Festival Internacional de Cinema de Cannes este ano que nos conta a história de Miguel (José Mata), um bem sucedido advogado que não olha a meios para atingir os seus fins.
É após a doença que afectou fatalmente a sua mulher que Miguel reconsidera a sua vida e os seus actos ao mesmo tempo que reencontra Ricardo (Afonso Lagarto) um velho colega da escola que o irá auxiliar num projecto no qual jamais pensaria participar.
Carlos Melim, cuja última curta-metragem fora De Mim... também seleccionada para Cannes, dirige uma sentida reflexão sobre o indivíduo, neste caso ele próprio e a forma como abraçou uma nova vida afastada do seu espaço dito natural, e abraça um argumento escrito por Frederico Ferreira não sobre o "eu" individual mas sim na sua interacção numa sociedade moderna onde todos parecem ser engolidos pelo clima de constante instabilidade e incerteza que se faz sentir.
José Mata interpreta a personagem "Miguel", aquele tipo yuppie com uma vida desde sempre facilitada e sem preocupações, arrogante por natureza e que olha para os problemas dos outros, e especialmente para os próprios, como meros "empata tempos" com que tem de lidar diariamente. É, no entanto, quando a fatalidade e um problema real lhe batem à porta que é obrigado a olhar para aqueles com quem convive de uma forma mais humana, e perceber que existe mais para além dos números e dos prazos que sempre estimou ou até mesmo das extravagâncias e marginalidade com que viveu até aquele momento.
É desta espiral de indiferença em que "Miguel" se encontra a que de certa forma, e bem irónica, se aplica o título desta curta-metragem estabelecendo sim um paralelismo para com a doença que afectou de forma fatal a sua mulher mas, ao mesmo tempo, dando pistas sobre a sua própria condição no mundo como se de uma doença social se tratasse (e trata) e da qual desperta para compreender e humanizar o seu estado enquanto Homem em sociedade.
É este estado de espírito que o argumento de Frederico Ferreira pretende transmitir ao espectador e que são engenhosamente captados pela direcção de Melim bem como da direcção de fotografia também da autoria do realizador e de Mário Ferronha, que inicialmente nos coloca num espaço frio, distante e barulhento que impede de ouvir quem os rodeia, mas que com o passar do tempo faz com que o espectador se sinta cada vez mais próximo de "Miguel" e este, por sua vez, de todas aquelas pequenas vidas que anteriormente desprezava pela sua simplicidade.
Destaque ainda para a participação especial, mas determinante pelo prenúncio que dá ao argumento, de João Lagarto como o homem que procura um novo financiamento para a sua fábrica e conseguir assim manter vivo o trabalho daqueles tantos a quem emprega e, como tal, manter também ele o seu próprio sustento. Em breves instantes, e com uma simples mas tão mordaz frase, consegue deixar vivo o verdadeiro espírito que caracteriza esta sociedade tão descaracterizada.
Remissão Completa, que ironicamente se remete para a própria condição de "Miguel" em sociedade na qual a sua "doença" é totalmente psicológica e não física, é não só uma prova superada para o realizador madeirense como é principalmente um novo contributo que tantos dos cineastas portugueses desta nova vaga têm dirigido e que caracteriza o cinema nacional como alerta e consciente dos diversos problemas pelos quais o país vive onde por entre crises políticas, económicas e sociais se debatem velhas questões de sobrevivência, de consciência e principalmente de humanidade que tendo estado aparentemente perdida durante tanto tempo parece agora querer mostrar e revelar os primeiros sinais de que afinal, de uma ou outra forma, sempre esteve presente nas mentes de todos nós.
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"Há doenças que não têm cura, ser filho da puta não é uma delas."
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8 / 10
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