quinta-feira, 8 de maio de 2014

Calou-se. Saiu. Saltei (2014)

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Calou-se. Saiu. Saltei. de Bruno Carnide é uma curta-metragem portuguesa de ficção e a meu ver uma das mais fortes obras deste jovem realizador que aqui se apresenta com um trabalho maduro, bem estruturado e dotado de uma mensagem forte e agressiva sobre as famílias e relações modernas das mesmas onde a distância e o isolamento consomem o indivíduo.
Um homem (numa notável e seca narração de Marcos Paixão) fala ao espectador sobre diversos momentos da sua vida privada em família e de como as relações que se supunham mais próximas são, na realidade, aquelas que denotam um crescente distanciamento para com ele.
Dividido em três distintos segmentos Calou-se (o primeiro) centra-se na relação de um homem com a sua mulher desde que a sua filha os deixara de acompanhar para todos os locais. O segundo Saiu, na relação entre este mesmo homem e a sua filha que se revela uma jovem mulher preparada e distante na sua própria vida. Finalmente o terceiro segmento, Saltei, apresenta-nos uma breve conversa entre dois amigos que desabafam sobre as suas vidas fracassadas e sem objectivos.
Paulo Kellerman assina este argumento dotado de vários graus de violência onde os dois primeiros se centram naquela que é psicológica e na agressividade com que são expostos os diferentes estados de espírito das personagens; um homem que pretende uma segunda oportunidade com uma mulher após anos de cuidados com a filha, e finalmente a relação com esta já não como uma jovem criança mas sim como uma jovem mulher com a qual pretende (re)conhecer enquanto pessoa com objectivos próprios.
O desconforto presente nestes dois segmentos é notório e o espectador pressente a inquietude que os mesmos trazem àquele homem que, nunca sendo visto pois só observamos imagens vários sobre os locais onde poderiam se encontrar, se vê perdido numa teia de relações, familiares e de amizade, que lhe revelam ser bem diferentes daquilo que ele sempre havia imaginado.
Por sua vez, o terceiro e último segmento desta curta-metragem é de certa forma uma conclusão e desfecho das expectativas que ele prevê no seu futuro onde convive com pessoas que, na sua essência, desconhece. Pessoas que com o tempo se tornaram estranhas apesar de conviverem todos no mesmo espaço, e que mais não são para ele que que vultos daquilo que em tempos conhecera, transformando-se assim este segmento naquele que não só exibe uma violência psicológica pela agressividade das palavras utilizadas como também física pelo desfecho que este homem encontra para resolver os problemas que sente ocuparem-me o espaço.
O realizador Bruno Carnide termina este trabalho no qual se assume como uma força motora do mesmo onde para além da referida realização assume também posições chave na produção, montagem e direcção de fotografia, a qual transforma pelo seu carregado p&b e o efeito granulado da imagem a representatividade de uma memória distante de um tempo que a sua personagem principal recorda vagamente e que agora mais não são do que uma perpetuação da violência que os momentos actuais lhe transmitem pela impossibilidade de se repetirem.
De referir igualmente que a transposição de um argumento difícil e cru, mas assumidamenete genial, de Paulo Kellerman para o ecrã, está de tal forma fluído e convincente que o espectador sente o incómodo que as palavras e os momentos proporcionam ao ponto de os visualizarmos como se neles nos encontrássemos presentes.
Carnide apresenta-nos assim um trabalho maduro não só pela sua execução técnica como também pelo desespero inerente a uma anónima personagem principal e principalmente pela mensagem e desfecho crus e duros que nos apresenta no seu final e que o confirmam como um dos novos talentos no e para o qual deveremos manter debaixo de olho.
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8 / 10
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