segunda-feira, 26 de maio de 2014

Centurion (2010)

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Centurião de Neil Marshall é uma longa-metragem britânica centrada na época do domínio Romano do actual território inglês deixando apenas livre a zona norte da ilha.
Na Bretanha de 117, Quintus Dias (Michael Fassbender) é o único sobrevivente de um ataque dos bárbaros a norte e que tenta a vingança às ordens do General Virilus (Dominic West) e com o apoio de Etain (Olga Kurylenko), uma desertora da referida tribo.
Conseguirão Quintus Dias e Viriulus destruir, com o apoio da Nona Legião, a temida liderança de Gorlacon (Ulrich Thomsen), líder da tribo, ou estará à sua espera uma surpresa que irá assombrar a invencível esquadra Romana?
Numa viagem pelo passado e por um dos maiores mitos da História do Império Romano, Centurion tem como base um potencial - não factual - fim da já referida Nona Legião. Não se centrando necessariamente no seu fim mas sim utilizando-o como o motor de um outro enredo, Centurion conta a história de "Quintus Dias", um sobrevivente das hordes bárbaras que consegue encontrar-se como um estranho não só em terras que lhe são estranhas como também naquelas que o viram nascer.
Para lá de uma história dentro da História, Centurion ficciona uma eventual recriação de um dos mais importantes mitos britânicos, ou seja, como uma pequena tribo conseguiu resistir - e vencer - a mais importante e mítica legião Romana lançando-os numa armadilha que ditaria a sua própria extinção. Desta forma previa, ao mesmo tempo, o término do Império Romano ou, pelo menos, perspectivando que esse fim poderia ser uma eventualidade e, como tal, uma possibilidade.
À parte das questões históricas, aquilo que sobressai desta longa-metragem britânica é a sua vertente de aventura e de acção que se afirmam pela vontade de sobrevivência que as suas personagens fazem sentir; Romanos - por um lado - por se encontrarem em território hostil que os domina pelas suas adversidades geográficas e climatéricas enquanto são, ao mesmo tempo, perseguidos por uma tribo feroz que tendo ela sido vítima das injúrias e violências do ocupante querem, também eles, marcar a sua vingança agora que se sentem em superioridade física. Por outro lado, temos estes mesmos bárbaros - comandados por uma violenta "Étain" (Kurylenko) que deseja mais que tudo saldar a dívida de um passado que lhe foi roubado e que a marcou por um crime de ódio.
Todos, de uma ou outra forma, passam por esta história como sobreviventes de um acontecimento trágico e marcante. Todos desejam ser o (único) sobrevivente de uma história que se faz contar a cada dia que passa e que tem no seu seio as próprias marcas de vingança, traição e afirmação - pessoal e social - mas que, no final, nos deixa a questão sobre quem tem a razão suprema ou, pelo menos, quem é mais vítima às mãos de quem... No fundo, se pensamos que estes bárbaros são uma vítima às mãos Romanas, não é menos certo que temos às suas mãos também relatos de violência forçada - de "Gorlacon" sobre o seu filho que desde jovem idade tenta inserir nas vinganças do clã, bem como a ostracização a que veta "Arianne" (Imogen Poots) por querer ser dentro da sua tribo mais do que uma guerreira cujo ódio marca as suas acções e razão de existir. Ao mesmo tempo, se por momentos pensamos que os Romanos são também eles vítimas de uma sangrenta vingança aos mãos da tribo bárbara, não é menos verdade que assistimos a um acto de traição palaciana quando "Quintus" passa a ser persona non grata da qual têm de se livrar para não envergonhar a toda poderosa Roma.
No final temos um meio termo... Uma potencial história de um novo começo. Um mundo paralelo inserido no meio de dois territórios que são por si só inóspitos e do qual tanto "Quintus" como "Arianne" pretendem fugir. Ambos são indesejados nos espaços que até então haviam considerado como a sua casa. Ambos foram expulsos e marcados no seio do seu espaço seguro. Como tal, porque não tratar o desconhecido - a terra de ninguém - como o único lar que ambos podem construir e considerar realmente seu vivendo numa potencial harmonia... pelo menos enquanto esta durar.
O "Quintus" de Michael Fassbender - pelos Romanos - e a "Étain" de Olga Kurylenko - pelos bárbaros - encarnam desta forma os rostos de dois lados que encontram tanto de semelhanças como de diferenças na medida em que ambos acabam por ser joguetes dos interesses de cada um dos "lados". Se "Quintus" serve como o inesperado herói que acaba por ser traído por quem o glorificou, é "Étain" que também é utilizada através da sua história pessoal para ser o rosto da liderança de uma vingança e libertação social que apenas poderia terminar na desgraça. Ambos tentam - cada um à sua maneira - sobreviver numa sociedade que apenas os reconhece como proveito próprio acabando por terminar em desgraça nos mesmos.
Os dois actores que dominam o ecrã em doses relativamente equilibradas dão corpo a esta dicotomia entre vítima vs. agressor dependendo da perspectiva em que se enquadram. Se inicialmente cada um deles se posiciona em pólos opostos, é também certo que com o decorrer da história invertem a sua condição experimentando aquilo que outrora "um" provocara ao "outro" oscilando assim entre culpa e inocência fazendo com que a validade dos seus (deles) actos dependa do momento histórico em que são apresentados e defendidos.
Estando longe de se tornar numa referência do género e dependendo muito das interpretações dos agora "hollywoodescos" Fassbender e Kurylenko, Centurion funciona enquanto filme de aventura/acção tendo como base um acontecimento histórico/mítico que ainda hoje não foi desvendado bem como pela espectacularidade dos cenários naturais que dão uma vida mais "selvagem" à própria História.
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"Quintus Dias: (...) this is neither the beginning nor the end of my story."
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7 / 10
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