segunda-feira, 12 de maio de 2014

Por Siempre Jamón (2014)

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Por Siempre Jamón de Ruth Díaz é uma curta-metragem espanhola de ficção e a última presente na secção Cantabria da quinta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que terminou no passado dia 10 de Maio na referida região espanhola, no qual tive a honra de estar enquanto membro do júri.
Ruth (Ruth Díaz) está prestes a casar. As dúvidas apoderam-se dela à medida que se aproxima a hora de dizer o "sim". Com uma mãe preocupada ao ponto de se sentir não só pressionada como muito perto de uma angústia desesperante, ninguém melhor do que o seu amigo Asier (Asier Etxeandía) para a ajudar a ultrapassar com alguma tranquilidade estes momentos decisivos.
Ruth e Asier são amigos desde jovem idade e os sentimentos que nutrem um pelo outro talvez não estejam ainda resolvidos, podendo estar desta forma o casamento de Ruth comprometido pelos mesmos... ou talvez não!
Ocasionalmente surgem filmes pelos quais criamos uma empatia natural e especial. Quer seja pela sua história que por estar próxima cria uma identificação pessoal, pelo clima em que é rodado que nos deixa vontade e desejo de poder estar "ali" para dele poder disfrutar ou até mesmo pelo conjunto de actores que não só estabelecem uma química imediata entre si como também o fazem através da sua história, do seu meio e das suas experiências com o espectador que assiste aos seus momentos e com eles cria uma cumplicidade imediata que nos faz desejar-lhes bem.
Por Siempre Jamón é uma amalgama de todos estes elementos. Se por um lado Ruth Díaz nos emociona com a sua composição de "Ruth", uma mulher perdida não na incerteza do seu amor mas sim na eventualidade de se parecer no futuro com a imagem da sua tempestiva mãe que não a larga por um instante, não é menos verdade que ao mesmo tempo somos levados por todo o positivismo de um Asier Etxeandía e o seu "Asier" que nos encanta com a tranquilidade e dedicação que entrega à sua amiga que, para ele, é mais do que tal designação.
A química de Díaz e Etxeandía transpira por todos os momentos desta curta-metragem e o espectador acompanha-os nas suas memórias, nas suas recordações de uma amizade que é já longa e principalmente numa cumplicidade que revela mais do que meros sentimentos fraternos ao ponto de, secretamente, desejarmos que aquele casamento que deixa "Ruth" em pânico... não se concretize. A comunicação de ambos vai para além das palavras. Os olhares, os gestos e o simples saber que um é essencial estando perto do outro compõem muito daquilo que não é dito. O que não é dito é, possivelmente, aquilo que é melhor entendido e que leva o espectador a perceber, sentir e de certa forma também ele desejar que a noção de "almas gémeas" realmente existam... Mas, como todas, estão condenadas a não partilharem um caminho juntas sendo aqui concretamente impedidas pela iminência de um casamento prestes a ser consumado.
Esta cumplicidade, ainda que presente desde os primeiros instantes em que conhecemos "Ruth" e "Asier" ainda como crianças nas suas brincadeiras, ganha toda uma nova dimensão quando ambos, já em adultos, se encontram na velha cabana na serra onde recordam todos os momentos dessa infância em comum onde as promessas pareciam duradouras e os segredos eram partilhados a dois. É neste mesmo espaço que somos transportados numa viagem que sentimos frágil não por ser passageira, bem pelo contrário, mas por se revelar cúmplice, eterna, sentida e confirmada pela presença dos dois naquele espaço que fez (faz) parte da sua história comum. Aquele local que, supomos, assistiu a uma boa parte do seu crescimento e dos pequenos segredos que nunca iremos descobrir (nem precisamos) e que a ambos une. Espaço esse que aos poucos também nos confirma algo mais do que a amizade que percebemos não o ser só, e que sentimentos estar a escassos instantes de terminar; "Ruth" tem de casar... todos a esperam e tudo está preparado. Estes instantes são os últimos que passam numa cumplicidade que sabemos ir agora, de uma ou outra, forma terminar.
Ruth Díaz, e este seu brilhante Por Siempre Jamón criam no espectador um conjunto de sentimentos e sensações que estando tradicionalmente presentes em todas as histórias de amor não deixam também de se fazerem sentir como atípicas do género. Aqui não vamos assistir ao típico filme de uma nova indecisa quanto ao seu casamento mas sim na ideia de que este, podendo não ser aquilo que desejava, a transformar numa mulher amarga, frígida e que um dia pensa na vida que podia ter e perdeu por se comprometer perante uma "instituição" à qual se sentiu obrigada. É com este pressuposto como base que somos então levados à viagem pelo seu feliz passado que compõe um presente de dúvida com vista a um futuro tido como "certo" (ou talvez não), que o espectador vive num misto de incerteza sem sequer o saber, fazendo desta história aparentemente simples um dos mais bem elaborados e bem dispostos contos sobre o amor, a amizade e um futuro desconhecido que se sabe cúmplice.
Díaz filma a magia, a entrega e a dedicação não só através da sua história e das interpretações que a compõem como também através de um cenário natural rico no qual as montanhas do norte de Espanha entregam um clima familiar e onde nos sentimos bem. O jogo de luzes compõem todo o ambiente envolvente e sentimos que a direcção de fotografia de Alfonso Cortes Cavanillas (um justíssimo vencedor do Prémio Canallave de fotografia em Piélagos en Corto), não só capta a essência da época como agarra o espectador a embrenhar-se pelos vales que são filmados tornando todo o espaço num local que sentimos estar habituados a frequentar desde a nossa própria infância... aquele local onde passamos as nossas férias, onde formámos os primeiros amigos e o qual ficará para sempre guardado na nossa memória pela felicidade que nos transmitem os tempos que lá passámos criando uma melancolia que nos faz sentir um nó na garganta.
E depois de uma sentida história de amor, que percebemos estar prestes a terminar, que naqueles instantes já perto do final percebemos que o casamento vai realmente acontecer (ainda que secretamente não o desejemos). Conformamo-nos e esperamos o melhor para estas duas personagens que sentimos próximas, reais e que qualquer um de nós gostaria que pertencessem ao nosso grupo de amigos e que, pela inevitabilidade dos factos, sabemos estarem perante um certo "fim" da sua cúmplice amizade.
É já com uma acentuada mágoa que o espectador se aproxima do final desta extraordinária curta-metragem e independentemente das surpresas que esta nos possa causar ao longo da sua acção é quando pensamos que já nada nos pode surpreender que se dá o último segmento da mesma. Perante uma música contagiante e momentos de pura alegria, o espectador é levado a vibrar com o baile final que provoca uma vontade de saltar do lugar em que se encontra e dançar ao ritmo de sons quentes que nos chegam. Sentimos a festa, a alegria, as boas vibrações e a sensação de que tudo está tal como deveria estar e aquela "necessidade" de estar na presença daquelas personagens... de as ter por perto... de saber que estão bem. O espectador está assim intimamente ligado com um conjunto de personagens através de escassos vinte minutos... é esta natural identificação um dos grandes e positivos aspectos desta curta-metragem... afinal, quantas vezes podemos dizer que conhecemos aquelas incertas, inseguranças e pensamentos que tornam aquelas personagens em "pessoas" reais como qualquer um de nós?!
O futuro, o deles e o nosso, é incerto. A única coisa em que podemos confiar é no poder das nossas decisões e que todas elas trazem consigo o peso da responsabilidade e das consequências. No entanto, é apenas respeitando as nossas mais sentidas convicções e sentimentos que sabemos que tudo o que surja como resultado dos mesmos lhes será fiel, justo e positivo na medida em que são a resposta directa àquilo que escolhemos. É desta forma que Por Siempre Jamón acaba por reflectir sobre a necessidade de uma escolha no presente que irá traçar um rumo para um futuro que aos poucos se forma, se constrói e se revela.
Os Goya da Academia Espanhola de Cinema não premeiam as interpretações em curtas-metragens, caso contrário Díaz e Etxeandía tinham interpretações seguras para terem, pelo menos, uma nomeação, e ainda que os prémios não façam os filmes pois estes valem pelo poder da sua mensagem, não é menos verdade que eu, enquanto espectador, gosto de ver premiados aqueles que realizam trabalhos que deixam essa mesma mensagem tão presente e tão sentida através do empenho, do calor e da emotividade com que partilham os seus trabalhos, e no caso da realizadora, argumentista e actriz principal essa dedicação é garantidamente sentida.
Finalmente a última coisa que posso dizer é que há filmes que nos ficam presos ao coração sendo essa, para mim, uma das funções fundamentais do cinema seja ele de formato longo ou curto. Por Siempre Jamón assume-se naturalmente como um desses exemplos, não só por tudo o que já dele escrevi como até pelo simples, imaginativo e cúmplice trocadilho que o seu título pressupõe (forever and ever com um simpático sotaque castelhano)... ao qual só me resta parafrasear um pequeno comentário que há pouco me fizeram sobre o difícil que é comentar um filme que simplesmente adoramos (como é o caso)... Assim... "adorei, adorei, adorei...", ao qual eu acrescento um "adorei".
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10 / 10
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