terça-feira, 29 de outubro de 2013

Bairro (2013)

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Bairro de Jorge Cardoso, Lourenço de Mello, José Manuel Fernandes e Ricardo Inácio é a mais recente longa-metragem que tem o selo da TVI numa adaptação ao cinema de uma série ainda por estrear daquele canal televisivo.
Diana (Maria João Bastos) é o rosto do crime de um pequeno bairro onde tudo e todos se conhecem e onde para sobreviver é preciso viver dos expedientes normalmente pouco honestos de que todos acabam por depender de uma ou outra forma.
Com o Inspector Augusto (Paulo Pires) sempre à espreita, nada melhor para Diana do que pôr a seu favor a beleza que a caracteriza e seduzir o único homem que não poderia deixar-se levar pelos seus encantos. É quando a relação entre ambos passa de gato e rato a uma cumplicidade aparentemente mútua que Augusto vê a sua vida ameaçada pela justiça que jurou defender e honrar.
Pelo bairro... as histórias de uma marginalidade mais ou menos encoberta motivam o dia-a-dia daqueles que nele habitam e que parecem condenados a uma existência mediocre e com poucos, se é que alguns, objectivos.
Conseguirá alguém resistir intocável neste bairro?
Com um argumento da autoria de Francisco Moita Flores ninguém, e muito menos eu, poderá colocar em causa a qualidade que uma qualquer produção pode apresentar. Habituado que estou, como possivelmente qualquer espectador mais atento, à qualidade das obras que detêm o seu nome como argumentista, o mínimo que podemos esperar de Moita Flores é uma produção coerente, ritmada e com uma boa dose de intrigas que cativam a nossa atenção do primeiro ao último instante.
É também um facto que nenhum de nós pode negar a iniciativa da TVI em investir nas produções nacionais que tantos dos nossos actores e técnicos tem empregado bem como pelo facto de conseguir em poucos anos colocar os profissionais do audiovisual português numa clara união com o seu público e, como tal, ocupar junto dos vários horários mais ou menos nobres, verdadeiros legiões de fãs e espectadores. No entanto não é menos verdade que sim, tudo isto se aplica ao que de produções televisivas diz respeito e que nesta adaptação de uma série ao grande ecrã os resultados não são assim tão positivos. Pelo contrário aqui os resultados aproximam-se drasticamente do desastre.
Desde um conjunto excessivo de personagens fruto do facto de ser uma adaptação e edição de uma série de televisão que, como referi, ainda está para ver a luz do dia, as mesmas não têm o seu devido desenvolvimento e amadurecimento para se tornarem relevantes para esta história mantendo-se assim, muitas delas, meramente decorativas e sem grande relevância... Estando lá ou não é, na maioria dos casos, um mero detalhe, facto que podemos constar por exemplo, no enorme conjunto de marginais que povoam aquele bairro e que num contexto normal teriam importância para a história e para a dinâmica entre gangs mas que aqui se limitam a um conjunto de trivialidades meramente úteis para o engrandecimento de uma "Diana" a que Maria João Bastos dá vida. Se numa série televisiva o elevado conjunto de personagens e de enredos paralelos fazem algum sentido para as relações que as mesmas desenvolvem entre si e para com a história, num filme cuja duração é de certa forma limitada, muitas delas mais não são do que figurantes com algumas falas o que, na minha opinião, prejudica não só a dinâmica central do filme (uma mulher gangster que controla um pequeno bairro que mais não é do que o seu "país" e o seu "mundo"), como também o talento de muitos jovens actores emergentes que têm muito mais para dar do que uma mera decoração por breves momentos como são os casos flagrantes de Sérgio Praia, Sara Santos, Hugo Costa Ramos ou Diogo Branco.
Mas não só saem prejudicados os jovens actores deste filme como também alguns daqueles já com carreira firmada que aqui aparecem a dar uma "perninha" remetendo para um segundo plano quase nonsense a sua participação. Refiro-me claramente a um Paulo Pires que tem a sua personagem quase metida à força neste enredo e que tendo bastante potencial como o homem e polícia que se deixa envolver com o crime e que se vê rapidamente retirado de cena sendo que a meio do filme quase já nem nos lembramos que alguma vez por ele passou. Tendo uma personagem sem qualquer tipo de continuidade e que termina abruptamente tendo um desfecho mecânico e perfeitamente óbvio desde os primeiros instantes, Paulo Pires merecia ser uma das personagens centrais e com um final diferente... mesmo que trágico, mas diferente.
No meio de tantas personagens que mereciam uma história que lhes fizesse justiça, bem como aos actores que lhes dão alma temos, no entanto, algumas que conseguem destacar-se pela positiva. A já referida Maria João Bastos consegue transformar-se num novo estilo de vilão que nos consegue encantar. Habituada a uma vida difícil onde teve de ultrapassar obstáculos que a moldaram às dificuldades que lhe foram apresentadas, "hoje" vive de acordo com um padrão de valores inexistente onde apenas se rege pelo conforto que os esquemas lhe proporcionam bem como àqueles que com ela privam de perto e que cedem aos seus caprichos. Intensa e feroz, Maria João Bastos agarra na sua personagem e domina o ecrã sendo que, no entanto, lhe fala o mesmo desenvolvimento (passado principalmente) que caracterizam a sua actual essência. No conjunto das personagens mais bem adaptadas ao tempo de ecrã que têm e à forma como são inseridas na história estão João Lagarto como "Basófias" dono do café do bairro e Dânia Neto como "Almerinda" a sua mulher pouco fiel esposa que servem como um sólido apontamento cómico num meio onde é difícil (sobre)viver e ainda Julie Sargeant como "Nicha", a fiel amiga de "Diana" num feliz desempenho que nos faz rever esta actriz há tanto desaparecida dos nossos ecrãs.
Com um enredo mais centralizado na dinâmica entre estas várias personagens, se bem que num lote mais reduzido onde todos pudessem ser desenvolvidos devidamente e uma edição dos vários segmentos que apresentasse um sentido e uma linha condutora, Bairro poderia ter sido um interessante filme de acção que assumiria junto do seu público a tal vertente comercial que falta (?) ao cinema português podendo tornar-se num interessante achado de bilheteira que depois serviria de ponte de ligação com a estreia anunciada (?) da série no canal televisivo. No entanto, depois de ver este filme permanece junto do espectador uma sensação de que esteve a assistir a um conjunto de segmentos muito desconexos e sem qualquer tipo de união ou interacção que poderiam ser parte de vários episódios televisivos onde, aos poucos, fosse conhecendo os diversos intervenientes e as suas histórias individuais mas que aqui se assumem como momentos entediantes, sem cor ou sumo resvalando muito rapidamente para algo desinteressante e insípido que nos deixa com a sensação de que assistimos a um conjunto de episódios dessa referida série mas em formato condensado que tudo mostra mas nada explica, que tudo quer contar mas sem querer desenvolver, naquela que é uma fracassada aposta de algo que poderia ter sido interessante e criado um grupo de fãs que certamente estariam no núcleo de espectadores que quereriam ver algumas das suas personagens preferidas mas agora em televisão.
No final resta-me apenas uma questão... irá a TVI libertar brevemente uma série e logo, um conteúdo mais alargado, daquilo que demonstrou ter pouca simpatia do público e da crítica ou será este um daqueles projectos dos quais poucos irão querer recordar num futuro próximo?
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"Diana: Eu sou a mão que dá. Eu sou a mão que tira."
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3 / 10
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