sábado, 2 de janeiro de 2016

Joy (2015)

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Joy de David O. Russell é uma longa-metragem norte-americana nomeada a dois Globos de Ouro - Filme e Actriz em Comédia - a atribuir no próximo dia 10 de Janeiro e que marca a terceira colaboração de Jennifer Lawrence e de Bradley Cooper com o realizador.
Joy Mangano (Jennifer Lawrence) tem dois filhos. Tony (Édgar Ramirez), o seu ex-marido, vive na sua cave. Na mesma casa vive a sua mãe Terry (Virginia Madsen), o pai Rudy (Robert De Niro) e a avó Mimi (Diane Ladd). Joy era uma criança com sonhos, esperanças e a quem a criatividade tinha abençoado com milhares de ideias e projectos. Mas Joy cresceu e aquele sonho de criança esbateu com a realidade de uma vida dura e de conflitos familiares.
Mas Joy continua com a firme convicção que a sua vida está reservada para algo melhor, e a profecia que a sua avó havia dito sobre ela poder vir a ser a matriarca de uma grande família começa lentamente a ganhar forma... mesmo através de todos os desvios e precalços que lhe são colocados pelo caminho.
À semelhança do que já havia apresentado com Silver Linings Playbook (2012) ou com American Hustle (2013), Joy demonstra uma vez mais a intrínseca vontade de David O. Russell em contar histórias que se sintam próximas de valores como a família que é uma constante nas suas histórias, a honra reflectida através de uma sentida afirmação dos valores próprios das suas personagens - aqui baseados numa história verídica e não ficcionados -, a lealdade entre todos aqueles que tentam ser "alguém" na vida, e também uma extrema necessidade de sentir ou filmar o amor quer pelas suas raízes e origens ou até mesmo na forma como este se pode encontrar no mais improvável dos locais.
No entanto, Joy vai um pouco mais longe ao também inserir nesta história as suas antíteses, através da traição e do engano, da vontade (in)consciente em fazer crer que alguns sonhos e expectativas podem ser grandes demais para algumas pessoas limitando-as a pequenos espaços e pequenas ideias, assim como demonstra que para alcançar o "tal" sonho que se idealizou é preciso perder um pouco daquele "eu" que em tempos foi inocente e pensou que tudo seria possível desde que para tal se trabalhasse o suficiente sem antecipar que do outro lado está alguém capaz de nos atraiçoar. A inveja é, em boa medida, a maior e mais eficaz forma de traição, irreconhecível quando praticada por aqueles que estão dentro das nossas portas.
Joy - que numa trágica alegoria poderia significar a própria alegria que a palavra traduz - é, no fundo, uma igualmente trágica constatação de que a mesma - alegria - se perde lentamente à medida que o tempo - o nosso - passa. Joy leva o espectador a questionar-se, por diversos momentos, sobre aqueles pequenos sonhos de infância onde tudo parecia possível e no qual nenhum obstáculo seria impossível de ultrapassar. O mundo não tinha limites e as vontades eram certezas que eventualmente se iriam confirmar, e afastando os recorrentes momentos em que tudo pode parecer ter uma solução, rapidamente se percebe que para lá chegar há que conhecer aquele "outro lado" que cada um de nós tem adormecido e falar uma linguagem tão ou mais dura do que aquela utilizada quando a boa fé de cada um de nós está ainda em evidência. Independentemente daquilo que se foi, do quão bons foram os colégios, as oportunidades do passado ou até mesmo a educação que se (man)teve, Joy é assim uma reflexão não sobre essas mas sobre todos aqueles momentos que precipitaram uma descida ao lugar desconhecido da "não concretização". Quem somos nós quando abraçarmos o facto de que crescemos e nos tornámos diferentes daquilo que idealizámos quando éramos crianças? E mais importante ainda... quem seremos nós depois de compreendermos tudo aquilo que é e será diferente a partir desse momento?
Que a vida é feita de perda e de desilusões já todos nós - a certa altura - o percebemos mas, no entanto, a pergunta que Joy subtilmente lança é sobre o que cada um de nós está disposto a fazer depois de sabermos que não temos toda a nossa vida pela frente mas sim uma parte dela... e que precisa ser finalmente aproveitada... e vivida.
Com a habitual - e por vezes frustrante - forma que David O. Russell tem em contar histórias que rapidamente levam o espectador do "agora" para o resultado final, e que em boa medida quebram muita da dinâmica e do dramatismo esperados para uma história deste género ao remover muito do "entretanto", o realizador consegue, no entanto, voltar uma vez mais a retirar o melhor do grupo de actores dos quais se rodeia criando uma imediata empatia com a sua actriz musa - há que afirmá-lo - Jennifer Lawrence. Esta empatia é imediatamente criada quando assistimos a toda uma luta interior que desafia o espectador a perceber, e identificar-se, com os seus dramas e problemas. Quem é que nunca teve um sonho não concretizado, uma conta que não sabe como conseguir pagar ou um momento - aquele momento - em que tudo parece condenado ao insucesso? Lawrence interpreta e vive - aliás - esse momento entregando-lhe uma invulgar humanidade como quem diz "sim, estive lá e sei o que isso é!".
O realizador volta também a repetir com Robert De Niro em Silver Linings Playbook e com Bradley Cooper neste último e ainda em American Hustle sendo a surpresa, no entanto, o trio feminino a quem dá um merecido lugar de destaque, ou seja, Virginia Madsen, Isabella Rossellini e Diane Ladd. Com interpretações fortes - cada uma à sua medida - Madsen é a mãe que se esqueceu de viver tendo um dia "acordado" do seu coma televisivo que a condenou a uma vida solitária sendo, por sua vez, Ladd a alma silenciosa que acompanhou toda uma rota de auto-flagelação de uma família que definhava em vez de viver. É, no entanto, Rossellini que com a sua secundária mas potente interpretação, que mais surpreende o espectador ao encarnar a nova "namorada" de "Rudy" (De Niro), e que muito ao estilo da mafia despoleta todo o enredo de uma nova - potencial - vida de "Joy".
Joy é assim, na sua essência, uma história que por um lado pretende focar e centrar-se sobre os sonhos perdidos de uma criança que cresceu e que se fez mulher - numa visão mais romântica - e que por outro lado demonstra o lado negro desses mesmos sonhos, ou seja, aquele momento em que todos tentam colocá-los em prática mas no qual percebem que existe todo um mundo pronto e preparado para destruir mais ou menos lentamente todas as puras e inocentes ambições que (tentam) ganham vida.
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"Joy: Never speak, on my behalf, about my business, again."
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7 / 10
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