domingo, 25 de dezembro de 2011

The Way Back (2010)

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Rumo à Liberdade de Peter Weir é um estrondoso filme deste realizador que já nos deu obras-primas como Clube dos Poetas Mortos, The Truman Show ou A Testemunha. Este ano o realizador australiano entrega-nos com este pérola cinematográfica que infelizmente passou muito ao lado dos olhares dos espectadores.
Esta estrondosa história baseada em relatos verídicos centra-se num grupo de homens que durante o regime comunista da União Soviética são detidos na maior e mais violenta prisão na região da Sibéria. Prisão esta quase sem grades ou vedações mas que fazia do meio ambiente rigoroso e cheio de extremos a sua principal defesa.
Sabendo que a sua permanência naquela prisão apenas os levaria lentamente à morte Janusz (Jim Sturgess), Valka (Colin Farrell), Smith (Ed Harris) e mais três detidos, a quem mais tarde se junta Irena (Saoirse Ronan), decidem escapar e não só atravessar o rigoroso clima invernoso da Sibéria como também atravessar vales, desertos e as montanhas onde a morte os estaria a espreitar constantemente e de muito perto.
Nesta luta pela sobrevivência a quem nem todos conseguirão escapar está, acima de tudo, a vontade que todos eles tiveram em escapar a um dos mais brutais regimes que todos tentou dominar pela força e pela repressão não só das suas liberdades como também, e principalmente, dos seus pensamentos.
Este é daqueles filmes do qual, graças do feedback existente do seu realizador, não estava à espera que me fosse desiludir. A filmografia de Peter Weir está repleta de bons exemplos de filmes com histórias com conteúdo. Quer passemos por A Testemunha, por The Truman Show ou esse eterno clássico O Clube dos Poetas Mortos, em todos eles há uma clara mensagem sobre o valor do indivíduo que, de uma ou outra forma, se encontra domado por uma qualquer força que lhe é exterior. Se para uns é a sociedade envolvente onde a comunidade amish é tida como um fenómeno àparte, para outro pode ser o mundo em que todos podemos ser alvo da curiosidade alheia que em muito tolda o nosso comportamento, ou noutros onde a predominância do poder paternal determina o percurso e a vida de um filho aqui, numa história verídica, o rumo do indivíduo e a liberdade que este detém (ou não), é ditada pela brutalidade do regime comunista da antiga União Soviética que não só proibia a liberdade de pensamento como acima de tudo o reprimia selvaticamente isolando no mais brutal dos locais todos aqueles que se lhe opunham.
Se a mensagem generalista mas tão importante não bastasse, este filme dedica especial atenção às vidas destas pessoas. De que forma?... Não temos um grande registo daquilo que se passava dentro da prisão em si, apesar de ficarmos com uma "ligeira" ideia, mas sim dos indivíduos mais concretamente. Acompanhos os primeiros contactos que estabelecem entre si, o rápido planear da sua fuga e principalmente todo o percurso e cumplicidade que conseguem criar uma vez que se encontram já fora da prisão. Aquilo que é inicialmente uma união pela sobrevivência num território tão agreste e que, aos poucos, se estabelece como uma união pela dignidade de cada um e especialmente pelo facto dessa mesma dignidade fazer com que o próprio se enalteça. Ajudando-se mutuamente fará, inconscientemente, deles pessoas melhores.
Tudo isto está presente no seu percurso... nos pequenos actos... na ajuda que prestam entre si... nos seus sacrifícios... nos pequenos momentos em que se ficavam a conhecer um pouco mais... e sobretudo na morte. Nessa morte que os acompanhará sempre e que fará com que percebam como aquela pessoa, inicialmente estranha, se tornou num dos mais importantes elos que têm à Humanidade que parecem ter perdido não voluntariamente mas pela força das circunstâncias em que se encontram.
Das interpretações não há absolutamente nada a apontar a não ser, claro está, a excelência. Jim Sturgess de quem tenho as melhores referências desde que o vi nesse sucesso chamado Across the Universe, comprova mais uma vez com este filme ser um actor brilhante e de quem iremos, espero, muito ouvir falar. O seu intenso e competente retrato de um homem separado e acusado involuntariamente pela sua própria mulher é dramático o suficiente para fazer uma boa história que culmina com um profundamente dramático final a quem ninguém consegue ficar indiferente. Sturgess é sem qualquer dúvida a força psicológica desta história que une todos os intervenientes.
Ed Harris e Colin Farrell são por sua vez, e cada um à sua maneira, as duas forças físicas deste filme. São eles que executam aquilo que os outros pensam. Digamos que são os dois braços de um corpo que é composto por todas aquelas pessoas, enquanto que Saoirse Ronan é aquela que os faz lembrarem-se a cada momento que por muito difícil que seja a situação em que se encontram não deixam de ser Homens (e Mulher) e, como tal, seres civilizados.
De destacar também a brilhante caracterização nomeada para um Oscar, aliás estranhamente a única nomeação que este filme conseguiu reunir, da autoria de Edouard F. Henriques, Greg Funk e Yolanda Toussieng e claro a igualmente estrondosa fotografia da autoria de Russell Boyd que consegue na perfeição dar uma "breve" imagem do ambiente bem hóstil pelo qual aquele conjunto de pessoas passou para conseguirem chegar à liberdade.
Se o período histórico no qual decorre a acção deste filme não é, à partida, o mais apelativo de todos (talvez também porque para muitos é ainda nos nossos dias algo oculto e pouco falado e debatido), não deixa igualmente de ser verdade que todos estes aspectos que referi durante esta apreciação são os suficientes para fazer com que qualquer cinéfilo pense em poder vê-lo. Toda a história vai aos poucos seduzindo que o vê e muito rapidamente chega aquele momento em que o consideramos um dos melhores filmes do ano. E não é em vão. Todos os momentos que o filme nos relata, todas as histórias dentro da história (e da História) pelo qual as pouco mais de duas horas de filme narram são, sem qualquer margem para dúvidas, puro deleite cinematográfico.
Além de uma qualquer história de fuga, este que é um dos melhores filmes do ano é, acima de tudo, um verdadeiro conto sobre a sobrevivência física, psicológica e emocional de um grupo de pessoas que resolveu resistir e agarrar com as suas mãos a própria liberdade. Nem que para isso fosse necessário morrer... ou não fosse no seu caso a própria morte uma forma de estarem livres.
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"Mr. Smith: Kindness. That can kill you here."
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10 / 10
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