domingo, 20 de setembro de 2015

Lilting (2014)

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Lilting de Khaou Hong é uma longa-metragem britânica presente na secção competitiva da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 26 de Setembro.
Junn (Pei-Pei Cheng) é uma mulher Cambodjana-Chinesa a residir na Londres actual. Fiel a um tradicionalismo que não foi abalado pela sua presença na capital britânica, Junn está de luto pela recente morte de Kai (Andrew Leung), o seu único filho.
Quando Richard (Ben Whishaw) chega ao lar em que Junn vive, esta sente um imediato incómodo com a sua presença - antigo companheiro de apartamento de Kai - e a relação entre ambos oscila entre a tensão e o mútuo conhecimento para os quais muito contribui a falta de uma língua comum na qual comunicarem.
O argumento também da autoria do realizador estabelece um conjunto de dilemas e questões muito interessantes e que, a bem da verdade, o colocam como o mais forte filme desta competição de longas-metragens e um dos filmes mais dramaticamente intensos do ano. Em primeiro lugar, Lilting tece uma linha condutora que se prende com a silenciosamente penosa dor de uma mãe que perde o seu filho em condições drásticas. Não se tendo despedido dele como esperava, "Junn" transforma-se numa mulher que devido ao seu conservadorismo, a dor é um sentimento vivido em silêncio que a colhe lentamente e que lhe incute todo uma sensação de perda inexplicável não só por nunca ninguém se preparar para tal dor como também por se encontrar num local diferente das suas origens e no qual não tem ninguém com quem a partilhar. Ela é, essencialmente, uma mulher perdida no tempo - vê o filho partir antes dela - e no espaço - por se sentir como alguém longe do único local onde poderia melhor gerir a sua dor.
É também esta incomunicabilidade, inicialmente linguística, que é apenas colmatada com a presença de "Vann" (Naomi Christie), uma tradutora que serve de intérprete entre "Junn" e "Allan" (Peter Bowles) - um companheiro do lar que se sente atraído por ela - e que finalmente acaba por servir também de elo de ligação entre ela e "Richard". É então a partir deste instante que surge uma relação de repúdio e distanciamento entre "Junn" e "Richard" que será apenas terminada com a compreensão da real dimensão da relação entre este e "Kai". A expressão da memória que ambos têm é agora possível de relatar mutuamente e conseguirem assim compreender até que ponto era "Kai" importante - o mais - na vida de cada um. "Kai" vivia dividido entre um amor materno e um amor físico e romântico que, no entanto, tinha também ele de ser manifestado no silêncio conferido pelas quatro paredes do seu apartamento. Era esta impossibilidade de manifestação pública - não que fosse uma necessidade mas sim um gesto afectivo normal - do mesmo que remeteu a sua relação para um claustro impossibilitando-o de se desenvolver e afirmar. A impossibilidade de comunicar manifesta-se, uma vez mais, através de "Junn" e do potencial romance que despoleta com "Alan" mas que rapidamente termina por se encontrarem em momentos distintos das suas vidas e com todo um fosse cultural pelo meio.
Finalmente o argumento de Lilting tenta - e consegue - ultrapassar as barreiras que identifica - quer sejam de afectividade, de comunicabilidade ou até mesmo de afirmação - conferindo às suas personagens aquilo que no fundo era essencial para a sua auto-pacificação, ou seja, "Richard" precisava de encontrar um lugar seguro junto dos pertences daquele com quem partilhou vários anos da sua vida enquanto que "Junn" precisava encontrar uma redenção com o seu filho e perceber o que fora que ficou por dizer. Impossibilitados de encontrar em "Kai" uma resposta directa às suas questões, ambos encontram na memória que partilham dele a serenidade que precisavam para que o dia seguinte fosse possível de suportar e de ser vivido.
Com um conjunto de notáveis secundários são, no entanto, as duas interpretações protagonistas com os seus antagonismos e dor individual que se destacam e entregam uma força motora a toda uma história que se prende e entrega com base nos afectos - ou sua falta - e fazendo de duas "personalidades" imediatamente opostas possíveis aliados que partilham uma raíz comum. Pei-Pei Cheng tem uma interpretação desarmante enquanto uma mãe que vive o desaparecimento do seu filho num silêncio ruidoso. Chora-o internamente, e sente a sua falta consumindo-se de forma irreparável... tendo tantas questões que lhe gostaria de fazer e pequenos pedidos que lhe fariam recordar a sua cultura e o seu espaço, como poderá ela agora viver uma vida tranquila mantendo-se num limbo entre dois mundos tão distintos ao mesmo tempo que conhece a realidade do seu filho?
Ao mesmo tempo, Ben Whishaw que o espectador já conhecer de intensas interpretações como Perfume: The Story of a Murderer (2007), I'm Not There (2007), Bright Star (2009) ou Cloud Atlas (2012), entrega mais uma intensa interpretação como "Richard", alguém que estando no seu espaço cultural natural encontra-se, também ele, perdido num mundo de incertezas e futuro desconhecido, tentanto confortar uma mulher que perdeu o seu filho... Filho esse que era a sua paixão e não podendo com ela chorar a sua memória ou partilhar as suas recordações, desejos, aspirações e medos.
Com uma notável excelência técnica onde se destaca a composição do espaço que oscila entre o pacífico e misterioso extremo oriente e a cosmopolita Londres, acentuados por uma emotiva música original de Stuart Earl, Lilting é um portento e um dos mais originais e intensos filmes dramáticos deste último ano naquela que é uma das melhores e mais acertadas escolhas de toda a programação do QueerLisboa.
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"Junn: Through plenty of crying, I've learnt to be content that I won't always be happy, secure in my loneliness, hopeful that I will be able to cope. Every year on Christmas Day I get very lonely. An incredible feeling of solitude. On this day, everything has stood still, even the trees have stopped rustling, but I'm still moving, I want to move, but I have nothing to move to, and nowhere to go. The scars beneath my skin suddenly surface and I get scared. Scared of being alone."
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10 / 10
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