sábado, 9 de janeiro de 2016

3½ Minutes, Ten Bullets (2015)

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3½ Minutes, Ten Bullets de Marc Silver é um documentário norte-americano que leva o espectador numa viagem até à fatídica Sexta-Feira Negra após o Dia de Acção de Graças de 2012 onde Jordan Davis encontrou a sua morte numa bomba de gasolina onde ele e três amigos haviam parado em Jacksonville, na Florida.
Este documentário explora não só os factos e a consequente acção judicial que culpabilizou Michael Dunn pelo brutal homicídio como principalmente o posterior sentimento de perda por parte dos pais e dos amigos que o relembram enquanto decorre o processo em tribunal.
Numa abordagem factual e judicial que é felizmente interrompida pelos testemunhos daqueles que eram mais próximos de Jordan Davis, o espectador testemunha uma realidade que, deduzo, seja distante da maioria - analisando comparativamente ambas as realidades: Norte-Americana e Europeia - centrando-se quase exclusivamente nos factos que são apresentados deste acontecimento e que o título deste documentário nos faz perceber logo desde o primeiro instante. Dez balas (disparos) em três minutos e meio que colheram uma vida de um jovem que estava no lugar errado à hora errada.
De uma discussão que se iniciou pelo som do rádio estar muito alto e que rapidamente foi conduzida para um brutal e irracional - pela sua desumanização - acto de violência, o espectador assiste a uma tentativa de manobra judicial que transformasse a vítima em potencial culpado - pela distorção do seu carácter - e um confesso homicida numa vítima que apelava à sua defesa às mãos daquilo que seria - para ele - o seu direito a um sossego "violado".
Distanciando-nos enquanto Europeus de uma realidade que é - felizmente - distante da nossa no que diz respeito ao porte de arma, 3½ Minutes, Ten Bullets tece uma interessante e curiosa reflexão sobre o facilitismo com que a sociedade norte-americana tem acesso ao mais variado armamento tornando o seu uso tão banal como por cá temos uma caneta ou um lenço de papel dentro dos bolsos, bem como deixa passar uma ideia e algumas considerações sobre a forma como a violência e o seu fomento são os motores socialmente aceites para a afirmação de uma certa masculinidade como que estando a dizer que "para seres alguém (homem) tens de te afirmar pela (dita) violência e pela forma como conseguiste ter uma arma".
A partir deste momento desenvolve-se também toda uma outra realidade que se prende com uma crescente tensão racial (ainda) muito presente nos Estados Unidos que se agrava com a já referida cultura de e da violência que se unem numa escalada "perfeita" rumo a acontecimentos como estes aqui retratados em 3½ Minutes, Ten Bullets.
Este documentário consegue assim retratar não só o lado factual dos acontecimentos rodeando-se de argumentos que demonstram e explicam tudo o que se passou naquela noite, como principalmente o seu lado humano ao retratar a vida que se perdeu e todas aquelas que se alteraram radicalmente com o seu desaparecimento... como sobreviveram, como resistiram e também como conseguiram agarrar-se a este trágico momento e tentar consciencializar os demais sobre os perigos das tão facilitadoras leis de porte de arma - assustadoras quando sobre elas tomamos algum conhecimento - em vigor nos Estados Unidos.
Não sendo um daqueles documentários tidos como "de primeira linha", 3½ Minutes, Ten Bullets consegue, no entanto, firmar a sua importância pela forma como expõe a perda, a resiliência e principalmente o choque cultural e por vezes algo desumano que os lugares comuns e os preconceitos teimam em firmar na sociedade norte-americana.
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"To the living we owe respect, to the dead we owe the truth."
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7 / 10
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