sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Bombshell (2019)

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Bombshell - O Escândalo de Jay Roach (EUA/Canadá) e protagonizado por Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie é a longa-metragem que aborda o escândalo de assédio sexual dentro do canal Fox News denunciado por algumas das suas profissionais de topo.
Depois de Gretchen Carlson (Kidman) denunciar o chefe da Fox News Roger Aisles (John Lithgow) de assédio sexual, rebenta no estação de televisão todo um movimento que tenta defender o mentor como, por outro lado, o denunciam pelos seus ousados e abusivos comentários e comportamentos ao longo de décadas.
Ainda que visualmente apelativo por um trailer dinâmico e bem construído que induz a um imediato interesse por parte de um espectador mais atento ao seu trio protagonista - Theron, Kidman e Robbie -, este Bombshell bem analisado acaba quase por se transformar um relato noticioso bem ao estilo do ambiente interno que tenta retratar. Num estilo muito próprio em que "personagem/actriz que encarna pessoa real" tenta dar um relato fiel dos acontecimentos e no qual se comunica quase in extremis com o espectador que tenta assistir aos momentos relativamente tensos que se viviam dentro da FOX News, esta longa-metragem de Jay Roach pouco espaço deixa para a dramatização dos acontecimentos limitando-se a uns breves instantes em que o assédio ganha, de facto, uma forma e onde se compreende que todas estavam a "salvo" (profissionalmente falando)... desde que portadoras de grandes mini-saias.
Tudo começa com a aspirante e pouco treinada "Kayla" (Robbie) sedenta do seu lugar ao sol no local onde as grandes vedetas já firmaram o seu lugar. Inexperiência essa que leva a algumas tomadas menos reflectidas de posição, e a nadar do tanque dos tubarões onde tudo se sabe mas que se testemunha num silêncio quase coloquial... "don't ask... don't tell...". Aos poucos, e à medida que vamos conhecendo os dois rostos firmados de um canal de televisão que apenas queria sobreviver à sua própria imagem e dos "deuses criadores" todo poderosos que ditavam as leis, é que compreende o espectador que "Megyn" (Theron) e "Gretchen" (Kidman) se transformaram no resultado daquilo que agora combatem... Por um lado determinadas a não deixar continuar a selvática acção de homens que, donos de um poder até então absoluto, continuassem a ditar as normas pelas quais todos (todAs) as demais poderiam ascender profissionalmente. Agora, rostos proeminentes do canal de televisão no qual construíram toda a sua carreira, ambas têm de decidir se vão continuar a permitir a sobrevivência do abuso ou se, por sua vez, vão finalmente colocar o tal ponto final numa história cujos contornos reais desconhecem...
O restante conteúdo... é já conhecido de todos nós. Quer se centre nos meandros da política, do corporativismo empresarial ou aqui nos veteranos serviços noticiosos o abuso, seja ele de que natureza fôr, existe e instala-se espalhando os seus tentáculos por todos aqueles que ousam alcançar algo mais do que um simples lugar na corrente. Se queres ser alguém... tens de ceder... pelo menos enquanto não tiveres poder. E todo o assédio é, essencialmente, uma manifestação perniciosa desta premissa... quem tem poder usa-o... e nem sempre de forma moralmente correcta. Afinal, não vemos qualquer tipo de toque, de uso de força física ou de um recurso a pressão física... aqui, ou em qualquer outro lugar, o assédio manifesta-se de forma mais requintada... não existe um toque... existe a sugestão de "algo que deve ser feito" como forma de alcançar um "objectivo profissional" que posicione o interessado numa posição de privilégio... a indução... a sugestão... a indicação - todas elas psicológicas no exercício dessa força ou pressão invisíveis - de que não será o trabalho, o mérito ou o profissionalismo que poderão fazer alcançar uma posição melhor mas sim o tamanho reduzido de uma saia ou um pouco mais de carne que se revele que a(s) farão chegar um pouco mais longe no seu percurso profissional. Mais, se este factor se verifica nas jornalistas mais novas, é nas veteranas que verificamos também os comportamentos redutores da mulher provenientes de décadas passadas... a mulher como alguém sem iniciativa, opinião, força de vontade, capacidade ou profissionalismo que apenas está presente, e dessa forma reduzida, a um elemento decorativo que fica "bem" ao lado de homens, esses sim, profissionalmente capazes e conhecedores de uma verdade desconhecida para as mesmas. Do assédio ao preconceito, da manutenção de poder ao (ab)uso de poder, Bombshell prima mais pela abordagem a esse establishment do velho poder masculino do que propriamente pela inovação do seu conteúdo e da real verdade que poderá ter estado por detrás de todas estas histórias aqui tentadas na primeira pessoa.
Mas, não se pense que este relato é apenas contado tendo como principais vilões o conjunto de homens que está por detrás desse poder. É também contado, ainda que parcialmente, pelo conjunto de mulheres que estando por detrás do mesmo se deixam levar pela garantia de que com elas (ou "por" elas) tudo foi alcançado com o esforço de um trabalho que outras - agora denunciantes - não quiseram fazer. O "eu" em oposição ao "elas" que as afasta de uma realidade à qual cederam por pressão e que talvez por vergonha ou conveniência nunca quiseram admitir ou reconhecer. Afinal, como passa a ideia, nada era abuso ou assédio... era apenas um flirt até "simpático" que o presidente da estação gostava de utilizar para "premiar" com atenção os rostos "bonitos" do seu espaço. Num mundo em que se "morre" por menos tempo de antena... há que se deixe "matar" pelos tais quinze minutos de fama.
Interessante pela composição de personagem efectuada por Theron e Kidman (neste último caso sem qualquer confirmação de que todos aqueles momentos se tenham concretizado tal como aqui assistimos), e por uma Margot Robbie que consegue em boa medida prender o espectador primeiro pela sua timidez, depois pela sua ousadia e, finalmente, pelo seu total descrédito fruto da violação psicológica da qual fora alvo (ainda que esta última seja uma personagem ficcionada), Bombshell poderia ter sido muito mais do que o simples "fact film" ao qual se dixou render entregando não só uma maior elaboração e desenvolvimento emocional das suas personagens como sobretudo uma obra que conseguisse tornar-se intemporal e não apenas limitada a um apontamento temporal que "amanhã" possivelmente poucos irão recordar. Theron, Kidman e Robbie são capazes de dar mais... muito mais do que as breves interpretações que aqui conseguem concretizar não deixando, no entanto, o espectador incerto sobre o seu talento, evidente em diversos momentos, da transformação psicológica que o abuso - mesmo que meramente psicológico - pode deixar naqueles que por ele são afectados.
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7 / 10
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