quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Berço Imperfeito (2013)

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O Berço Imperfeito de Mário Ventura é uma curta-metragem portuguesa de ficção que retrata a amizade de Fábio (Tiago Moreira) e Catarina (Joana Africano), dois amigos de infância que se deparam com um misto de sentimentos inesperados que irão redefinir a sua relação.
Mário Ventura, que também assina o argumento desta curta-metragem, constrói uma história que é essencialmente um hino à amizade entre dois jovens amigos cujo percurso de vida os distancia apenas na sua mobilidade. "Fábio" encontra-se confinado a uma cadeira de rodas e, como tal, vê o mundo de uma forma diferente daquela de "Catarina". Com uma vivência tida em comum, cedo a amizade que os une se transforma - para "Fábio" - num sentimento mais profundo de íntima confiança e atracção que sente ser impossível para com outra pessoa que não ela. Num mundo que considera estar-lhe fechado e ter em "Catarina" a sua única oportunidade para o amor, poderá a sua amizade sobreviver ao mais sincero dos sentimentos?
Imaginando o "mundo" apenas a partir do seu espaço e das limitações que lhe estão inerentes, a dinâmica de O Berço Imperfeito é, desde o primeiro instante, em redor daquilo que o universo daquele jovem lhe permite alcançar, ou seja, pouco mais para lá da extensão do seu próprio braço. No entanto, entre pensamentos e divagações, aquilo que escreve e onde reflecte sobre as suas emoções ganha uma nova vida ao simbolicamente tudo transformar em pequenos barcos de papel como que numa vã esperança de que eles alcancem uma parte do mundo que ele - no seu pensamento - jamais conseguirá. Confinado a esta realidade e apenas deixando os seus sentimentos navegarem pela eventualidade de uma intimidade com "Catarina", "Fábio" viaja pelo poder de uma imaginação que, no entanto, sente cada vez mais confinada à realidade da sua condição.
Desconhecido o mundo, os sentimentos, a confirmação da sua sexualidade ou até mesmo a possibilidade de um dia a concretizar, "Fábio" tem o seu momento com "Catarina" que lhe deixa, por sua vez, a certeza de que o mundo existe para lá das suas portas - físicas e mentais - e que o esperam... com mais ou menos convicção... onde os barcos podem ir a alguns lugares e os transformados em aviões simbólicos o poderão levar a outros tantos.
Com uma acentuada marca na reflexão da cumplicidade e da intimidade, O Berço Imperfeito é uma história sobre duas vidas que se completam de formas distintas. Se para um o intelecto, o pensamento e a imaginação são as suas forças motoras que o transportam para os quatro cantos de um mundo que não conhece, para o outro é a certeza de que existe nesse mesmo mundo alguém que lhe pode conferir o sentir de todo um conjunto de emoções - físicas - que mais ninguém lhe poderá garantir. Estes dois jovens, cúmplices, amigos e confidentes, acabam por completar um único ser com a sua metade oculta ou desconhecida e confirmar que existem amizades que resistem e subsistem para lá das barreiras físicas que podem moldar - ou confinar - as relações entre dois seres.
Os sentimentos, os silêncios e as inseguranças que ambos transmitem nos seus olhares sedentos de um pouco mais do que aquilo que o mundo lhes tem reservado, acabam por ser os elementos fundamentais de O Berço Imperfeito que gira em torno de dois jovens cuja amizade suplantou barreiras pessoais e que garantem, ainda que durante um único momento, a confirmação de que mais é possível - ainda que não entre eles - e que o mundo é maior do que aquilo a que eles possam eventualmente confinar-se.
Com duas fortes interpretações de Tiago Moreira e Joana Africano como dois jovens que se amam de formas distintas, uma inspirada música original de Toni Peres e a direcção de fotografia de Jorge Quintela que se complementam criando o ambiente perfeito dentro de um lar nem sempre feliz, O Berço Imperfeito tanto oscila sobre o mundo das possibilidades como aquele das limitações que se tendem a ultrapassar sendo portanto um filme sobre uma quase tragédia que se imagina um dia feliz.
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8 / 10
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