sábado, 1 de agosto de 2020

La Puerta (2017)

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La Puerta de Adrià Guxens (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção #DeLorean desta edição online do Piélagos en Corto que, este ano devido à crise de emergência sanitária provocada pela COVID-19, se realiza apenas nesta curta edição online onde são recuperados alguns filmes curtos dos últimos anos.
Depois da morte do pai, Lucas muda-se com a mãe para casa dos avós. É nesta casa que encontra uma sala cheia de antiguidades e uma porta que não consegue abrir e que o deixa intrigado sobre o que poderá estar do outro lado.
A relação que é apresentada ao espectador entre a mãe e um filho que sofreram uma recente perda assume-se para lá de tensa, algo insistentemente desconfortável num misto de intransigência e indiferente. No fundo, aquilo que aqui observamos são duas pessoas que experimentam uma perda avassaladora e que estão, naquele específico momento, incapazes de lidar com uma nova realidade que "agora" se apresenta. Da forma de diálogo mais ríspida ao desconforto social entre ambos, é "Lucas" (Marcel Navarro) que o espectador mais acompanha e que o revela como uma criança incapaz de ler a realidade tal como ela é mas que encontra sim um refúgio na sua imaginação e é através de esta que tenta, de forma solitária e incompreendido, encontrar o conforto que o poderá fazer apaziguar o seu espírito atormentado com a falta física de um pai que jamais voltará.
No fundo, aquilo que La Puerta essencialmente nos revela é a forma transformadora como uma criança aprende e lida com a dor provocada pela perda fazendo desta "porta" o expiar da mesma que muito lentamente o vai consumindo e que o próprio não sabe explicar mas que, ao mesmo tempo, poderá ser ela (a porta) que "aceite" todos os seus lamentos e desabafos de criança - incapaz de os ter com qualquer um dos que o rodeiam que são essencialmente adultos - e que sirva como o seu próprio escape para com essa dor que reconhece mas não compreende.
Assim, é esta incompreensão da "dor" como um sentimento novo que La Puerta exibe sob a perspectiva de uma criança que descobre a realidade da amargura de um mundo que, até então, desconhecia e com o qual agora se vê confrontado sem que os adultos - neste caso a mãe - o confortem e expliquem que aquilo que conhecera até àquele momento será agora vivido de forma diferente. Com uma ausência. Com um olhar de consciência etérea que apenas o próprio pode pensar que o acompanha como um guia. A dor, essa dor inexplicável, terá de a compreender como uma nova parte do seu "eu" e viver com ela da forma que melhor lhe conseguir sobreviver. Pela imaginação, pelo próprio poder de conseguir imaginar o que está "mais além" e que só o próprio reconhece como a sua própria nova realidade avassaladora e que não lhe permite ter conforto mas que o ajudará a crescer... ainda que muito antes do seu tempo.
Forte pela sua componente de realidade social e familiar, pela perspectiva de uma criança para com a perda e para com a dor, La Puerta pedia um pouco mais de exploração do seu conteúdo infantil, um realce mais detalhado da realidade desta criança e dos espaços e momentos que o mesmo, através do poder do seu pensamento, encontra para resistir, sobreviver e até mesmo ultrapassar a dita realidade sem que esta (o) colha para um "outro lado" ainda mais complicado. Num ambiente aparentemente hóstil, apenas a tal "porta" para uma outra realidade o irá fazer viver.

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6 / 10

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