sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Welp (2014)

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Welp de Jonas Govaerts é uma longa-metragem belga exibida na secção Serviço de Quarto da nona edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer até ao próximo dia 13 no Cinema São Jorge e que leva o espectador a uma interessante incursão no cinema de terror feito por crianças.
Sam (Maurice Luijten) é um solitário rapaz de 12 anos que parte para um acampamento de escuteiros. Depois de algumas histórias sobre um rapaz perdido meio homem meio lobo de seu nome Kai, Sam encontra na floresta uma casa na árvore e um rapaz com uma estranha máscara.
Será Kai apenas um fruto da imaginação perturbada de Sam ou existirá realmente algo mais que os olhares mais desatentos não conseguem ver naquela floresta?
Um dos filmes que mais antecipava do MOTELx e cujo argumento de Govaerts e Roel Mondelaers reunia um conjunto de elementos que qualquer fã do género considera interessantes de imediato, confirma, no final, as expectativas que nele depositava ao revelar-se como um filme bem sucedido especialmente se considerarmos que estamos perante um género que pode ser prolífero no cinema norte-americano mas atípico para o cinema europeu.
Se este filme começa com um momento violento e que fazem o espectador adivinhar aquilo que o espera, não é menos verdade que Welp é, desde o primeiro momento, um filme cuja história está repleta de uma violência que impera de uma ou outra forma. Quer seja no grupo em que "Sam" se "insere" e que não parece muito receptivo à sua presença ou até mesmo daqueles que são considerados como os mais frágeis no grupo por não alinharem em todo o tipo de actividades que são propostas, ou até mesmo nos ocasionais arruaceiros "filhos-da-terra" que parecem não faltar nas localidades mais pequenas e remotas e que de certa forma lançam o "tom" de todos os acontecimentos por vir. Estarão todas as irmandades sujeitas a uma violência vs. aceitação? Estaremos perante um meio - pouco natural - onde a única forma de interacção e formação de grupo se desenvolve para lá de uma violência física que determina se "estás" ou não apto para o mesmo?
É neste ambiente restrito pouco dado ao humanismo ou tão pouco à camaradagem que tem no "Sam" de Maurice Luijten o rosto e a história perfeitos para nos centrarmos nele e nos seus movimentos... De aspecto frágil num grupo que se assume como rude, com um passado pouco claro no que diz respeito às suas origens e que o colocam até certo ponto como um marginal que ninguém aceita ele é o veículo perfeito para tudo aquilo que iremos presencial e confirmar como o "aluno" perfeito de algo que está por chegar. Incapaz de formar grandes amizade, "Sam" encontra em "Kai" - outro marginal e selvagem - o amigo que não conseguiu ter em espaços ou ambientes mais saudáveis e socialmente aceites para o seu normal desenvolvimento. "Kai" é assim alguém capaz de o entender e partilhar dessa marginalidade em relação à sociedade que lançam o mote àquilo que os poderá unir mas que acaba, também ela (relação), por se estabelecer com a prática de um acto violento e que irá desencadear todos os demais acontecimentos.
Welp torna-se assim num filme sobre a interacção social e as relações - ou falta delas - humanas, nas quais vence quem mais e melhor se adapta ao meio em que vive - independentemente da violência que lhe está inerente - e onde todos acabam por ser o fruto desse meio corrompido pela violência que cria e gera num ciclo interminável. Como elemento secundário - ou não - temos então a presença de um assassino psicopata - anónimo - que o espectador apenas pode associar ao espaço em que se insere - uma aldeia abandonada - onde residiam antigos trabalhadores da indústria que ali se fixava e que por uma ou outra circunstância da mudança e evolução dos tempos deixou de existir. Alguém que ficou para trás, esquecido... perdido. Alguém que encontrou uma nova forma de viver - a caça. Se anteriormente essa caça era feita para subsistir, agora é praticada como um desporto que elimina todos os elementos indesejados do meio, que é como quem diz, todos aqueles que ousam entrar naquela floresta.
"Kai" era uma cria do sistema (do assassino)... mas o que acontece quando outra potencial - "Sam" - chega ao meio? Podem as duas crias subsistir no mesmo espaço ou existe apenas lugar para uma? Numa perpetuação da sobrevivência dos mais aptos, "Kai" e "Sam" têm de lutar por um lugar que necessita ser preenchido e que nenhum tem como garantido e que transformam esta história e este filme num conto não tão moderno sobre a violência - sob as suas mais diversas formas - e sobre aqueles que a ela se adaptam... ou morrem.
Com o ambiente a ser aperfeiçoado com a música original de Steve Moore e a direcção de fotografia de Nicolas Karakatsanis que transformam aquela floresta num labirinto em potência, Welp recupera o género do filme de escuteiros perdidos na floresta de forma gloriosa e sem pudor de transformar alguns dos pequenos "humanistas" nos rostos não tão inocentes de uma violência que se assume e revela lentamente.
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7 / 10
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