quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ricki and the Flash (2015)

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Ricki e os Flash de Jonathan Demme é uma longa-metragem norte-americana e o mais recente trabalho de Meryl Streep a encontrar a sua estreia no nosso país.
Ricki (Streep) é uma guitarrista já nos seus sessenta anos que toca ao vivo em bares não são necessariamente reputados. Em tempos desistira de tudo o que tinha - casamento, filhos, casa... - para poder seguir o seu sonho de se tornar uma lenda do rock mas agora dedica-se apenas a tocar e cantar os êxitos de outros artistas e tentar sobreviver.
Quando recebe um telefonema de Pete (Kevin Kline), o seu ex-marido, que lhe fala do eventual divórcio da sua filha Julie (Mamie Gummer), Ricki decide embarcar numa viagem que a leva ao passado que deixou por resolver.
Uma união cinematográfica entre Meryl Streep, Jonathan Demme e Diablo Cody é imediatamente um filme que merece a atenção e destaque de qualquer cinéfilo mais atento não só pela óbvia junção de talentos confirmados mas também porque basta ter Streep ao comando de um filme num desempenho que se assume de imediato como irreverente. No entanto, Ricki and the Flash revela-se um filme morno que não atinge aquela grandiosidade como se fazia adivinhar quando o mesmo fora anunciado.
"Ricki" (Streep) é uma mulher algo distante de tudo o que a rodeia e o espectador percebe o seu óbvio afastamento não só da família que deixou para seguir o seu sonho mas também da ligação afectiva que criou com "Greg" (Rick Springfield), o seu parceiro profissional e sentimental desta sua nova faceta. Com trabalho enquanto rocker num bar que sendo íntimo pela evidente forma como os "habituais" se conhecem, não deixa de ser um espaço quanto baste decadente onde todos os ditos "falhados" da sociedade se encontram, "Ricki" (sobre)vive com um trabalho como caixa num supermercado onde recebe ordens e instruções de um chefe que tem idade de ser seu filho e lhe explica como deve interagir. A sua vida - sobrevivência incluída - estão longe de ser aquilo que eventualmente sonhou ou de ter o glamour e o brilho que esperava. "Ricki" é mais uma desiludida perdida numa multidão... Vive anónima com a excepção daqueles que, como ela, se conformam com o pequeno e irrelevante lugar que percebem ocupar no mundo.
Independentemente desta situação e de não ter vingado no mundo tal como desejava - afinal apenas toca e canta músicas de artistas consagrados e nada que seja de sua autoria -, "Ricki" não deixa de lutar pelas suas pequenas conquistadas ignorando aquilo que deixou para trás - e que aos poucos é revelado ao espectador - incluindo a sua família que a considera uma marginal ao seu próprio espaço e cuja interacção denota que o passado foi - era - complicado demais para se viver em comunhão. Com três filhos que não querem saber dela e com um marido que apenas a vê como recurso por falta de opções exibindo todos eles um distanciamento e indiferença evidentes, "Ricki" é, na prática, alguém que não lhes faz qualquer tipo de falta até perceberem que precisam de um confronto com ela para finalmente a - e se - perdoarem podendo assim avançar tranquilamente para o tal dia seguinte.
Mas "Ricki" extrapola algumas verdades... Seria diferente se fosse um homem a sair de casa e lutar pelo seu sonho abandonando os filhos tal como a acusam a ela? Seria ela mais feliz se ignorasse os seus mais íntimos desejos pensando nos outros e nunca (se) completando aquilo que deseja? Existiria uma família diferente se ele tivesse ficado ou, por sua vez, seria apenas ela que seria diferente mantendo todos os demais os mesmos comportamentos, escolhas e opções?
Tendo como única "família" os tais "habituais" que frequentam o bar onde toca, "Ricki" percebe com esta sua viagem ao passado que pode afinal ter o melhor de dois mundos... aquele que a completa profissionalmente e o lado familiar composto não só pela sua nova família como aquela que o sendo parecia até então estar perdida... Os caminhos acabam por denotar um estranho e inesperado cruzamento mas é nele que se encontra o melhor - e real - de todas as escolhas e afirmações... Não sendo o desejado acaba por ser o único possível e que é, no fundo, perfeito à sua maneira.
Ricki and the Flash marca o reencontro de Meryl Streep e de Kevin Kline desde Sophie's Choice (1982), uma vez mais como o par romântico não confirmado que num misto de desejo e auto-destruição encontram no afastamento a única solução para os seus próprios problemas. No entanto, ao contrário do clássico dos anos 80 e considerando as óbvias diferenças narrativas, Ricki and the Flash não consegue ter todo aquele peso dramático ou tão pouco assumir-se como uma comédia dramática capaz de criar no espectador a empatia desejada para pensarmos que aquelas personagens poderiam ser alguns de nós em determinado momento. Mesmo a relação cinematográfica entre Streep e Mami Gummer - mãe e filha no ecrã e fora dele - está longe de ser a mais determinada que seria de esperar (mesmo com as evidentes tensões no ecrã) deixando todo o filme num certo clima que nunca aquece.
Com um óbvio - mais um - desempenho que certamente a irá levar aos Globos de Ouro e que consegue ser a força motora de todo um filme que sem ela não estaria na agenda de ninguém, Streep não tem aqui o "fogo" com que normalmente agarra as suas personagens. É certo que a sua "Ricki" é uma mulher apagada pelos desgostos, desilusões e incumprimentos que a vida lhe proporcionou mas, ao mesmo tempo, falamos de Meryl Streep e dela, mesmo quando não é uma personagem prendada pela vida apenas esperamos o melhor dos melhores e aqui apenas se ficar com uma interpretação simpática... mas regular (sorry Meryl... although I will always love you).
No final aquilo pelo qual o argumento de Diablo Cody se consegue destacar acaba por ser um pequeno e talvez ignorado elemento para a maioria... Foi a música que afastou "Ricki" da sua família mas, ao mesmo tempo e inesperadamente, acaba por ser a mesma que os reaproxima. Quando se pensa que os sonhos podem terminar com a realização pessoal por serem idealistas demais... eis que o destino e o tempo confirmam que apenas seguindo o que se deseja e sendo fiel aos próprios desejos se consegue ser integro, uno e admirado pelos demais... cada um à sua maneira.
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"Ricki: Sometime you are going to find a grey hair... and it's not in your head."
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7 / 10
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