sábado, 25 de janeiro de 2014

A Estrada da Revolução (2014)

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A Estrada da Revolução de Dânia Lucas é um documentário português que estreia no próximo mês de Fevereiro e que constitui uma agradável surpresa no panorama documental nacional por nos transportar para um cenário que apesar de geograficamente próximo está, em boa medida, longe da nossa atenção imediata, para além de ainda existir um complemento literário francamente apelativo.
Este documentário acompanha a viagem de três jornalistas portugueses, Tiago Carrasco, João Fontes e João Henrique, na sua viagem pelo Médio Oriente após os acontecimentos que ficaram conhecidos como a Primavera Árabe onde muitos regimes totalitários que proliferavam no norte de África e Médio Oriente foram severamente contestados pelas suas populações, nomeadamente os aqui retratados casos da Síria, Egipto, Líbia e Tunísia e que originaram não só violentos confrontos civis como constatamos ainda hoje na Síria ou instabilidade governamental como a que temos ainda presente no Egipto.
Longe de ser um relato dos factos que todos nós conhecemos através dos inúmeros serviços noticiosos que abundaram os nossos televisores na época, A Estrada da Revolução consegue primar pela diferença e entregar-nos sim um olhar sobre a vida e os acontecimentos de rostos anónimos que viveram sob aqueles regimes ditatoriais, fazendo-nos entrar nas suas vidas e histórias pessoais, fazendo-nos perceber que o Homem vive numa condição austera e de degradação física e psicológico até um certo limite, e que o mais pequeno facto pode despoletar uma revolução, mais ou menos pacífica, que altere todas as suas vidas em questão de segundos.
Logo de início somos levados ao momento posterior de um ataque governamental sírio que vitimiza alguns civis para, de seguida, sermos levados até aos campos de refugiados sírios na Turquia e a algumas das histórias contadas por aqueles que conseguirem fugir deixando para trás todo o trabalho e património de uma vida.
Tudo isto sem esquecer as mediáticas manifestações na Praça Tahir, no Cairo onde resistem ainda alguns dos manifestantes não contentes com os sonhos ainda por cumprir, passando também pela memória do conflito e do regime de Khadafi na Líbia que fez desaparecer tantos jovens que ousaram ter uma voz contra o mesmo ou os luxos em que a família presidencial na Tunísia vivia em oposição à crescente miséria sentida pela população.
Assim, para lá de um olhar sobre as multidões que fizeram mexer com todo o mundo árabe, A Estrada da Revolução leva-nos sim a uma viagem pelas vidas daqueles rostos anónimos que, não sendo mediáticos, fizeram parte dos acontecimentos que transformaram toda uma área geográfica para rumos que são, ainda hoje, desconhecidos de todos nós.
Com narração de Ivo Canelas, A Estrada da Revolução é um invulgar e desafiante documentário português pela sua bem sucedida e original ambição em mostrar uma realidade para além da nacional, tornando-se assim num modelo de referência para o futuro e que já é vencedor do Prémio Gazeta Multimédia atribuído pelo Clube de Jornalistas, e que terá a sua antestreia no próximo dia 26 de Janeiro no Teatro Municipal de Vila do Conde.
Por aqui, e como desejo pessoal, espero que consiga ultrapassar fronteiras e ser uma referência no género por conseguir contar as histórias para além da História.
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8 / 10
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