terça-feira, 11 de novembro de 2014

Jauja (2014)

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Jauja de Lisandro Alonso é uma longa-metragem argentina de ficção exibida na mais recente edição do Lisbon & Estoril Film Festival a decorrer até ao próximo dia 16, e que conta com a participação de Viggo Mortensen na interpretação principal.
Patagónia nos finais do século XIX. Gunnar Dinesen (Mortensen), capitão dinamarquês chega ao território quando a conquista do deserto dizima toda uma população nativa. A seu lado chega Ingeborg (Viilbjørk Malling Agger), a filha de quinze anos, que se apaixona por um dos militares presentes no local e com quem foge durante a noite.
Na manhã seguinte quando se apercebe da fuga, Gunnar inicia uma viagem pelas profundezas desconhecidas deste território em busca da sua filha numa viagem que se espera longa e tortuosa.
Ainda que sentida a proximidade com o antigo estilo western norte-americano, Jauja leva o espectador a percorrer uma viagem mística que tem tanto de ilusória como de fantasmagórica pelas desconhecidas pampas argentinas onde se pensa que se irá encontrar uma qualquer essência de "Dinesen", até então um personagem atípico num território improvável.
Quando se espera que desta busca resulte uma descoberta pessoal - para as personagens - ou até mesmo individual - para "Dinesen" ou até para o próprio espectador -, aquilo com que nos deparamos é um vazio imenso característico das próprias pampas argentinas onde muito pouco, para lá de alguma vida natural, existe. A certo momento o espectador pensa que estes territórios mais não espelham do que os reais propósitos destes colonos que, através de inuendos militares ou migratórios, se deslocaram para o Novo Mundo, isto é... desprovidos de objectivos reais nos seus territórios de origem, chegam aqui para encontrar uma nova oportunidade que na prática jamais será alcançada tendo mesmo tudo a fugir-lhes por debaixo dos pés.
A magnificiência dos territórios - áridos, espaçosos e vazios - pode apenas ser comparada com a sua própria presença na medida em que retratam no real aquilo que sentem; a perda. A procura de um mundo melhor, com oportunidade e uma riqueza fácil é imediatamente perdida quando ao chegar têm de aniquilar o nativo (leia-se o natural de...), como se este representasse o último obstáculo (apenas mais um) para poder finalmente ter o seu próprio local e ascenção. Terra de (e)migrantes, estas pampas perdidas no desconhecido envolvem aqueles que nela se aventuram e impedem-no de sair por cima dos acontecimentos, embrenhando-se num rumo de perdição como se de um eterno purgatório se tratasse. A ilusão de um mundo melhor está então perdida.
Ainda que distante de ser um filme apelativo através da sua história, Jauja consegue ser um portento a nível técnico exibindo uma requintada direcção de fotografia de Timo Salminen que capta a alma, as cores, a sua aridez e a sua luminosidade transformando-se todas elas nos sentimentos da verdadeira personagem principal que é, no fundo, o espaço geográfico. Um espaço que consome aqueles que por ele se aventuram e que tentam a sua sorte na esperança de um momento melhor que, na prática, não chega.
Destaque ainda para o guarda-roupa ou até mesmo para a música original composta pelo próprio Viggo Mortensen e que capta, uma vez mais, aquela essência dos velhos western e nos quais esperamos que alguém parta a cavalo rumo ao pôr do sol. Aqui a viagem nãos erá feita a cavalo, pelo menos não na sua totalidade, e o calor abrasador será sentido à medida que cada acorde será tocado.
Visualmente Jauja é um filme apelativo, rico e cheio de vida - ainda que francamente camuflada - no entanto, a nível de enredo e narrativa estamos longe de encontrar aquele filme que irá marcar o espectador pela positiva.
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6 / 10
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