domingo, 9 de novembro de 2014

Maps to the Stars (2014)

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Mapas para as Estrelas de David Cronenberg foi o segundo filme que visionei nesta edição do Lisbon & Estoril Film Festival e no Centro de Congressos do Estoril.
Nesta história o espectador é levado a conhecer Hollywood através de alguns dos seus mais directos intervenientes. Por um lado a família Weiss, Stafford (John Cusack), o pai analista e terapeuta, a mãe Christina (Olivia Williams) que cuida meticulosamente da carreira do filho Benjie (Evan Bird), um jovem de treze anos que acabara de sair de uma desintoxicação. Por outro conhecemos Havana Segrand (Julianne Moore) uma actriz de renome que vive desesperamente na tentativa de sair da sombra da sua mãe, uma lendária actriz dos anos 60.
À cidade chega também Agatha (Mia Wasikowska), recentemente saída de um sanatório onde fora acompanhada por alguns incidentes pirómanos, e que se apaixona por Jerome (Robert Pattinson), o condutor da limousine que a conduz na cidade. Chegará a altura de saber que Agatha é também membro da família Weiss.
Maps to the Stars esteve em competição para a Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes de onde acabou por sair premiado com a Interpretação Feminina para Julianne Moore e, ainda que não considere que não tem uma interpretação grande ao ponto dessa distinção, não é menos verdade que é uma das personagens mais desafiantes que recria nos últimos largos anos graças a um argumento cru e mordaz da autoria de Bruce Wagner.
A encarnação de Julianne Moore enquanto "Havana Segrand" é um perfeito retrato de uma actriz "ultrapassada" e desgastada pelo tempo. Alguém que tenta desesperadamente reencontrar o seu público nicho e ter aquele grande êxito que a faça renascer para a fama que tanto deseja e sente merecer. No entanto é o afastamento desse estrelato que a torna num elemento perto dessa potencial decadência e auto-destruição revivendo, ao mesmo tempo, fantasmas do seu próprio passado que a condenaram a uma figura de segundo plano que vive na sombra do estrelado da sua mãe, actriz de renome cujos filmes (re)vive constantemente como uma auto-punição.
No entanto, não é só a decadência de "Havana" que está presente em Maps to the Stars. A família "Weiss" é a encarnação da mesma quando analisamos a vida de todos os seus elementos. Se por um lado temos um casal disfuncional que pouco vemos interagir, não é menos verdade que a concepção de família enquanto tal está longe de ser normal quando sabemos que o seu jovem filho de treze anos acaba de sair de uma clínica de desintoxicação e cujos comportamentos parecem de um adulto com um passado por contar. Algo está mal quando descobrimos que todos fogem desse tal passado que os atormenta e que está prestes a bater-lhes à porta quando a misteriosa "Agatha" chega a Hollywood.
O interessante argumento de Wagner coloca em cima da mesa uma questão que embora tocada de forma pouco explícita está presente nas vidas de todas estas personagens e explica, de certa forma, os fantasmas que os atormentam. O incesto abordado quer na família "Weiss" através da relação entre os irmãos "Stafford" e "Christina" é também um dos principais motes do distúrbio existe em "Havana" quando esta revela a sua potencial - e nunca confirmada - violação por parte da mãe, a actriz que todos respeitavam. No fundo Wagner centra toda a sua história nas cicatrizes quer físicas quer psicológicas que afectam o bem-estar - principalmente mental - destas personagens. São essas cicatrizes que acabam por ser o mote principal deste filme de Cronenberg, à semelhança do que já acontecera com Crash onde essas, sendo essencialmente físicas, funcionavam como o motor para que uma sexualidade por vezes reprimida fosse exposta e praticada. Em Maps to the Stars estando presente uma cicatriz essencialmente psicológica, esta tem como fundo - ou pelo menos o seu principal motor -, um motivo de cariz sexual que provoca e desencadeia essas mesmas perturbações.
No fundo existe uma acção vs. reacção - ainda que tardia mas sempre constante - entre um passado perturbado e conflituoso que num ritmo consistente deixa marcas presentes nas diversas personagens que os inibem de uma vida normal mesmo que frente a câmaras encenem o ambiente e lar perfeitos. É esta dualidade entre o físico e o psicológico, o encenado e o real que provoca os conflitos interiores que os atormentam denotando felicidade quando todos os demais choram e a capacidade de tudo ser capaz para uma auto-satisfação que é, na maior parte dos momentos, apenas momentânea; um mapa para as estrelas que estão, no entanto, em plena decadência.
Interessante ainda é a crítica mordaz que Maps to the Stars tece com comentários pouco simpáticos à fórmula para o sucesso pela qual algumas "estrelas" tomam, nomeadamente quando se refere a adesão à cientologia como forma para alcançar o sucesso ou ainda quando estando lá, e por vezes em tão jovem idade, este mesmo sucesso transporta os seus intervenientes para um rumo de abusos, dependências e destruíção da qual dificilmente conseguirão sair, Tudo isto sem esquecer as absurdas e pouco sentidas visitas aos fãs que atravessando situações complicadas quase são ridicularizados pelos mesmos, tornando-os (às estrelas) pessoas vãs, absurdas, insípidas e hipócritas com vidas desfeitas que não criam - nem pretendem - laços com ninguém. Motivo este pelo qual os seus próprios fantasmas sejam de crianças, representações da última inocência que alguma vez conheceram.
Maps to the Stars não será aquele filme que todos iremos ver nesta temporada de prémios que está prestes a iniciar mas é, ao mesmo tempo, uma interessante e bem elaborada crítica ao sistema do estrelato - e ao mundo in-Hollywood - bem como à forma como a perversão de alguns valores se transforma numa auto-penitência que irá destruir o ego de muitos lançando-os num inferno (afinal o fogo é aqui uma constante) no qual irão penar para toda a sua própria eternidade.
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"Agatha Weiss: On the stairs of Death I write your name, Liberty."
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8 / 10
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