quarta-feira, 10 de maio de 2017

Non Toccate Questa Casa (2017)

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Non Toccate Questa Casa de Americo Melchionda é uma curta-metragem italiana presente na secção Internacional da nona edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorrem na Cantábria, em Espanha.
Durante o Mundial de Futebol de 2014 Itália enfrenta o Uruguai. Ao mesmo tempo a família de Filippo (Marco Marra) de doze anos vê-se a braços com o despejo da sua casa pelo excesso de dívidas por pagar. Enquanto o Giuseppe (Americo Melchionda) o pai, ameaça fazer explodir a casa, Filippo tenta encontrar uma solução vendendo a caderneta do Mundial de '82... mas falta o cromo de Gaetano Scirea.
Americo Melchionda para lá de realizador e um dos actores desta curta-metragem assume também as funções de argumentista em colaboração com Emanuele Milasi criando assim uma história que infelizmente ainda se encontra na ordem do dia ao criar mais uma das inúmeras histórias da crise económica que atingiu o sul da Europa nos últimos anos privando, dessa forma, o normal desenvolvimento social de tantas famílias que, de um dia para o outro, se viram sem a sua tranquilidade e despejados de todos os (poucos) bens que passaram vidas a construir. A casa, como o bem maior de todos, símbolo de estabilidade e segurança social é em Non Toccate Questa Casa o marco principal de uma luta que aparenta não só não ter uma resolução pacífica como pode igualmente representar o ponto principal de uma discórdia que se prepara para terminar de forma violenta.
A família, ameaçada pela desgraça económica e financeira bem como pelos seus imediatos carrascos nas figuras dos emissários bancários, sente já não ter nada a perder. Em vias de serem afastados da sua casa (ainda em construção) e encontrarem-se três gerações na rua sem qualquer forma de subsistir, só encontram uma solução... se saírem dali toda a casa será explodida impedindo de cair na mão de qualquer outra pessoa que possa assim continuar o sonho daqueles que a começaram. No entanto, enquanto este acto de violência extrema - não da família mas sim dos bancos sobre a mesma - se prepara para ser consumado, o clímax desta história encontra-se, no entanto, no rumo e nas acções do jovem "Giuseppe" que sente, em tão jovem idade, que pode fazer algo que irá transformar a vida da sua família para sempre.
Perdido e sem acção junto da sua família que vê em total desespero e num misto de vergonha e incerteza com o testemunho da sua desgraça pessoal por parte de toda uma vizinhança que apela em seu favor, "Giuseppe" decide encontrar a solução para todos os problemas da família tentando vender um bem máximo - seu - legado desde o seu avô... a caderneta do Mundial de '82 com a selecção de futebol italiana vencedora do torneio. Mas, quanto tenta solucionar todos os problemas da família descobre que lhe falta apenas um cromo para completar toda a colecção... ou talvez não falte. Na inocência da sua jovem idade em que pensa que num objecto ao qual dá tanto significado e valor pode residir a solução para todos os problemas desse "mundo dos adultos" que ainda não compreende, "Giuseppe" perde-se na ilusão de um mercado próximo dos seus amigos que jogam o desperto pelo qual tem tanta paixão.
Os instantes em que o jovem "Giuseppe" - numa brilhante e silenciosamente emotiva interpretação de Marco Marra - joga pela vitória, em que compreende a sua limitação face a problema grandes demais para que os entenda na sua totalidade e em que descobre que a sua luta não tem salvação possível, levam o espectador a conter as suas emoções ao assistir a toda uma transformação de uma jovem criança no homem prematuro em que se transforma. Naqueles breves instantes "Giuseppe" perdeu toda a sua inocência, todos os seus sonhos de criança que é, entrando prematuramente na dita idade adulta em que as expectativas, sonhos, ambições e desejos de quem ainda ousa tê-los, se perdem pela amargura de um mundo que não espera e que é implacável para todos os que anseiam ser um pouco mais do que aquilo que lhes está reservado.
Melchionda dirige uma história que, para lá da sua imaginação, contém todo um significado simbólico sobre aqueles que perderam tudo, principalmente a sua vontade de viver, num mundo onde as tramas financeiras os colocaram no seio de um desespero sem fim. Enquanto elemento presente de uma história que o próprio dirige, Melchionda cria com Non Toccate Questa Casa, uma atmosfera violentamente melancólica, desesperante até por momentos, e onde a realidade chega sem que seja convidada destronando e destroçando qualquer ilusão, sonho, perspectiva ou vontade revelando, neste que é a sua mais recente obra enquanto realizador, todo um potencial para contar histórias que podem não ser mágicas mas conseguem relatar os nossos dias.
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9 / 10
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