sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Diane a les Épaules (2017)

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Diane a les Épaules de Fabien Gorgeart (França) exibido no âmbito da décima-nona Festa do Cinema Francês a decorrer em Lisboa no Cinema São Jorge é uma longa-metragem que revela nove meses na vida de Diane (Clotilde Hesme), barriga de aluguer para os amigos Thomas (Thomas Suire) e Jacques (Grégory Montel) ao mesmo tempo que inesperadamente se apaixona por Fabrizio (Fabrizio Rongione).
Filha de uma vida libertina mas a atravessar a idade em que o seu relógio biológico parece começar a manifestar-se, Diane vive dividida entre uma vida de folia e um sentimento de amor que insiste em bater-lhe à porta... mas não para sempre.
"Diane", interpretada de forma inspirada por uma fogosa Clotilde Hesme, é uma mulher que parece recusar as ditas responsabilidades que a vida adulta normalmente trazem consigo. Livre de qualquer relacionamento ou relação sentimental, trabalho e até mesmo de família, os únicos momentos em que a observamos inicialmente prende-se com um jogo de relações fugazes tidas nas habituais saídas nocturnas e um compromisso mais sério com um casal amigo para quem serve de barriga de aluguer. É aqui que surgem os nove meses nos quais a acompanhamos e que observamos o seu amadurecimento enquanto mulher... e mãe ou, pelo menos, enquanto potencial mãe de uma criança... que não será sua.
Clotilde Hesme tem uma qualquer força interior que leva o espectador primeiro a compreendê-la enquanto uma mulher livre, sem responsabilidades - mas não irresponsável - cujo mais importante e talvez único propósito na sua vida é uma diversão constante libertando-se de qualquer "amarra" que a sociedade criou sobre o conceito do que é ser "mulher". Nesta medida, e para lá de qualquer desejo maternal, ela assume aquela que será eventualmente a sua maior responsabilidade à data ao desejar facultar aos seus amigos a parentalidade que, de outra forma, lhes seria dificultada. É neste processo que todas as "regras" sociais dessa idade adulta já anunciada parecem começar a manifestar-se... primeiro a lealdade aos amigos, depois a maternidade e, finalmente, o inesperado despertar sentimental que surge ao conhecer "Fabrizio" com quem, no entanto, parece co-existir numa relação de toca e foge. Emancipada, independente, fugaz mas com uma elevada debilidade sentimental, a "Diane" de Hesme acaba por transformar-se, no olhar do espectador mais atento, uma mulher perdida entre aquilo que a sociedade espera que ela seja e aquilo que a própria deseja ser... enquanto mulher, esposa e mãe... acabando por terminar tal como começa num patamar onde apenas permanece como mulher... (in)completa - agora - para os seus próprios parâmetros daquilo que deveria ser.
Com todo o peso do mundo - o esperado e não só - "Diane" vibra ao som de uma qualquer música diária que a acompanha, longe de qualquer significado absoluto mas como uma sinfonia dos seus pensamentos de momento e que a caracterizam mais do que qualquer palavra que possa proferir... com medo de (se) magoar acaba por atingir aqueles que privam de perto com ela afastando-os lentamente não só pela sua incapacidade de decidir para lá do momento mas sobretudo pela sua crescente sensação de compreender que quer mais... sem com isso aceitar que tem de ceder e comprometer-se em encontrá-lo acompanhada por alguém de quem goste e por quem manifeste os seus sentimentos.
Revelador enquanto uma obra que facilmente poderíamos caracterizar enquanto um coming of (late) age, Diane a les Épaules vibra a um passo muito próprio destronando velhas concepções sobre o papel social de uma mulher aqui emancipada mas fervorosamente desejosa de que esses tais papéis sociais que todas as demais "compreenderam", também lhe cheguem um dia sendo, no entanto, capaz de ir vivendo e experimentando o mundo tal como ele se lhe vai manifestando e, ao mesmo tempo, receosa de se deixar levar por um qualquer sentimento que se percebe ser difícil de aceitar e compreender.
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6 / 10
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