quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Terminator: Dark Fate (2019)

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Exterminador Implacável - Destino Sombrio de Tim Miller (EUA) é a mais recente incursão ao universo Terminator e de forma mais ou menos (in)esperada, uma longa-metragem adaptada aos seus dias.
Sarah Connor (Linda Hamilton), e o T-800 (Arnold Schwarzenegger) reencontram-se para, com a ajuda de Grace (Mackenzie Davis) vinda do futuro, protegerem a jovem Dani (Natalia Reyes) de um novo e melhorado ciborg  REV-9 (Gabriel Luna) e, dessa forma, salvarem os destinos da Humanidade.
Com esta breve sinopse da sexta entrega desta saga - sem mencionar a série televisiva -, o espectador percebe que o argumento, com todas as suas potenciais variantes sobre como salvar o mundo enquanto se escapa de um predador, não terá muitas variantes. Mas, no entanto, há que ver este Terminator: Dark Fate para compreender que elas estão lá e mais adaptadas aos dias não tão positivos que vivemos. Esqueçamos, por momentos, a ameaça cibernética que poderá eliminar o mundo... afinal, dessa vive a essência desta história que já nos acompanha há mais de trinta anos, para nos concentrarmos única e exclusivamente nas correcções de formatação social que a mesma exibe ao longo dos seus mais de cento e vinte minutos.
Quando qualquer um de nós que cresceu e vibrou com as nuances de um filme de heróis anónimos que salvavam o planeta Terra da sua eminente destruição pela mão do próprio homem, aquilo que imediatamente recorda é a presença do tal John Connor - que já cruzou vários actores - como uma das suas peças fundamentais e, no fundo, aquele que se assumia como o líder da tal resistência que, no futuro, continuaria essa luta pela sobrevivência. Talvez já não seja necessário o imaginário de um mundo destruído pelo nuclear - apesar dessa ameaça estar tão viva hoje como se calhar nos idos tempos da Guerra Fria... talvez até mais -, e se calhar essa sobrevivência chega de mão dada com tantas outras ameaças que nos cruzam diariamente mas a pergunta que se levanta é imediatamente uma... existe a necessidade real para que esta longa-metragem visse a luz do dia de transformar um dos seus protagonistas em presença inexistente para dar lugar a uma proto-protagonista feminina apenas pela força de que a história tem de ter um fio condutor de um género diferente? Que se desenganem aqueles que acham isto um qualquer comentário sexista, afinal Linda Hamilton tomou - e muito bem - as rédeas das duas primeiras entregas e foi possivelmente um dos elementos que mais falta fez às seguintes tal a saudade que deixou em todos nós (e o júbilo que provocou ao vê-la aqui de novo e em acção), mas no fundo a questão que aqui levanto é... teria existido um crime maior deixar a história de "Sarah" e "John Connor" presente e dar origem, por exemplo, a um reencontro entre mãe  e filho que foi inexplicavelmente cancelado em Terminator 3: Rise of the Machines (2003) quando a única coisa que sabemos da heroína de serviço é que... morreu?! Não teria esse reencontro sido desejado por todos nós eliminando aquele "desfecho" de que afinal o futuro foi diferente sim pela morte presente e não futura do protagonista?!
Se este factor dispersa momentaneamente a atenção do espectador, não deixa de ser real que Terminator: Dark Fate consegue inserir nesta história dois dos seus elementos primordiais... O primeiro, a inegável presença de Schwarzenegger como o vilão virado herói capaz de compreender a espécie humana e lutar ao seu lado (para voltar às suas origens e se regenerar de novo... confuso, é um facto) e, segundo, a presença ultra-feminina de Linda Hamilton que com uma participação em apenas dois dos cinco anteriores filmes conseguiu, de forma inigualável, manter-se até aos nossos dias como uma protagonista - leia-se no feminino - em filmes de acção que ainda hoje todos recordamos. Assim, e considerando que aqui se assume novamente como uma das peças fundamentais desta história, para quê alterar a base deste argumento apenas para o tornar "polido" para os tempos ultra-conservadores dos dias que vivemos e acenar que "afinal um filme de acção pode ser protagonizado por uma mulher"... Já outros o foram... e melhor... Referencia óbvia para os dois títulos iniciais desta saga não esquecendo a heroína absoluta de filmes de acção Sigourney Weaver que com a sua "Ripley" dominou um império de seres tão ou mais perigosos que estes ciborgs... e sózinha! A ditadura do "correcto" acaba por ser isso mesmo... uma ditadura polida mas pouco real que distancia o espectador do género em vez de o atrair para recordar os bons e velhos tempos conferidos por aquilo que já conheceu e do qual ficou um fiel seguidor.
Mas, o polido não está apenas aqui... O "Terminator", ainda que com as devidas inovações que a tecnologia do digital e dos VFX permitem tem, também ele, as suas próprias inovações... já não pode ser o dito "americano caucasiano" ou tão pouco uma "loira de olhos azuis"... agora o perigo (com todos os perigos que isso acarreta para quem quer o "correcto" como uma lei e ordem) tem de ser também ele um fruto dos dias de ameaças que o outro lado do Atlântico prevê... um exterminador latino (mexicano para bom entendedor...) que pretende destruir todo um modo de vida ocidental pondo em risco os demais "formatados" ao século XXI... para remediar a coisa faz-se também nascer uma futura heroína (feminina claro está) mexicana, substituindo o "John Connor" de serviço que "morreu" algures no tempo. Nada que no futuro, e com as diversas viagens no tempo aqui permitidas, não se altere mas, até lá, temos o que temos... e importa aquilo que um público norte-americano queira consumir... afinal o mal está - e sempre esteve - na forma como o queremos encarar face aos nossos próprios receios de um fim... seja do mundo... ou da nossa existência pacífica enquanto alguém que, sem problemas, terá de os inventar num qualquer bode expiatório.
O destino é, de facto, sombrio. A existência enquanto comunidade está ameaçada e, dessa forma, a própria sociedade poderá encontrar o seu fim. Da mesma forma que em tempos ditos conservadores a Sétima Arte sobre desafiar convenções e estatutos colocando mulheres fortes - tão fortes como qualquer homem - a comandar um filme de acção - talvez atípico mas são as transformações silenciosas aquelas que mais perduram -, estaria hoje na altura perfeita (não fosse ela sim ultra-conservadora) de encarar essa mudança conquistada há mais de trinta anos como um facto normalizado e aceite (não precisou de o ser) que, na realidade, nunca foi questionado por nenhum de nós que crescemos a ver uma mulher forte e capaz de enfrentar a própria extinção sem qualquer medo da mesma. Mas, esse destino não é apenas sombrio por este politizar do género. Do querer parecer bem porque as actuais convenções assim o determinam... são os pequenos elementos... a "mexicanização" do perigo (uma vez mais) que espreita e é capaz de passar a fronteira por debaixo do novo Muro da Vergonha agora em terras de Tio Sam detentoras do estatuto da liberdade ou a extrema necessidade mostrar que "as mulheres também o conseguem" quando, na realidade, já o conseguiram há trinta anos pelas mãos da própria protagonista... que acabam por fazer perder ou, no mínimo, dispersar todo o empenho aqui criado com uma história que parece querer disparar em todas as direcções faltando apenas o elemento ambientalista para ser sim... uma longa-metragem adaptada a este 2019.
Se esta é mais uma perda de tempo do género? Não. Terminator: Dark Fate tem os seus momentos de acção e as suas inúmeras acrobacias típicas de um filme capaz de distrair o espectador dessa tal triste realidade que eventualmente o espera para lá da porta da sala de cinema mas, ainda assim, está longe de ser capaz de se manter como o novo fôlego da saga que, elogios à parte, não consegue ter desde Terminator 2: Judgment Day (1991) onde o que importava era apenas as vantagens de um argumento apocalíptico e acção a todo o gás sem se equacionarem todas as correcções de uma sociedade deste século XXI que lentamente se destrói pela vontade de agradar a todos e sobreviver à crítica.
Com os efeitos especiais esperados e um Schwarzenegger relativamente apagado para aquilo que dele seria de esperar no género em questão - se foi esta a sua última entrega na saga... mais valia não ter participado - e com uma Linda Hamilton capaz de provar que ainda está para as curvas e suficientemente habilitado para comandar sózinha esta história, Terminator: Dark Fate cumpre os parâmetros mínimos para o espectador querer ir ao cinema e ter à sua frente um filme de acção mas, no entanto, para aqueles de nós que se lembram das filas intermináveis e sessões esgotadas que a obra de Cameron teve no início da década de '90... este Dark Fate deixa um enorme amargo de boca que, a existir, a próxima aventura terá muito que fazer para eliminar.
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7 / 10
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