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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Todo va Bien (2023)

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Todo va Bien de Adrián Ordóñez (Espanha) é uma das curtas-metragens em competição no Planos Film Festival que revela a história de Rachid (Hassan el Boujaddaini), um jovem imigrante em Espanha que procura o sonho de uma vida melhor. No entanto, quando parece ter a vida encaminhada com um novo trabalho e uma rapariga da sua idade que aparenta gostar dele, a sociedade parece insistir não no seu potencial mas sim nas suas origens.
As primeiras imagens desta curta-metragem com um belíssimo argumento de Sergio Rubio inserem o espectador no imaginário de uma vida de emigração que, compreende de imediato, pertencer a uma realidade dura e cheia de elementos que colocam o protagonista numa vida marginal ou, pelo menos, vivida nas margens daquilo que ele desejara. "Rachid" é um jovem saído de Marrocos para procurar uma vida melhor. Muitos são os seus desejos de poder ajudar uma família que ficara para trás e para a qual se sujeita a uma realidade inimaginada que é agora a sua. Vive no seio das desconfianças de todos aqueles com quem se cruza e os únicos amigos que parece conseguir ter são aqueles que, tal como ele, têm uma realidade similar. O espaço em que vive parece oriundo de um qualquer cenário de detenção... um quarto partilhado com tantas outras pessoas que se sujeitam a realidades precárias porque são estas as únicas que conseguem manter com alguma dignidade (pouca)... ou estão numa camarata comum ou na rua pois não há rendimentos para mais. O dinheiro escasseia... o trabalho não surge de nenhuma parte e, claro, a formação que tem não lhe permite ambicionar um pouco mais mas, no entanto, os requisitos exigidos não páram de ser mais e mais...
As dificuldades de "Rachid" são imediatamente compreendidas. Deseja um trabalho... mas precisa de um par de sapatos para aparentar algum brio e ainda que estes não sejam uma exigência, a realidade é que é subtilmente compreendido que poderão "ajudar" à sua realidade e, ao mesmo tempo que o espectador acaba por ir conhecendo esta personagem existe também algum misto de desconfiança para com as suas atitudes ou comportamentos. Estará ele assim num aperto tão grande ou será que esconde algo mais? No seio da desconfiança despertada por um argumento que nem sempre é claro - aí reside um dos seus pontos mais fortes -, o espectador crê e empatiza com o mesmo quando compreende que "Rachid" é o receptáculo de todo um conjunto de sonhos e desejos por cumprir quer sejam eles profissionais, pessoais, familiares ou até mesmo sentimentais quando descobre e sente interesse por uma rapariga do bairro.
Dois são os momentos que mais me impressionaram nos destinos desta personagem e que, de certa forma, acabam por revelar o seu interior ou os seus propósitos... O primeiro que se relaciona directamente com os sapatos que "Rachid" deixa para trás depois de dormir num vão de escada... não só é um momento marcante naquilo que poderá ser os destinos desta personagem forçada a abandonar os seus bens mais pessoais para trás agora que aparenta ter a sua vida "encaminhada" dentro da perda a que está habituado nesta Espanha que escolheu como sua nova casa como nos remete enquanto espectadores para as trágicas histórias de emigração que a tanto estamos habituados e que compreendemos como sendo toda uma história de perda consecutiva e sem limites. No passado mais ou menos próximo tal como agora "Rachid" tem o seu destino marcado por todo um conjunto de perdas que não aparentam ter um final. Finalmente, o momento final no qual telefona à sua mãe revelando que a sua vida se encaminha e que se encontra feliz quando as lágrimas insistem em cair num silêncio perturbante. A mentira piedosa que se conta para não afligir aquela que mais o ama e que lhe deseja todas as felicidades do mundo encerra esta história que não se adivinha feliz - pelo menos não nos deixa disso indícios - e o longo plano com que o realizador nos presenteia assim o faz adivinhar.
Decididamente uma das melhores curtas da edição deste ano do Planos Film Festival com uma sempre presente e pertinente história enriquecida por uma interpretação fortemente contida na expressão de emoções que, no entanto, conseguimos todos identificar do jovem actor Hassan el Boujaddaini que nos entrega diversos momentos onde o sentimento ou sensação chave é aquela de uma perda constante.
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8 / 10
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segunda-feira, 29 de maio de 2023

The Tip (2021)

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The Tip, de Katerina Tana (EUA) é uma curta-metragem na qual é contada a história de Boss (Roberts Jekabsons), um simpático imigrante a trabalhar num restaurante que luta por resistir até ao próximo dia. Ao servir um jockey numa das mesas encontra, inadvertidamente, um guardanapo com aquilo que julga ser uma dica para a aposta num cavalo vencedor. Será esta a sua oportunidade de ouro para enriquecer e deixar a sua vida repleta de dificuldades ou, por sua vez, apenas mais um trágico engano que lhe bateu à porta?!
Num estilo muito próprio onde reina o ideal de uma comédia "popularucha" com uma história bem contada que não se desvie muito dos padrões e das dinâmicas socialmente aceites enquanto tal para o género que representa, este The Tip é essencialmente uma obra que não se compromete. E não se compromete com o quê? Bom... no que ao humor diz respeito ele é sempre muito polido para uma audiência norte-americana... o imigrante é respeitoso para os parâmetros do país... tem um trabalho manual e de grande esforço, tenta ser um sobrevivente no "país de todas as oportunidades"... pensa ter encontrado a sua redenção e forma de enriquecer rapidamente podendo dessa forma fornecer o ideal de uma vida melhor à sua família e claro... poder quem sabe... ele próprio virar patrão de outrém... Tudo isto num universo de humor ponderado, respeitoso, com um ou dois cómicos de situação igualmente aceites perante as normas e já está... depois de sair do "forno" o bolo apresenta-se sem qualquer dano moral para nenhum dos intervenientes. Mas... funciona enquanto um todo para ser considerado uma comédia que faça realmente rir ou confere ao público esse tal bom humor desejado numa comédia? Bom... isso já é mais discutível!
O espectador não sai ofendido com esta história... ela é polida demais para que alguém se sinta provocado ou levado ao limite com ela mas na realidade também não se pode afirmar que ela seja a portadora de um humor extremo que tenha deixado alguém com memória suficiente para a recordar ao fim de vinte e quatro horas. The Tip é um daqueles filmes que se remete a um "ok... vi" onde tudo é muito "competentezinho" mas na prática igualmente olvidável... tudo é muito consistente e tecnicamente bem executado mas fora isso nada nos fará recordar uma história que se limitou a permanecer no "ok". Existe potencial na história para, por exemplo, tê-la filmado num qualquer outro universo que não o norte-americano onde as oportunidades não sejam todas encaradas como salvaguardas para a felicidade... afinal de contas... existe sempre um certo cinismo na redenção dos oprimidos que neste universo nunca se verifica e, dessa forma, a componente humorística acaba por ser francamente limitada pois tudo o que é executado e tentado já é devidamente esperado por um espectador mais atento.
Competente e tecnicamente correcta e eventualmente uma obra mais interessante se não passasse única e exclusivamente a ideia de que observamos um ensaio para uma obra maior e onde as dinâmicas internas e entre personagens pudessem e conseguissem alcançar uma nova abordagem - principalmente o protagonista Roberts Jekabsons - mais abrangente porque aqui The Tip é... isso mesmo... uma bonificação que gastamos num café... sem que nos recordemos do café no dia seguinte. Estava bom... estava?
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5 / 10
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sexta-feira, 19 de maio de 2023

Temps de Chien (2022)

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Temps de Chien de Vanessa Caffin (França) é uma das curtas-metragens presentes na competição de Comédia da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que termina amanhã na Cantábria, em Espanha.
Aqui conhecemos Alice, uma talentosa escritora que, com o fim da pandemia da COVID perde o único trabalho enquanto escritora de elogios fúnebres que ainda lhe dava sustento e vê ainda o adiamento do seu último romance considerado como uma obra de outros tempos. Sem o apoio da família e com a sua vida virada do avesso, Alice encontra uma solução pouco típica quando tudo parece estar perdido.
"Alice" (Alysson Paradis) é a encarnação de uma mulher dos "nossos dias". Desacreditada pela família que vê nela e nas suas actividades uma oportunidade perdida de ser alguém que, invariavelmente, passa pela capacidade única de constituir família e tratar do lar e "habitante" de um meio profissional que tem outras perspectivas para ela do que aquelas que a própria havia criado. "Alice" é assim uma mulher pedida entre dois mundo: um pré-pandemia onde parecia que a sua independência e qualidade profissional eram finalmente reconhecidas e por outro, esta nova realidade que, para lá do que alguma vez havia imaginado, lhe confere agora pouco mais do que absurdas oportunidades profissionais consideradas "adequadas" para aquilo que ela pretende ser... uma escritora. Todo o seu trabalho que até então era considerado de qualidade e desejado é agora uma breve miragem desses outros tempos... pouco ambicionado... pouco qualificativo... absurdo... essencialmente absurdo.
Remetida a um conjunto de trabalhos de ocasião que inicialmente pagavam bem dado o surto de falecimentos que se registaram fruto da pandemia e que, como tal, pediam a execução de elogios fúnebres que fossem o reflexo de todo o amor e dedicação que os familiares pelos mesmos sentiam, foi com o recuar dessa mesma pandemia que este "trabalho" de ocasião começou a ser, também ele, um desnecessário absurdo que em nada contribuía para imagem dos entes que então partiram. Então, questiona-se, qual a solução?! De absurdo em absurdo - afinal é o que principalmente retemos desta mulher cujo único crime parece ser o de que querer sobreviver num mundo que aparenta ter avançado mais depressa do que ela -, surge a oportunidade de ouro quando lhe é proposto escrever horóscopos para cães e gatos... um cómico capricho para os seus donos - ou "humanos" - que nada tendo para abrilhantar os dias dos seus pobres animais de estimação, os pretendem "humanizar" com igualmente absurdas características ou "vícios" que agora se pretendem adequar aos mesmos.
O ridículo, do ponto de perspectiva da personagem bem como do espectador que oscila entre a compreensão da sua situação mas também entre o fechar de um capítulo encerrando e esquecendo os seus sonhos e ambições, passa pela capacidade humana em encontrar formas de sobreviver quando tudo o demais parece falhar e sobretudo pela capacidade de adaptação a um mundo sempre em transformação que primeiro nos adora, depois nos mastiga e finalmente nos deita fora com a mesma exacta rapidez. Quando tudo no mundo falha, inclusivé o próprio, o que fazer para lhe resistir? Encontrar novas soluções e alternativas para sobreviver caindo na incapacidade de fazer valer os nossos próprios desejos e ambições ou não ceder ao compromisso e manter viva a chama de uma qualquer paixão?!
Com um humor muito típico e algumas questões pertinentes à mistura que esbatem constantemente num sentimento de incompreensão, Temps de Chien utiliza essa comédie française para reflectir sobre pertinentes temas pós-pandémicos... Perdeu-se o "eu" e há uma nova necessidade de finalmente o reencontrar ou nunca se chegou realmente a conhecer esse "eu" que agora se revela?
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6 / 10
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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Turment (2021)

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Turment de Marcos Sastre (Espanha) é uma das curtas-metragens que concorrem ao Prémio Canallave do Público que na 11ª edição do Piélagos en Corto irá premiar um filme curto da Cantábria.
Uma floresta. Casas abandonadas. Um espaço onde a vida parece não existir mais. Não se escutam sons e o céu parece mesclar-se com a terra. O que reside nas sombras?
O espectador, enquanto observador participante de todo um espaço que parece estar despovoado, caminha pelos espaços que o realizador decide "abrir" para o desenrolar da sua acção facilitando apenas parcos espaços ou rasgos de luz que nos permitem decifrar aquilo que se encontra realmente por detrás das referidas sombras. Encontramos sim um registo quase exaustivo - pelo menos dentro daqueles locais -, de espaços abandonados e desertificados que apenas se afirmam como marcos de um passado que já não existe.
Ao som de um "I'm in heaven" existe um "fantasma" que paira e acompanha o espectador. Sentimos que existe algo para lá da nossa compreensão e que precisa ou deveria ser revelado mas que, ao mesmo tempo, nunca chega a uma concretização que nos permita perceber para onde o realizador pretende levar esta dinâmica. Se o tal ambiente desconcertante já se afirmou, a realidade é que funciona possivelmente como um título experimental mas não como uma ficção onde exista uma linha ficcionada coerente para que se assuma uma história. Caminha-se de forma errante sem que se pretenda alcançar um local em concreto ou, por sua vez, existe a necessidade do realizador em revelar um estado mental desconcertante de alguém - talvez esse "alguém" que o espectador incorpora ao assumir-se como um observador dos espaços -, cuja sanidade já está francamente alterada. Por outro lado... terá sido raptada esta mulher que a assumimos como tal pelos gritos que escutamos? Terá ela morrido? Será ela uma aparição neste espaço distante e deserto?
Talvez dinâmico enquanto um filme experimental cujo argumento pretende revelar o que está para lá dessa tal sanidade perdida mas, no entanto, Turment perde-se no lirismo de uma história que não se concretiza de facto deixando pairar no ar essa fronteira entre o real e o imaginado, a loucura e a possessão e um real que está para lá de qualquer réstia da nossa compreensão.

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3 / 10

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Toto (2020)

 

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Toto de Marco Baldonado (Canadá) é uma das curtas-metragens que passa neste primeiro dia do We Are One - A Global Film Festival que decorre na plataforma online do mesmo decorrente da actual situação de emergência sanitária provocada pela pandemia do COVID-19.
Uma avó solitária (Rosa Forlano) com noventa anos de idade encomenda um robot. No processo de o transformar como o seu novo, e talvez único, amigo, desenvolve-se uma relação que se aproxima da paixão. Mas tudo tem um fim... que se aproxima rapidamente.
Num mundo em constante transformação, Toto vem relembrar o espectador de que as realidades individuais de cada um de nós são variadas tendo, no entanto, um aspecto que parece cruzar todos numa determinada altura da vida... a solidão. Com uma verdadeira "nonna" italiana, a actriz Rosa Forlano - a própria avó do realizador Marco Baldonado -, interpreta uma mulher que o espectador imediatamente compreende como alguém que vive uma vida solitária e isolada... Isolada mesmo neste mundo em constante transformação onde as redes sociais e as tecnologias parecem invadir as nossas vidas a cada dia que passa aproximando-nos geograficamente mas distanciando-nos fisicamente. Num simpático e por vezes divertido registo, Forlano entrega-nos, e faz-nos por momentos esquecer, o verdadeiro drama por detrás dos seus comportamentos. Aquilo que aqui observamos é, na realidade, o retrato de tantas pessoas mais idosas que, no silêncio do esquecimento e do afastamento mais ou menos voluntário de uma família com as suas vidas - diferentes da sua pelo distanciamento físico e geracional - por viver, estão solitárias ao ponto de encontrarem na tecnologia, a única forma de se poderem voltar a consolidar e pactuar com um mundo que é para elas, já bem distante e diferente daquele que outrora conheceram. Recorrendo ao mais tradicional da cultura popular mediterrânica, Rosa "la nonna" refugia-se na cozinha e no prazer de comer, a forma de se reconciliar e ligar a e com esse mundo "lá fora" encontrando, portanto, o veículo para compreender que a vida vida tem, uma vez mais, o sentido que havia perdido há anos.
Inteligentemente construída para primeiro conferir-lhe um ritmo inovador que nos coloca num tempo incerto no futuro mas que, depois, nos faz compreender que as realidades que ali se fazem sentir - afastamento da família, isolamento social das populações mais idosas, avanço tecnológico e choque geracional entre outras - são tão próximas que muitas são infelizes realidades que já hoje qualquer um de nós vive, conhece ou reconhece. Com um desempenho cómico, dramático, emotivo e onde consegue dar corpo a uma profunda tristeza e compreensão de que o mundo parece já não ser o "seu", Rosa Forlano é brilhante nos seus pequenos passos, na sua concepção da realidade (interior e exterior) e principalmente na "forma" que dá a uma solidão que não será só sua mas de todos os que não conseguem acompanhar este novo mundo (mais ainda será no futuro que aqui se pretende retratar) sem que, no entanto, alguma vez perca a sua humanidade e humanismo encontrando até... a Humanidade numa tecnologia ultra-avançada. Forlano conquista-nos por essa humana simplicidade que por vezes dificilmente se reconhece mas que está "lá"... no coração daqueles que ainda anseiam viver. Numa única palavra, Rosa Forlano é simplesmente... magnífica.

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8 / 10

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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Todo lo que Viene (2020)

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Todo lo que Viene de Roberto Pérez Toledo (Espanha) é uma das suas mais recentes curtas-metragens e uma que retrata este novo momento em que, agora sim, todos comunicamos com o recurso a estas novas tecnologias que nos aproximam em tempos que devemos manter distâncias.
Ele (Enrique Cervantes) e Ele (Álvaro Pérez Ruiz) falam via skype e observam-se a uma distância que o momento impõe. Falam de trivialidades que, noutras circunstâncias, seriam decididas sem uma prévia consulta sobre como melhor agir perante uma indecisão sem qualquer importância. Existe uma lista de objectivos que se pretende concretizar mas não se compreende bem quando.
Nesta curta-metragem tudo o que é trivial e tendencialmente sem importância é discutido como assuntos de um dia-a-dia incerto onde nada é (agora) dado como adquirido. Tudo o que é potencial sem importância numa realidade anterior é agora o assunto do momento. Como agir perante a incerteza ou, como um cenário ainda mais trágico, o que esperar desse "depois" que parece nunca mais chegar? Mas será apenas disto que falam? Ou equacionam um futuro sem indecisões onde as certezas da vida começam a partir da sua própria vontade de agir?
As consequências de uma decisão tomada... ou as consequências de uma que nunca chegou a ver a luz do dia neste momento de incerteza global parecem tornar-se elementos de uma vida que ganham a importância de poderem ser terminais. Qual a importância de, por exemplo, rapar o cabelo quando o dia de amanhã é tão incerto como aquele que poderá chegar daí a mil dias? Quando nada é certo... preocupar com o quê?!
A interacção entre os dois protagonistas, sempre coerente e cúmplice, confirma a confiança e intimidade que só se conquista com quem realmente se conhece para lá de um momento específico na vida. Ali compreendem-se cumplicidades que se formaram pela próxima união de duas almas para quem a opinião, o conselho e a sugestão se assumem como importantes factores de uma vida a dois... mesmo que agora essa dupla apenas se aproxime pela possibilidade das novas tecnologias e não da próxima convivência. Cervantes e Pérez Ruiz emocionam por essa cumplicidade agora afastada pelos muros de uma realidade global que não só não se construiu como tão pouco se sabe quando poderá terminar. A realidade existe para lá das suas portas... a cumplicidade e o afecto está lá... tão próximo quanto pode estar e tão íntima quanto alguma vez poderia (ou poderá) estar.
Magnificamente "desenhada" ao sabor dos dias deste ano 20 do século XXI que a todos apanhou de surpresa e que nos deixou num inesperado limbo, esta Todo lo que Viene acaba por confirmar o próprio sentido do seu título pela incerteza de que "venha o que vier" "ele" e "ele" estarão lá... um para o outro.
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7 / 10
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sábado, 16 de novembro de 2019

Toothache (2019)

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Toothache de Stacey Palmer (EUA) é mais uma das curtas-metragens presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta, numa história que remete o espectador para um drama familiar onde, no seio de um casal, algo invulgar está prestes a ocorrer.
Uma mulher chega a casa enquanto outra a espera para mais uma noite familiar. Quando uma desenvolve uma súbita e inesperada dor de dentes, o impensável estava prestas a acontecer abalando definitivamente a vida deste casal.
Aquilo que poderia ser um drama familiar ou mesmo uma história de terror sobrenatural pela impossibilidade dos acontecimentos, cedo se revela como uma história filmada com uma sentida despreocupação pela perfeição dos detalhes que poderiam enriquecer a mesma. O conto é banal... um casal em que as duas mulheres falam de um conjunto de banalidades sobre o seu dia-a-dia para, sem qualquer aviso para lá da óbvia menção presente através do título da mesma, uma das mulheres manifestar uma preocupante - e eventualmente lacerante - dor de dentes que incomoda a esperada noite pacífica. Dor essa que se repete para uma eventual noite mais ou menos grotesca onde o dente - ou dentes - manifestam a sua presença da forma mais inesperada. Diz o ditado popular que sonhar com dentes é sinal de morte... aqui, vê-los a ganhar vida própria é sinal de que esse fim se anuncia e não da melhor forma.
O terror grotesco tem a sua justificação e marca pessoal no cinema destacando-se com inúmeros títulos e obras que ainda hoje são referência no género. No entanto, Toothache vibra com a tentativa de se assumir como uma história de terror moderno capaz de provocar o factor "susto" através de lugares comuns e momentos já conhecidos daquele género que ganha forma através da convivência e ambiente familiar. No entanto, para lá de uns breves minutos de banalidades que em nada contribuem para o género - o dito terror só chega mesmo no final -, aquilo que separa esta história de um banal conto matrimonial é, de facto, muito pouco.
Nem mesmo ganhando pontos com a sua execução que oscila entre o primário e o francamente amador, esta curta-metragem assume-se como aquela mais frágil em toda a selecção e possivelmente a que menos terror (ou a ver com ele) teve. Talvez como ensaio estudantil ou para aqueles que se querem iniciar no género - ainda que não da melhor forma - Toothache é mais uma dor de cabeça do que propriamente de dentes...
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1 / 10
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Toe (2019)

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Toe de Chad Thurman e Neal O'Bryan (EUA) é uma das curtas-metragens de animação presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta.
Um jovem rapaz habita um meio pobre e decadente. Onde nada floresce nada se consegue comer. Até que num passeio pela propriedade encontra um dedo que leva para casa.
Toda a atmosfera desta curta-metragem poderia, muito facilmente, inserir-se num universo sobrenatural gótico não só pela sua temática como principalmente pela brilhante direcção de arte de Truc Nguyen que transforma aquilo que seria um espaço (supostamente) verdejante e onde brotaria vida, num espaço macabro, grandiosamente assustador e negro pela falta de vida à qual, obviamente, o espectador junta a excelente direcção de fotografia de Neal O'Bryan que com os seus jogos de (ausência) de luz faz das sombras e da escuridão que se move em torno do protagonista, o centro de toda a dramatização de uma história que humaniza o sofrimento da fome e da miséria social.
Mas centrar Toe como uma história sobrenatural era por demais redutor. Thurman e O'Bryan criam um conto gótico onde é a miséria a principal "personagem". Um conto onde um jovem, abandonado pelo que o espectador compreende, tenta sobreviver num espaço agreste, numa casa rudimentar e numa propriedade onde tudo morre lentamente. As plantas não florescem, os animais desaparecera - à excepção de uma ou outra ave que tenta, também ela, encontrar algo com que subsistir -, e este jovem proprietário mais não é do que uma sombra de um eventual passado que já não tem. Até um específico momento em que encontra aquilo que pode ser a sua salvação.
Se inicialmente o espectador cria uma certa empatia imediata com esta personagem sobrevivente, aos poucos vibra com o seu sofrimento ao não conseguir encontrar algo que o faça sobreviver um dia mais. É quando este seu desespero o leva a um acto impensável caso o seu estado mental estivesse em plenas condições, que finalmente compreendemos com maior discernimento o quão selvagem pode ser a condição humana quando levada e testada ao seu limite. A fome extrema, à qual ele obviamente tentava resistir à muito, fê-lo encontrar os restos mortais de alguém que, possivelmente em tempos, habitou o mesmo espaço que ele. Alguém que cruzou os mesmos espaços, que viveu naquela mesma casa e que certamente tentou cultivar as terras onde agora está enterrado. Alguém que, tal como ele, também foi um sobrevivente independentemente das suas condições específicas. Um dedo... um único dedo ali desprotegido como que indiciando que poderia ser a tal escapatória para a sua fome... mas, a que preço?!
Todo o segmento seguinte de Toe dedica-se ao tal esperado elemento sobrenatural onde todas as provações têm, um dia, de ser devidamente pagas. E este jovem, indefeso na sua condição mas esperançoso por poder ver um novo dia... tem a sua prova final na mesma noite em que cometeu o acto impensável de um canibalismo necrófilo não "processado" enquanto tal. É quando o "proprietário" do dedo vem finalmente reclamar aquilo que lhe foi retirado que se compreende que o perigo espreita a todos os recantos. É nesse momento que a sua casa parece ganhar, também ela, uma alma desesperada... as janelas assemelham-se a olhos sinistros que espreitam, as frestas entre as tábuas como portas de entrada para quem chega e a música da autoria de Flora Cheng muito ao estilo de um The Shining animado, conferem a esta história uma ambiência paranormal que apenas adivinha um único final. E este não será animado para um dos seus protagonistas...
Engenhoso e mordaz, com um humor negro e satírico que parodia sem qualquer comédia, Toe é uma brilhante forma de condenar a miséria não a vitimizando e garantir que todas as provações se pagam... nem que sejam cobradas depois da própria morte.
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8 / 10
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Terror Road (2018)

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Terror Road de Brian Shephard (EUA) é mais uma das curtas-metragens a marcar presença na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta neste que é o penúltimo dia do evento.
Uma estrada deserta. Um regresso a casa. Um carro que avaria e uma mulher que tem um estranho encontro que poderá determinar o seu destino. Irá ela encontrar a melhor solução para o seu regresso?
Numa fórmula já conhecida de qualquer cinéfilo mais atento, Terror Road recorre aos elementos tradicionais deste horror sobrenatural colocando personagens e espectador no mais óbvio e sinistro ambiente possível. Tudo nesta curta-metragem tem, sem grande margem para manobra, os indícios típicos de uma história de género que o espectador já sabe de antemão como irá terminar. Afinal, alguém acredita que numa estrada como aquela em que a nossa protagonista se encontra existe uma qualquer possibilidade - ainda que remota - de sobrevivência? E isto... não é entregar nenhum spoiler.
"Anna" (Surely Alvelo) é uma mulher de regresso a casa num clima que, aparentemente, nunca lhe provocou calafrios... Mesmo considerando que a estrada que percorre dá, de forma mais ou menos casual, título a esta curta-metragem e isso, por si só, deveria ser motivo suficientemente para pensar se a deveria cruzar mais alguma vez... O seu trajecto é "habitual"... a sua completa descontracção é, pelo que percebemos, tanta como em qualquer outro dia... Mas, será que anteriormente o mal espreitou com tanta vontade de a encontrar como agora o faz? A resposta será... possivelmente sim... mas apenas agora decidiu dar o ar de sua graça.
A partir daqui os lugares comuns invadem o ecrã... Todos sabemos que irá existir um atropelo "acidental"... Uma preocupação natural daquela que tem o coração puro e que o mal irá certamente testar... E mesmo a habitual fuga ao mesmo que, afinal, poderá não ser tão certa como se faz adivinhar. Mas, no entanto, que elementos conseguem fazer ou dar a esta história alguma originalidade? Nenhum. Nada a transforma naquela história que cativa pela diferença em relação às demais. Ou, dizendo de outra forma, aquilo que a torna segura de si própria é a execução dos elementos já conhecidos com segurança e confiança que, há excepção de uma caracterização menos cuidada e credível (afinal qualquer um de nós com uma dentadura de Carnaval poderia tentar o mesmo), consegue recriar uma atmosfera digna do cinema de género bem como uma estrada que para lá de sombria consegue fazer as delícias do terror tal como ele planeia os destinos das suas vítimas.
Capaz, segura de si mesma e aparentemente sem grandes desejos de ser algo mais do que aquilo que as possibilidades do género apresentam, Terror Road faz as delícias dos amantes do género e deixa a porta aberta para a possibilidade de, de forma mais polida, conseguir sem um filme mais ou menos curto com o potencial e qualidade que lhe são devidas. Entretém... mas longe de provocar os calafrios que poderia ter provocado.
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6 / 10
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Terminator: Dark Fate (2019)

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Exterminador Implacável - Destino Sombrio de Tim Miller (EUA) é a mais recente incursão ao universo Terminator e de forma mais ou menos (in)esperada, uma longa-metragem adaptada aos seus dias.
Sarah Connor (Linda Hamilton), e o T-800 (Arnold Schwarzenegger) reencontram-se para, com a ajuda de Grace (Mackenzie Davis) vinda do futuro, protegerem a jovem Dani (Natalia Reyes) de um novo e melhorado ciborg  REV-9 (Gabriel Luna) e, dessa forma, salvarem os destinos da Humanidade.
Com esta breve sinopse da sexta entrega desta saga - sem mencionar a série televisiva -, o espectador percebe que o argumento, com todas as suas potenciais variantes sobre como salvar o mundo enquanto se escapa de um predador, não terá muitas variantes. Mas, no entanto, há que ver este Terminator: Dark Fate para compreender que elas estão lá e mais adaptadas aos dias não tão positivos que vivemos. Esqueçamos, por momentos, a ameaça cibernética que poderá eliminar o mundo... afinal, dessa vive a essência desta história que já nos acompanha há mais de trinta anos, para nos concentrarmos única e exclusivamente nas correcções de formatação social que a mesma exibe ao longo dos seus mais de cento e vinte minutos.
Quando qualquer um de nós que cresceu e vibrou com as nuances de um filme de heróis anónimos que salvavam o planeta Terra da sua eminente destruição pela mão do próprio homem, aquilo que imediatamente recorda é a presença do tal John Connor - que já cruzou vários actores - como uma das suas peças fundamentais e, no fundo, aquele que se assumia como o líder da tal resistência que, no futuro, continuaria essa luta pela sobrevivência. Talvez já não seja necessário o imaginário de um mundo destruído pelo nuclear - apesar dessa ameaça estar tão viva hoje como se calhar nos idos tempos da Guerra Fria... talvez até mais -, e se calhar essa sobrevivência chega de mão dada com tantas outras ameaças que nos cruzam diariamente mas a pergunta que se levanta é imediatamente uma... existe a necessidade real para que esta longa-metragem visse a luz do dia de transformar um dos seus protagonistas em presença inexistente para dar lugar a uma proto-protagonista feminina apenas pela força de que a história tem de ter um fio condutor de um género diferente? Que se desenganem aqueles que acham isto um qualquer comentário sexista, afinal Linda Hamilton tomou - e muito bem - as rédeas das duas primeiras entregas e foi possivelmente um dos elementos que mais falta fez às seguintes tal a saudade que deixou em todos nós (e o júbilo que provocou ao vê-la aqui de novo e em acção), mas no fundo a questão que aqui levanto é... teria existido um crime maior deixar a história de "Sarah" e "John Connor" presente e dar origem, por exemplo, a um reencontro entre mãe  e filho que foi inexplicavelmente cancelado em Terminator 3: Rise of the Machines (2003) quando a única coisa que sabemos da heroína de serviço é que... morreu?! Não teria esse reencontro sido desejado por todos nós eliminando aquele "desfecho" de que afinal o futuro foi diferente sim pela morte presente e não futura do protagonista?!
Se este factor dispersa momentaneamente a atenção do espectador, não deixa de ser real que Terminator: Dark Fate consegue inserir nesta história dois dos seus elementos primordiais... O primeiro, a inegável presença de Schwarzenegger como o vilão virado herói capaz de compreender a espécie humana e lutar ao seu lado (para voltar às suas origens e se regenerar de novo... confuso, é um facto) e, segundo, a presença ultra-feminina de Linda Hamilton que com uma participação em apenas dois dos cinco anteriores filmes conseguiu, de forma inigualável, manter-se até aos nossos dias como uma protagonista - leia-se no feminino - em filmes de acção que ainda hoje todos recordamos. Assim, e considerando que aqui se assume novamente como uma das peças fundamentais desta história, para quê alterar a base deste argumento apenas para o tornar "polido" para os tempos ultra-conservadores dos dias que vivemos e acenar que "afinal um filme de acção pode ser protagonizado por uma mulher"... Já outros o foram... e melhor... Referencia óbvia para os dois títulos iniciais desta saga não esquecendo a heroína absoluta de filmes de acção Sigourney Weaver que com a sua "Ripley" dominou um império de seres tão ou mais perigosos que estes ciborgs... e sózinha! A ditadura do "correcto" acaba por ser isso mesmo... uma ditadura polida mas pouco real que distancia o espectador do género em vez de o atrair para recordar os bons e velhos tempos conferidos por aquilo que já conheceu e do qual ficou um fiel seguidor.
Mas, o polido não está apenas aqui... O "Terminator", ainda que com as devidas inovações que a tecnologia do digital e dos VFX permitem tem, também ele, as suas próprias inovações... já não pode ser o dito "americano caucasiano" ou tão pouco uma "loira de olhos azuis"... agora o perigo (com todos os perigos que isso acarreta para quem quer o "correcto" como uma lei e ordem) tem de ser também ele um fruto dos dias de ameaças que o outro lado do Atlântico prevê... um exterminador latino (mexicano para bom entendedor...) que pretende destruir todo um modo de vida ocidental pondo em risco os demais "formatados" ao século XXI... para remediar a coisa faz-se também nascer uma futura heroína (feminina claro está) mexicana, substituindo o "John Connor" de serviço que "morreu" algures no tempo. Nada que no futuro, e com as diversas viagens no tempo aqui permitidas, não se altere mas, até lá, temos o que temos... e importa aquilo que um público norte-americano queira consumir... afinal o mal está - e sempre esteve - na forma como o queremos encarar face aos nossos próprios receios de um fim... seja do mundo... ou da nossa existência pacífica enquanto alguém que, sem problemas, terá de os inventar num qualquer bode expiatório.
O destino é, de facto, sombrio. A existência enquanto comunidade está ameaçada e, dessa forma, a própria sociedade poderá encontrar o seu fim. Da mesma forma que em tempos ditos conservadores a Sétima Arte sobre desafiar convenções e estatutos colocando mulheres fortes - tão fortes como qualquer homem - a comandar um filme de acção - talvez atípico mas são as transformações silenciosas aquelas que mais perduram -, estaria hoje na altura perfeita (não fosse ela sim ultra-conservadora) de encarar essa mudança conquistada há mais de trinta anos como um facto normalizado e aceite (não precisou de o ser) que, na realidade, nunca foi questionado por nenhum de nós que crescemos a ver uma mulher forte e capaz de enfrentar a própria extinção sem qualquer medo da mesma. Mas, esse destino não é apenas sombrio por este politizar do género. Do querer parecer bem porque as actuais convenções assim o determinam... são os pequenos elementos... a "mexicanização" do perigo (uma vez mais) que espreita e é capaz de passar a fronteira por debaixo do novo Muro da Vergonha agora em terras de Tio Sam detentoras do estatuto da liberdade ou a extrema necessidade mostrar que "as mulheres também o conseguem" quando, na realidade, já o conseguiram há trinta anos pelas mãos da própria protagonista... que acabam por fazer perder ou, no mínimo, dispersar todo o empenho aqui criado com uma história que parece querer disparar em todas as direcções faltando apenas o elemento ambientalista para ser sim... uma longa-metragem adaptada a este 2019.
Se esta é mais uma perda de tempo do género? Não. Terminator: Dark Fate tem os seus momentos de acção e as suas inúmeras acrobacias típicas de um filme capaz de distrair o espectador dessa tal triste realidade que eventualmente o espera para lá da porta da sala de cinema mas, ainda assim, está longe de ser capaz de se manter como o novo fôlego da saga que, elogios à parte, não consegue ter desde Terminator 2: Judgment Day (1991) onde o que importava era apenas as vantagens de um argumento apocalíptico e acção a todo o gás sem se equacionarem todas as correcções de uma sociedade deste século XXI que lentamente se destrói pela vontade de agradar a todos e sobreviver à crítica.
Com os efeitos especiais esperados e um Schwarzenegger relativamente apagado para aquilo que dele seria de esperar no género em questão - se foi esta a sua última entrega na saga... mais valia não ter participado - e com uma Linda Hamilton capaz de provar que ainda está para as curvas e suficientemente habilitado para comandar sózinha esta história, Terminator: Dark Fate cumpre os parâmetros mínimos para o espectador querer ir ao cinema e ter à sua frente um filme de acção mas, no entanto, para aqueles de nós que se lembram das filas intermináveis e sessões esgotadas que a obra de Cameron teve no início da década de '90... este Dark Fate deixa um enorme amargo de boca que, a existir, a próxima aventura terá muito que fazer para eliminar.
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7 / 10
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quarta-feira, 20 de março de 2019

Terra Ardida (2018)

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Terra Ardida de Francisco Romão (Portugal) é um documentário em formato de curta-metragem e um dos nomeados aos Sophia Estudante da Academia Portuguesa de Cinema que relata os acontecimentos aquando dos incêndios de 2017 mais concretamente na aldeia do Fajão perto da Pampilhosa de Serra, terra da avó do realizador.
Num breve mas emotivo registo, Terra Ardida recorre a um breve apontamento de mitologia e de conhecimento local da terra pelas suas gentes que registam e vivem o momento dos devastadores incêndios na primeira pessoa, registando-o como um acontecimento e cenário de guerra que, na realidade, não o era. Habituada a estes acontecimentos naturais, agora cada vez mais frequentes e mortíferos, esta aldeia totalmente destruída não viu nenhum dos seus sucumbir aos trágicos acontecimentos mas, no entanto, todos aqueles que falam são vítimas de uma tristeza profunda que ainda hoje os assola e consome lentamente por compreenderem agora que perderam um pouco da sua História e do seu património. Ainda que recorrendo a um lugar comum... nada voltará a ser como era dantes.
Repleta de um profunda nostalgia - ou mesmo melancolia - e de um sentimento de perda que se prolonga para lá dos testemunhos e da própria curta-metragem chegando a afectar o espectador mais desprevenido numa inesperada semelhança a um qualquer fim que é retratado, por exemplo, na longa-metragem Interstellar (2014), de Christopher Nolan que coloca o espectador perante o fim mais ou menos esperado do seu espaço e habitat natural, Terra Ardida é para lá de um (não tão) simples documentário, uma história de sobrevivência, de resistência e sobretudo de memória, dos espaços, das histórias da História e das suas gentes... sobreviventes da maior catástrofe natural de Portugal dos últimos duzentos anos aqui recordada com o devido respeito e homenagem que as suas vítimas merecem.
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8 / 10
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Turned (2015)

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Turned de Adam Bolt (EUA) é uma curta-metragem que recupera a trama tradicional do género ao inserir uma família - ou o que resta dela - num mundo onde a sobrevivência face a uma invasão zombie é o objectivo último.
Mãe (Ryan Driscoll) e Filho (Zackary Arthur) tentam fugir numa cidade dominada pelos mortos-vivos. Quando refugiados numa casa com outro sobrevivente (Benjamin Busch), Lisa descobre que foi mordida. No momento em que percebe que a sua vida está perto do final, qual o legado que poderá deixar para que o jovem Cameron sobreviva?
Adam Bolt cria a tradicional história de apocalipse zombie. Uma cidade dominada pelos mortos-vivos que a ocuparam sem qualquer causa aparente que seja explicada, a dinâmica ultrapassa o interesse em descobrir os motivos mas sim compreender como é que os poucos sobreviventes não infectados que restam resistem num mundo onde tudo está contra as suas necessidades.
Das supostas alianças à memória para o futuro, Turned é contado através de um conjunto de flashbacks da protagonista que oscilam entre aquilo que recorda, o que deseja transmitir ao seu jovem filho que brevemente irá ficar orfão e ainda sobre o conjunto de memórias que lentamente vai perdendo enquanto o seu corpo cede perante o vírus que agora percorre o seu corpo.
Com alguma previsibilidade - a certa altura - à mistura, esta curta-metragem consegue manter um certo suspense sobre os destinos do jovem "Cameron" que embarca nas vontades da mãe que compreende estar perto do fim. Num último desejo de preservar a vida do seu jovem filho, "Lisa" terá de começar por eliminar as ameaças mais latentes... a sua "transformação" e claro, o outro sobrevivente que vê no seu filho um empecilho que não irá ajudar a salvar. No momento em que lhe faltam as forças físicas e psicológicas para conseguir manter o discernimento e a vontade, "Lisa" terá apenas uma última escolha... lutar sem propósito ou abraçar a condição de alguém que irá estar, para sempre, ligada a um filho que quer sobretudo salvar... mas a que custo?!
Dinâmico na sua elaboração e capaz de manter o ritmo e a incerteza até aos últimos instantes - falhando apenas no momento em que mais necessário era -, Turned consegue nos seus breves minutos contar uma história com princípio, meio e fim sem atropelos, exageros ou tempos mortos (sigh)... mesmo que para isso recorra a um sem fim de momentos desse passado já perdido e criar uma interessante atmosfera (em tão pouco espaço) do aspecto de um pequeno mundo destruído e onde reina o caos.
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7 / 10
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terça-feira, 22 de maio de 2018

Teaser (2017)

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Teaser de Luisma Lostal (Espanha) revela uma interessante originalidade quando se promove uma curta-metragem a partir de um projecto de teaser trailer - aliás, como o próprio título da mesma indica -, fazendo desta breve apreciação de um filme porvir o verdadeiro filme que se deve observar. Por outras palavras, na medida em que os teaser servem como porta de entrada para um qualquer filme por estrear, aqui o mesmo apresenta-se como o verdadeiro filme deixando o espectador num impasse - ou não - sobre a história que se poderá esconder por detrás das breves imagens que aqui são reveladas.
Um morador encontra o inesperado numa noite de tempestade. Ao entrar em casa é puxado por uma figura enigmática que depois percorre um hall de entrada de forma fantasmagórica. A partir desta premissa o espectador poderia esperar por um qualquer conto amaldiçoado onde os protagonistas - aquele que é revelado e o que vive nas sombras -, se assumem como misteriosas figuras de uma qualquer história que já teve o seu início e que aqui observa o ponto de impasse onde ocorrem todas as transformações mas, se por um lado esta história assume contornos de conto assombroso que poderia revelar toda uma outra imensa história, a realidade é que termina no exacto momento em que o interesse do espectador se apresenta. Assim, se não deixa de ser original a forma como se apresenta o teaser como o filme em potência, por outro lado este mais não é do que o filme propriamente dito deixando de parte todo o demais desenvolvimento que poderia surgir.
Original... num momento em que a originalidade não basta para apresentar um filme coerente... Quando se encontra uma boa premissa há que desenvolvê-la como se toda a arte cinematográfica dela dependesse... algo que aqui o espectador não encontra.
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2 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Testigos Pétreos (2016)

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Testigos Pétreos de Jacobo Muñoz (Espanha) é um documentário presente em competição na nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantabria, em Espanha.
Os Picos da Europa sempre foram um refúgio e diz-se que devem o seu nome ao facto dos marinheiros regressados de alto mar que neles avistaram os primeiros sinais de terra. Com uma biodiversidade notável e vestígios de alguns povoamentos ao longo dos séculos, as suas pedras são provas da existência de História e cultura ao longo dos séculos.
Do frio intenso a mais verde Primavera, as diferentes oscilações geográficas contribuem para um ecossistema específico que se pode encontrar num mesmo espaço. Flores e árvores co-habitam com animais domesticados e selvagens que vão das habituais vacas aos ursos ibéricos naquela que é uma das áreas mais bem conservadas da Europa.
Este documentário em formato de curta-metragem mais que uma homenagem aos Picos da Europa é, sobretudo, uma documentação breve sobre as montanhas, a sua fauna, flora e sem esquecer um registo da forma de vida ao longo dos séculos nas mesmas. Brilhante como um registo factual do espaço que poderá servir como um cartão de visita para com o espectador menos informado, Testigos Pétreos é assim uma forma clara e eficaz de poder conhecer um espaço geográfico tão importante da Península e do continente bem como esclarece o espectador sobre a intensa diversidade que se encontra no seu ecossistema. Em escassos metros - esclarece - tão depressa se encontra um clima e uma flora específicos como, num espaço ao lado, outro mais díspar e característico fazendo do local um manto diverso de vida e cor que floresce a todo o instante.
Ao mesmo tempo Testigos Pétreos documenta ainda todo um passado histórico da região que vai da Reconquista Cristã da Península Ibérica bem como é o espaço de "partida" de muitos dos livros religiosos já escritos tornando-se portanto num dos focos culturais da Europa de épocas passadas fazendo ainda parte da rota dos Caminhos de Santiago.
Documentário no verdadeiro sentido da palavra, Testigos Pétreos regista um pouco do espaço, da sua cultura e da sua importância histórica ao longo dos séculos fazendo destes breves instantes um brilhante serviço cultural e informativo sobre uma das mais importantes áreas naturais do continente filmadas com rigor, dedicação e sentido profissional.
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8 / 10
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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Tempo Comum (2018)

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Tempo Comum de Susana Nobre é uma longa-metragem portuguesa presente na Competição Nacional da décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que irá decorrer entre os dias 26 de Abril e 6 de Maio, em Lisboa.
Num apartamento em Lisboa, Marta (Marta Lança) toma conta da filha recém nascida enquanto recupera do parto. Por entre visitas de familiares e amigos onde se expõem ideias sobre o casamento, o parto, os primeiros empregos bem como os planos e expectativas para com o futuro, observamos o ciclo da vida por vozes de várias gerações enquanto Marta tenta encontrar o seu caminho.
Depois de Lisboa-Província (2010), Vida Activa (2014) e Provas, Exorcismos (2015), Susana Nobre regressa com esta longa-metragem que não só mescla o documentário e a ficção como assume muito das vertentes exploradas nas suas obras anteriores. Da casa em que se encontram e de onde esperam partir para uma mais permanente, Susana Nobre confere a este casal - e sobretudo à perspectiva da mãe - os dramas e dilemas de uma família que tenta encontrar o seu lugar após as constantes transformações que a sua vida acaba de encontrar. A dinâmica do casal é então explorada sobre a perspectiva de alguém que tenta primeiramente encontrar o seu lugar enquanto pais recentes e, dessa forma, lidar com uma nova vida que agora ocupa os poucos ou nenhuns espaços livres que têm como também o seu próprio lugar como membros de um casal que agora tem toda a sua convivência alterada pela presença de uma filha recém nascida. Ao mesmo tempo, Tempo Comum explora, ainda que livre e levemente, o regresso a uma vida profissional activa que parece não querer esperar por ninguém enquanto se debate - o casal - com a dicotomia entre campo e cidade e as (des)vantagens que ambos os espaços parecem querer trazer para a sua dinâmica enquanto família em crescimento. Se na cidade tudo parece estar ao alcance de breves passos, é no campo que aparentam estar as suas raízes e a aparência de uma vida menos complicada à qual, no entanto, faltam tantos outros recursos que apenas a cidade pode satisfazer.
Ao mesmo tempo, Tempo Comum insiste em não esquecer a dinâmica da família extensa ao colocar os problemas do casal "Marta" e "Pedro" em directo confronto com as vivências dos seus pais e sogros como exemplos que se esperam alcançar ou, pelo menos, tomar como ponto de partida para aquilo que esperam construir. No entanto, e neste tal mundo em constante movimento e transformação, como alcançar feitos que agora podem ser não só efémeros como um mero trânsito para realidades que poderão não ter - para eles - o mesmo impacto que outrora fora conquistado?
Quase como um filme registo ou relato, Susana Nobre conquista com Tempo Comum a capacidade de espelhar esta sociedade moderna onde o "eu", o "nós", a família, a vida profissional e a paternidade se confundem e imiscuem dificultando a percepção do que representam cada um deles e, sobretudo, o que representam para a formação dessa consciência sobre o individual e o colectivo. Até que ponto está hoje definida a noção de família? De casal? De progenitores? Do trabalho? Quais as prioridades? Quais as barreiras? Quais os entraves ou, principalmente, quais os sentidos proibidos que se devem ter sempre presentes e consciencializados enquanto tal.
Diferente, afastando-se de breves catalogações que o opõem a documentário ou a ficção - à vez -, Tempo Comum une-se a outras obras recentes como, por exemplo, Uma Rapariga da Sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira ou Verão Danado (2017), de Pedro Cabeleira na vontade de fazer assumir - e se assumir - os dilemas de uma geração à deriva incapaz de se enquadrar em diferentes patamares de um normal desenvolvimento psicológico, pessoal, familiar e profissional lançando os seus intervenientes num campo por explorar, desconhecido e incerto... Tanto quanto a incerteza com que o espectador retém no final sobre os destinos destas não tão improváveis "personagens" reais. Bravo Susana Nobre. Bravo!
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7 / 10
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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)

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Três Cartazes à Beira da Estrada de Martin McDonagh é uma longa-metragem de co-produção britânica e norte-americana na qual Mildred Hayes (Frances McDormand) se lança numa cruzada contra a polícia local incapaz de descobrir o culpado do homicídio da sua filha há largos meses, pintado três grandes cartazes com mensagens directas para as autoridades.
Da reacção do chefe da polícia William Willoughby (Woody Harrelson) que tenta conciliar a dor de uma mãe arrasada e sem nada a perder, ao seu assistente Dixon (Sam Rockwell), Mildred enfrenta tudo e todos em busca de uma resposta que não só tarda como parece quase impossível de chegar.
Nesta que é a sua terceira longa-metragem enquanto realizador e argumentista, Martin McDonagh cria um conto sobre a América mais "profunda" e potencialmente mais tradicional ainda ensombrada com os fantasmas do passado esclavagista e respectivas divisões sociais e sectárias onde a cor da pele ainda define os supostos "valores" dessa mesma época. Aqui, tudo ainda é medido pelos parâmetros de uma sociedade onde o século XXI ainda não aparenta ter chegado.
Tudo começa ao som de uma pacata e tranquila ópera que denota uma estranha e improvável tranquilidade que Three Billboards Outside Ebbing, Missouri não irá revelar e onde encontramos uma mulher igual a tantas outras... o desgaste de "Mildred" (McDormand) - desde os primeiros instantes em que a vemos dentro do carro para o seguinte momento onde a compreendemos como uma mulher com uma missão - é notório. A (sua) situação limite leva-a a encontrar soluções onde tudo já parece ter falhado e a busca por uma responsabilização das autoridades para a investigação sobre o rapto, violação e morte da sua filha é uma necessidade para apaziguar o tormento que sente e para a culpa que, não tendo, é uma presença. É então que entra toda a componente social e comunitária desta história...
Ebbing é uma pequena cidade de interior onde a polícia e a autoridade são ainda símbolo de uma ordem que tantas vezes é ignorada nestas pequenas comunidades, e o abuso de poder transforma-se numa forma de agir sendo que é o tal "blind eye" dessas autoridades para os próprios atropelos da lei uma forma de manter uma paz e ordem podres que apenas preenchem os olhares alheios sobre esta pequena comunidade afogada numa pressão prestes a eclodir. Quando "Mildred" decide desafiar essa ordem como a única forma que encontrou de obter as respostas que pretende, vêm a lume não só esses atropelos à lei como também aqueles pequenos grandes crimes que são diariamente cometidos e vividos no silêncio desde a violência doméstica à xenofobia passando pela homofobia, bullying e crimes para os quais nunca se encontra uma resolução... porque não se pode ou mesmo quer.
Se "Mildred" é este rosto que desafia a autoridade, é o "Capitão Willoughby" de Harrelson que representa a tal ordem moral que impera na cidade em nome de uma paz de não existe e também o "Dixon" de Sam Rockwell - número dois da esquadra - a face de uma comunidade podre, fortemente ameaçada por dentro e onde a ordem, a lei, a regra ou o respeito existem. Assim, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri deixa de ser muito cedo sobre o crime que fora cometido para a jovem filha de "Mildred" mas sim sobre a luta desta contra os silêncios e os abusos que são cometidos não só pelos (não tão) comuns criminosos como também pelo silêncio pactuante de uma autoridade que age pelo medo, pela intimidação e pela pressão em nome de uma paz social ou de uma ordem imposta pelo medo. Afinal, poderão ser apenas responsáveis aqueles que cometem crimes pela sua índole violenta ou, junto a eles, os que não actuam e deixam passar o que acontece apenas para manter a ilusão de que se vive num qualquer paraíso onde os bons costumes e boas maneiras são regra para a existência divina?!
Mas, se o argumento de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri da autoria do próprio realizador têm toda esta carga dramática que ganha corpo graças a uma soberba interpretação de Frances McDormand que não só tem "limpo" esta temporada de prémios como será certamente uma forte candidata ao Oscar de Melhor Actriz, está repleto de doses de drama, não é menos certo que o mesmo está coberto de um humor extremamente negro e corrosivo consegue cativar o espectador desde o primeiro instante fruto (talvez) de uma construção de personagem que insere  a actriz principal no drama de uma mulher arrasada pela perda mas também a consegue libertar do espaço em que se encontra ao desrespeitar todos aqueles que ameaçam a sua existência. Aliás, McDormand não tem uma interpretação tão forte desde o seu brilhante Mississippi Burning (1988), de Alan Parker onde, curiosamente, muitas das suas linhas motoras cruzam de muito perto com as de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri e no qual foi nomeada ao Oscar enquanto Actriz Secundária lidando - a sua personagem - de muito perto com todos os preconceitos raciais e abuso de pode da dita América profunda.
Dotado de uma extrema sensibilidade visual Three Billboards Outside Ebbing, Missouri é, no entanto, detentor de uma profunda e forte mensagem social sobre os estigmas do preconceito, da prisão da liberdade e da já referida aparente paz social que, no entanto, se refugia nas profundezas do silêncio colhendo aqueles que se deixam pro ele dominar e ostraciza os que contra ele se revoltam. Afinal, em algum momento desta longa-metragem assistimos à revolta da população que vive sob este jugo ou, por sua vez, fixamos as poucas várias vezes que a mesma se insurge mais ou menos silenciosamente contra aqueles que desafiam o status quo?!
McDonagh, à semelhança do que já havia conseguido na sua obra anterior volta, uma vez mais, a dirigir um daqueles filmes que os tempos cinematográficos norte-americanos irão registar com uma obra actual e pertinente... para os cinéfilos e apreciadores de bom cinema, esses, irão registar um desempenho notável de uma actriz que não sendo assídua nos grandes ecrãs consegue, por sua vez, conquistá-lo em todas as frentes desejando o espectador que a sua demanda seja bem sucedida. No final, permanece uma última nota... o cruzar de esforços que o equivalente ao bem (McDormand) e o mal (Rockwell) encetam para exterminar um mal ainda maior... mesmo que não seja aquele pelo qual "Mildred" tanto procurou.
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"Mildred Hayes: (...) there ain't no God and the whole world's empty, and it doesn't matter what we do to each other?"
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9 / 10
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Terrain Vague (2017)

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Terrain Vague de Latifa Said é uma curta-metragem luso-francesa presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Nos subúrbios de uma grande cidade, uma prostituta (Delphine Grandsart) refugia-se num bar depois de perseguida por algumas crianças. É observada em silêncio. No bar, um homem (Slimane Dazi) observa-a e, quando ela sai, segue-a. Ele deseja algo que ela é capaz de lhe dar... ou talvez algo mais.
Latia Said dirige e escreveu o argumento desta curta-metragem sobre a iniciação sexual de forma brilhante, por vezes emotiva e com ligeiras doses de humor que desarmam pela sua simplicidade e conferem às suas personagens uma invulgar dimensão humana capaz de as aproximar do seu público que, livre de julgamentos, as acolhem como suas.
A prostituta interpretada por Delphine Grandsart é, para lá de uma mulher marcada pelas circunstâncias da vida que, no fundo, o espectador desconhece, uma mulher que luta pela sua sobrevivência. Nada sobre o seu passado nos chega para lá de que será uma eventual vítima dos julgamentos efectuados pela sociedade que a condena sem a conhecer. Na teoria ninguém quer nada com ela e afastam-na desse seu mundo idílico onde todos são perfeitos... Mas, isenta de qualquer imperfeição, na prática ela é a mulher a quem todos recorrem para satisfazer os seus mais recônditos desejos e devaneios sexuais a troco de algumas notas. Humana, emotiva, sensível mas por vezes fria e rude, esta mulher nada entrega aos demais para lá do seu corpo... Nada... até encontrar um inesperado estranho que a persegue e dela se aproxima não com os habituais caprichos sexuais mas sim com um inesperado pedido...
Ele, num brilhante registo de Slimane Dazi, é um homem perdido no tempo e no espaço. Sem qualquer familiar ou amizade que o espectador lhe reconheça, é o breve encontro naquele bar que o faz aproximar-se de uma mulher que, tal como ele, está perdida no mundo que conhece. Mas, para ele, ela presta um serviço que lhe pode ser útil... um serviço que ele ousa a não encarar como todos os demais e que lhe pode iniciar numa vida que os seus cinquenta anos de idade (?) ainda não conheceram.
A empatia entre os dois, ainda que não imediata, despoleta uma relação que mesmo não confirmada pelo espectador, se assume como intensa, reveladora e transformadora... para ambos... Para ela por talvez encontrar naquele homem o primeiro que a respeita... para ele pela possibilidade de ter naquela mulher, alguém que o ame e para quem saiba poder, a qualquer momento, voltar e entregar-se permitindo-lhe ganhar a confiança que, até então, nunca conseguira encontrar.
Distante de uma realidade suburbana portuguesa tida como tradicional, Terrain Vague é uma magnífica curta-metragem com chancela nacional e, sem margem para reservas, um dos grandes filmes curtos deste último ano. Intensa pela forma como aborda a sexualidade - ou o seu início - já numa idade tão avançada e por aproximar a mesma de um meio mais rude, operário e que pouco tempo perde com a sensibilidade alheia, Latifa Said cria um intenso drama sentimental que, sem tabus, medos ou limitações explora a mais natural das necessidades humanas, o respeito (esperado) pelas trabalhadoras de sexo a quem todos recorrem mas que todos temem respeitar e finalmente abordando de forma exemplar a temática do amor (ou do romance) no mais improvável dos meios comprovando que estas histórias (ainda) existem e quando contadas com intensidade e empenho estão próximas de se aproximar daquele cinema que todos quereremos recordar.
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9 / 10
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O Turno da Noite (2017)

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O Turno da Noite de Hugo Pedro é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Ela (Filipa Matta) é empregada de quarto num hotel de luxo. Sem que dê conta uma famosa actriz (Fanny Ardant) está no quarto. O mundo das duas colide quando trocam umas quantas palavras. Mas, poderá Ela esperar algo mais daquele encontro?
A ascensão social e o desejo de uma vida de luxo e opulência estão no centro desta nova curta-metragem do realizador de Primária (2013) e A Minha Idade (2014) opondo num mesmo espaço dois mundos distintos e centrados em objectivos diferentes. A primeira destas personagens é uma empregado de quarto de hotel interpretada por Filipa Matta, farta do seu trabalho e pelo que percebemos da sua própria vida, deseja poder viver um pouco do luxo e da opulência que qualquer uma daquelas pessoas a quem limpa o quarto vive. Com o pensamento fora do espaço em que se encontra, ela deixa-se levar pelos seus devaneios e pelas conversas que vai ocasionalmente tendo quer ao telefone quer para consigo própria até que... uma das hóspedes do hotel está no mesmo quarto em que ela se encontra.
A actriz - uma sempre magnífica Fanny Ardant - observa-a e deixa-se levar pelo ar de curiosidade que tenta esconder. A troca de palavras que têm denota não só que a empregada já se expôs demais nos seus desejos como uma certa frieza realista por parte desta actriz que não encontra grande brilho ou encanto na vida que leva. Esta troca de palavras cai num momento de triste realidade quando ambas se revelam... uma ansiosa por uma vida melhor que a tire daquele lugar e a faça esquecer o meio mais humilde de onde vem e a outra desesperada por um abraço - ou mais algum contacto físico - que o dito "mundo real" não lhe permite ter.
A sua imediata separação - ainda que por breves dias - permite então que a empregada assuma o lugar da cliente. Que vista as suas roupas... que experimente o seu quarto... que se banhe com sais e até que disfrute o devaneio sexual e fetiche sado-masoquista que e actriz havia encomendado... para ela própria. Se uma sentiu o abraço "sincero"... a outra sentiu uma vida diferente repleta de novas experiências mas que, ainda assim, não deixa também de ser suficientemente artificial para que dela nada reste.
Os dois mundos separam-se com a noção de que não existe liberdade, tal como aquela que é retirada ao pequeno pardal que a actriz mantém no seu quarto e, ainda que permaneça numa gaiola dourada que a diferencie das demais, não deixa de ser uma prisão que todos - actriz, empregada e pardal, têm de viver. Todos existem nas malhas de uma sociedade que os prendeu a um canto... à fama e ao estrelato... ao trabalho e à percepção de que nada mais existe para além do mesmo... e um outro a uma prisão conferida por uma espécie dominante... com mais força e mais poder que o condenam a uma prisão dourada. No entanto, é esta mesma noção de realidade que a todos une... a noção de uma aparência que tem de ser mantida como se a própria fosse garante de uma vida real... de uma vida especial ou mesmo uma vida à qual todos estivessem destinados. Então, porque não fingir um pouco e esperar - quando se pode - ter algo mais?!
Se Filipa Matta tem a interpretação dominante desta curta-metragem revelando alguém cujos objectivos não foram cumpridos e que é consumida pelo seu desejo desesperante de "algo mais", é Fanny Ardant que consegue roubar todo o foco da câmara graças aos seus breves instantes "em cena". A sedução e a confirmação de uma grande senhora do cinema transparecem nestes breves instantes e o seu discurso (des)moralizador concentram, no fundo, toda a dinâmica que estas duas mulheres desenvolvem entre si e para com o mundo que as rodeia.
O Turno da Noite é assim uma - mais uma - das magníficas obras de Hugo Pedro que cada vez mais se afirma como um dos nomes maiores de um novo cinema português bem como confirma a sua capacidade em revelar e contar histórias que vão para lá da simples comédia - como é o caso - fácil transformando-se naquela que é trágica, mordaz e até mesmo satírica de mundos que se aproximam mais do que aquilo que se distanciam.
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Tocadora (2017)

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Tocadora de Joana Imaginário é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português que hoje se inicia em Coimbra e irá decorrer até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Entre o tempo e o esquecimento, Tocadora inicia com uma abordagem real à técnica da animação na qual se irá desenrolar a sua acção. Da inspiração dos mestres à criação, a arte da animação é aqui experimentada como que uma forma de livre expressão da sua criadora que imagina uma quebra entre o real e o imaginado deixando-se levar - em espírito - ao universo dessa animação que tende a criar. Embrenhando-se por um universo imaginado que acaba, no fundo, por ser aquele ao qual pretende dar vida, a criadora pega nos seus elementos e materiais dando forma a uma imaginação que se deixa levar por um tempo interrompido onde tudo voa e se exprime livremente longe de qualquer regra ou espaço temporal.
Tendo a criadora como uma personagem activa da sua própria história - afinal, como a poderia criar se uma sua parte não estivesse ali presente - Tocadora é assim uma animação pretendida na primeira pessoa e que se deixa levar pelas etapas do processo criativo.
Inteligente pela sua animação mas essencialmente o relato de um agradecimento pessoal e não tanto virada para o espectador, esta curta-metragem ainda que belíssima na sua componente animada, perde-se mais pelos meandros do "eu" do que propriamente na sua vertente de cinema que consiga chegar e alcançar o público com a sua mensagem. No entanto, e enquanto homenagem àqueles que inspiraram, de forma consciente ou não, a autora, Tocadora é uma bonita e inspirada nota de agradecimento aos mesmos.
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Tous les Rêves du Monde (2017)

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Todos os Sonhos do Mundo de Laurence Ferreira Barbosa é uma co-produção luso-francesa com o selo de Paulo Branco exibida no Centro Cultural Olga de Cadaval decorrer da décima-primeira edição do Lisbon & Sintra Film Festival que decorre até ao próximo dia 26 de Novembro.
Paméla (Paméla Constantino-Ramos) é uma jovem de 18 anos filha de emigrantes portugueses em França. Com muitos sonhos mas poucos objectivos concretos na vida, Paméla tem apenas como paixões a patinagem no gelo, tocar piano e as viagens que faz a um saudoso Portugal que visita duas vezes ao ano. Num limbo entre a idade jovem e os anos enquanto adulta, entre França e Portugal e as certezas e incertezas que toda esta descoberta comporta, Paméla tem ainda de descobrir o mais importante... o seu próprio rumo.
A realizadora e Guillaume André escrevem este belíssimo argumento centrado na figura da jovem "Paméla". Dos dias em que a sua vida se prepara para uma mudança radical abraçando a tal idade adulta que tantas dúvidas e incertezas tráz, "Paméla" vive na sombra de uma família conservadora que a ama e todos aqueles sonhos de menina que, de uma ou outra forma, vão forçosamente desvanecendo materializando-se uns e dissipando outros naquela imaginação de uma criança que... já não é.
Os primeiros momentos desta jovem magnificamente interpretada por uma Paméla Constantino-Ramos, apresentada como actriz amadora mas cheia de uma garra invulgar para um primeiro desempenho cinematográfico, levam a que o espectador a acompanhe nos seus instantes enquanto estudante finalista com problemas em libertar-se daquele último ano escolar. Vítima de um complexo para com o eterno rótulo de "filha de emigrantes", "Paméla" é por um lado aconselhada a seguir a via profissional e, por outro, vive o sonho dos pais em se formar na escola dita "normal" não podendo de qualquer forma desapontá-los nesse objectivo. Ao mesmo tempo que reencontra "Kevin" (Alexandre Prince), um velho companheiro de escola que se sente atraído por ela, prepara-se ainda para regressar de férias a Portugal onde irá reunir-se com toda a família mas sem passar por Lisboa que tanto anseia conhecer.
Lentamente, na França que a viu nascer bem como mais tarde no Portugal em que encontra as suas origens e raízes, "Paméla" transforma-se, perante o seu silêncio e normal fechar de olhos dos seus pais, na jovem mulher que inevitavelmente é. A confirmação de que vive dividida entre dois países e dois mundos, uma família e a sua independência, a escola e um eventual trabalho ou até mesmo a solidão e um potencial namoro que lhe batem à porta são todos elementos desta transformação pela qual "Paméla" atravessa e que, privada de alguém próximo com quem compartilhar estes momentos, os enfrenta sózinha mas de pulso firme e com uma vontade natural de se afirmar. "Paméla" é, em última análise, uma jovem pré-adulta que tem de começar a tomar as suas escolhas, decidir os seus gostos e firmar os seus objectivos ainda que, muitos deles, possam diferir daqueles naturalmente impostos por uma família que só quer o seu melhor.
Perdida entre amores e desamores, amizades perdidas e agora reconquistadas, um país de origem e outro no qual se sente realmente em casa, numa família que apenas quer o seu melhor mas que esquece (por amor) os seus próprios desejos e vontades, é então "Paméla" aquela que realmente atravessa toda uma época de transformações e auto-conhecimento que não avisaram que chegariam mas que se impuseram esperando uma resposta que ela seria forçada a dar. Presa a uma imagem de menina, esta jovem mulher tem agora que finalmente decidir pela sua própria vontade mesmo contra a vontade daqueles com quem co-habita ou qualquer amizade que possa eventualmente ter. Longe de ser a menina perfeita na escola ou mesmo de desejar ter o eterno rótulo de "capaz para o ensino profissional" vulgarmente atribuído aos "segunda geração", "Paméla" terá de definir o que realmente quer... ser a eterna criança por e sobre quem todos os demais decidem ou perder-se por todos os sonhos do (seu) mundo?... Ou, pelo menos, por alguns deles... (impedido está o espectador de também compreendê-los ao observar quais os momentos aos quais ela verdadeiramente se dedica... desde a patinagem ao cinema sem esquecer a música e, aparentemente, o mundo das artes ou tão bem parece enquadrar-se...).
Se Ferreira Barbosa e Guillaume André criam esta história de auto-afirmação e descoberta ao qual o espectador se dedica com gosto e se se encontram aqui jovens talentos dos quais certamente muito ainda se escutará como, por exemplo, Alexandre Prince com o seu humor desarmante, David Murgia que com o seu "Jérémy" marca pela irreverência ou mesmo Lola Vieira que se assume como a secundária de peso junto da protagonista é, no entanto, a Paméla Constantino-Ramos que o mesmo espectador se rende. Actriz amadora - tal como fora apresentada (e os demais) no início da sessão -, Constantino-Ramos é dona de uma sensibilidade extrema que torna a sua personagem ora frágil ora determinada, ora sonhadora ora detentora de muitas certezas - o momento na clínica de aborto é disso exemplo -, e todos os momentos que lhe são dados enquanto protagonista para presentear o ecrã com a sua presença são, eles próprios, dotados de uma qualquer magia que a sua candura transmitem. Portuguesa, Francesa ou Europeia, Constantino-Ramos (com os desempenhos certos), será certamente uma actriz a fixar não só pelo seu talento como também beleza, de quem se deverá esperar pela próxima entrega enquanto actriz.
Tous les Rêves du Monde - da realizadora, da protagonista ou até mesmo do espectador - é assim uma história sobre a mudança. Aquela mudança que é forçada e que espera sem que por ela se dê conta. Uma mudança pela qual todos atravessamos ao abandonar aquela idade em que tudo é possível mas na qual se começam a sentir o peso das responsabilidades, das escolhas e do eterno vínculo ao qual, pelo decidir, todos ficamos condicionados. Emotivo, realista, por vezes documental mas assumidamente poético, a beleza de Tous les Rêves du Monde assume-se pela forma transversal com que abraça todos os géneros, sem pretensões para lá daquela de contar uma belíssima história com a qual o espectador se possa identificar, emocionar e até mesmo sorrir.
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