sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Todo va Bien (2023)

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Todo va Bien de Adrián Ordóñez (Espanha) é uma das curtas-metragens em competição no Planos Film Festival que revela a história de Rachid (Hassan el Boujaddaini), um jovem imigrante em Espanha que procura o sonho de uma vida melhor. No entanto, quando parece ter a vida encaminhada com um novo trabalho e uma rapariga da sua idade que aparenta gostar dele, a sociedade parece insistir não no seu potencial mas sim nas suas origens.
As primeiras imagens desta curta-metragem com um belíssimo argumento de Sergio Rubio inserem o espectador no imaginário de uma vida de emigração que, compreende de imediato, pertencer a uma realidade dura e cheia de elementos que colocam o protagonista numa vida marginal ou, pelo menos, vivida nas margens daquilo que ele desejara. "Rachid" é um jovem saído de Marrocos para procurar uma vida melhor. Muitos são os seus desejos de poder ajudar uma família que ficara para trás e para a qual se sujeita a uma realidade inimaginada que é agora a sua. Vive no seio das desconfianças de todos aqueles com quem se cruza e os únicos amigos que parece conseguir ter são aqueles que, tal como ele, têm uma realidade similar. O espaço em que vive parece oriundo de um qualquer cenário de detenção... um quarto partilhado com tantas outras pessoas que se sujeitam a realidades precárias porque são estas as únicas que conseguem manter com alguma dignidade (pouca)... ou estão numa camarata comum ou na rua pois não há rendimentos para mais. O dinheiro escasseia... o trabalho não surge de nenhuma parte e, claro, a formação que tem não lhe permite ambicionar um pouco mais mas, no entanto, os requisitos exigidos não páram de ser mais e mais...
As dificuldades de "Rachid" são imediatamente compreendidas. Deseja um trabalho... mas precisa de um par de sapatos para aparentar algum brio e ainda que estes não sejam uma exigência, a realidade é que é subtilmente compreendido que poderão "ajudar" à sua realidade e, ao mesmo tempo que o espectador acaba por ir conhecendo esta personagem existe também algum misto de desconfiança para com as suas atitudes ou comportamentos. Estará ele assim num aperto tão grande ou será que esconde algo mais? No seio da desconfiança despertada por um argumento que nem sempre é claro - aí reside um dos seus pontos mais fortes -, o espectador crê e empatiza com o mesmo quando compreende que "Rachid" é o receptáculo de todo um conjunto de sonhos e desejos por cumprir quer sejam eles profissionais, pessoais, familiares ou até mesmo sentimentais quando descobre e sente interesse por uma rapariga do bairro.
Dois são os momentos que mais me impressionaram nos destinos desta personagem e que, de certa forma, acabam por revelar o seu interior ou os seus propósitos... O primeiro que se relaciona directamente com os sapatos que "Rachid" deixa para trás depois de dormir num vão de escada... não só é um momento marcante naquilo que poderá ser os destinos desta personagem forçada a abandonar os seus bens mais pessoais para trás agora que aparenta ter a sua vida "encaminhada" dentro da perda a que está habituado nesta Espanha que escolheu como sua nova casa como nos remete enquanto espectadores para as trágicas histórias de emigração que a tanto estamos habituados e que compreendemos como sendo toda uma história de perda consecutiva e sem limites. No passado mais ou menos próximo tal como agora "Rachid" tem o seu destino marcado por todo um conjunto de perdas que não aparentam ter um final. Finalmente, o momento final no qual telefona à sua mãe revelando que a sua vida se encaminha e que se encontra feliz quando as lágrimas insistem em cair num silêncio perturbante. A mentira piedosa que se conta para não afligir aquela que mais o ama e que lhe deseja todas as felicidades do mundo encerra esta história que não se adivinha feliz - pelo menos não nos deixa disso indícios - e o longo plano com que o realizador nos presenteia assim o faz adivinhar.
Decididamente uma das melhores curtas da edição deste ano do Planos Film Festival com uma sempre presente e pertinente história enriquecida por uma interpretação fortemente contida na expressão de emoções que, no entanto, conseguimos todos identificar do jovem actor Hassan el Boujaddaini que nos entrega diversos momentos onde o sentimento ou sensação chave é aquela de uma perda constante.
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8 / 10
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