sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Experimenter: The Stanley Milgram Story (2015)

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Experimenter: Stanley Milgram, O Psicólogo que Abalou a América de Michael Almereyda é uma longa-metragem norte-americana baseada nos acontecimentos verídicos ocorridos no início da década de 60 na qual o psicólogo em questão efectuou experiências comportamentais sobre a cumplicidade silenciosa de um cidadão comum obedecer à ordem autoritária.
Apesar de um registo assumidamente documental - que a ficção apenas ligeiramente dramatiza - Experimenter: The Stanley Milgram Story concentra-se fundamentalmente num registo monocórdico e de explanação dos acontecimentos que, portanto, fazem por momentos perder a realidade por detrás dos factos. Com uma acentuada vontade de expôr um registo factual dos estudos e experiências efectuados por Stanley Milgram - norte-americano de origem romena e húngaro de pais judeus fugidos da Europa de Leste -, Michael Almereyda quase que transforma os seus actores em meros veículos de transmissão de informação (em alguns segmentos quase robóticos) que se esquecem de um eventual lado humano das pessoas em cujos factos este filme se baseia ou mesmo na transmissão dos seus propósitos e objectivos com a elaboração deste estudo. Por outras palavras, ainda que o espectador compreenda os seus fundamentos e necessidade, as interpretações tanto de Peter Sarsgaard como de uma muito desaparecida Winona Ryder são francamente mecânicas e pouco abençoadas do lado humanos daqueles que representam.
Também a prejudicar a pretensa dramatização dos acontecimentos retratados em Experimenter: The Stanley Milgram Story estão os cenários "não naturais" desta longa-metragem que claramente apontam o espectador para interiores pouco humanizados como se estivesse a assistir a uma peça de teatro que é, ocasionalmente, narrada por Sarsgaard - que aqui interpreta Stanley Milgram - como se o espectador necessitasse de uma explicação adicional para aquilo que está a assistir explícito através da comunicação directa que com ele estabelece.
No entanto, aquilo que importa em toda esta longa-metragem é, essencialmente, a mensagem que tenta retratar e transmitir ao seu espectador e que se prende com uma simples questão: Como aprende a Humanidade? Será pela recompensa... pelo castigo... pelo altruísmo... pela expressão da sua individualidade ou, por sua vez, pela ordem... ou pela submissão?! Na experiência levada a cabo por Milgram, este expunha dois perfeitos desconhecidos... Um professor e um aluno que, através de um conjunto de questões, determinavam que a forma de penalização seria a única passível de transmitir uma regra, uma disciplina e, finalmente, uma ordem. No entanto, o que acontece quando um destes intervenientes está de conluio com quem efectua a experiência e, como tal, conduz também ele, toda a entrevista/questionário num único sentido, ou seja, aquele de perceber se quem está do outro lado obedece de forma cega uma ordem ou se a ela se opõe fazendo denotar o seu lado mais humano e desafiador - mais ou menos consciente - de uma ordem e de uma potencial barbárie? O que acontece quando indivíduos perfeitamente inseridos numa sociedade dita livre e igualitária se vêem a braços com uma inconsciente normalização da penalização? Da dor? Do sofrimento? Da morte?! Serão capazes de se opôr à pressão de grupo e à institucionalização do mal ou ceder à maioria deixando o mal proliferar?
Num percurso onde quem aprende - professor versus aluno - não tem escolha e é instruído de acordo com uma norma pré-estabelecida, esta experiência gera uma outra questão... porque se escuta quem dá uma ordem e não aquele que fica ferido pelo seu cumprimento? Que "mecanismo" mental pressupõe a vontade de infligir dor no "outro"? Enquadrando o julgamento e condenação de Eichmann, Experimenter: The Stanley Milgram Story reflecte, ainda que timidamente, sobre as suas acções aquando da solução final durante a Segunda Guerra Mundial lançando a questão (silenciada) sobre o poder de dizer "não". Dito isto, como se institucionaliza a obediência (cega) mesmo que se perceba - do outro lado - o sofrimento banalizando dessa forma o mal e a sua proliferação?
Com uma interpretação assumidamente monocórdica de Peter Sarsgaard que pouco se desliga do desfazamento da realidade que o rodeia, Experimenter: The Stanley Milgram Story é sustentado por uma tímida mas bem aparecida interpretação de Winona Ryder tão desaparecida do grande ecrã e que tenta - muito ligeiramente - ser o lado mais humano de um homem excessivamente concentrado na sua carreira profissional que aparentemente esqueceu o seu lado humano. No fundo, e sob uma perspectiva diferente, o seu "Stanley Milgram" é, também ele, alguém que cedeu à ditadura de uma investigação e de uma experiência que comandou toda a sua vida... primeiro por necessidade, depois por dependência e finalmente por ser ela o seu único vinculo com uma realidade exterior que pouco conheceu.
Interessante do ponto de vista histórico e factual, Experimenter: The Stanley Milgram Story será, em última análise, uma longa-metragem que dificilmente chegará a todos os espectadores concentrando-se, quase exclusivamente, naqueles que têm interesse não só neste período histórico como essencialmente naqueles que conhecem parte ou a totalidade destes factos.
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"Stanley Milgram: (...) our awareness is the first step in our liberation."
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6 / 10
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