terça-feira, 28 de outubro de 2014

Getúlio (2014)

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Getúlio de João Jardim é uma longa-metragem luso-brasileira centrada nos dezanove dias precedentes ao suicídio de Getúlio Vargas (Tony Ramos) a 24 de Agosto de 1954.
Quando a 5 de Agosto de 1954 tentam assassinar o jornalista e político Carlos Lacerda (Alexandre Borges) no Rio de Janeiro, é o Major Vaz de 32 anos que cai morto. As investigações decorrentes deste acontecimento indicam que foi Gregório Fortunato (Thiago Justino), o chefe da guarda pessoal de Vargas, que encomendou este assassinato.
Este acontecimento tido como um dos mais importantes da História moderna do Brasil demonstrou não só o impacto que teve junto do meio político do país como também junto de uma população que homenageou a vida e obra, sempre controversa, do político Vargas.
"Só o sacrifício da vida pode resgatar o erro de um fracasso"... é com estas palavras que se inicia Getúlio, um filme que pretende entregar ao espectador um olhar sobre o homem político que foi Getúlio Vargas sem que, no entanto, se perca pelo mundo da intensa vida política com que brindou o Brasil durante dois mandatos. É com a prática dessas mesmas palavras que ele irá terminar não só o seu mandato como principalmente a sua vida confirmando que ele, e apenas ele, seria o mandante do seu próprio destino.
O homem que enfrentou duas revoluções tendo obtido o poder através de uma delas e com o apoio dos militares, que aplicou a censura para deter o poder, que cancelou eleições e que rasgou duas constituições como o próprio afirma, é o mesmo homem que no final se viu perto das suas próprias acções alcançando a admiração de uma parte do povo graças à implementação das férias pagas e de um salário mínimo nacional e que, por outro lado, conquistou o ódio e desdém daqueles que mais de perto com ele privavam e que detinham as chefias melitares... as mesmas que lhe ajudaram a chegar à Presidência.
Numa oscilação entra a trama política e uma intimidade quase eclesiástica, o argumento de Getúlio que é da autoria de Tereza Frota, João Jardim e George Moura leva-nos numa breve viagem à vida deste homem que se tornou numa das figuras mais amadas - e mais odiadas - de um Brasil contemporâneo, mas não nos seus tempos áureos e de glória mas sim no seu final e decadência onde decide pôr termo à sua vida não abdicando assim directamente do poder a que tanto se havia apegado. Getúlio Vargas, numa brilhante interpretação de Tony Ramos, é um homem de semblante baixo, apagado e quase que perdido nos seus próprios pensamentos e espaços que tão bem conhece mas que, ao mesmo tempo, são povoados dos velhos fantasmas do seu passado dinâmico e decidido que agora mais não lhe provocam do que amargas memórias.
É a trama palaciana e o atentado que acelerou o seu afastamento que ganham aqui um peso imediato e a figura de Carlos Lacerda (Alexandre Borges) que assume um protagonismo ausente ao estar no cerne de todo este acelerar de acontecimentos. "O ditador é como um mau carácter, não muda apenas tira férias", é dito a certa altura. Mas não é menos verdade que aqueles que o querem ver afastado são, tal como ele fora em tempos, tão agarrados ao poder que esquecem os meios utilizados para o obter, apenas alternando nas cadeiras ministeriais assegurando assim a sua continuidade, demonstrando assim a dimensão da trama política que está sempre presente nos fins de cada um. Na prática o que temos em Getúlio mais não é do que uma luta desenfreada pelo poder; uma tentativa de derrubar um velho ditador que reunia, no entanto, a simpatia de um povo que obteve um conjunto de direitos e regalias até então inimagináveis sem esquecer - talvez o principal - que estamos perante um olhar sobre aquilo que fora um homem poderoso, alguém de respeito - e temido - que controlou o país por mais de quinze anos e que é agora uma mera miragem do seu próprio ensombrado passado, sendo assim não só uma história sobre a queda de um político mas sim sobre a queda de um homem.
A forte interpretação de Tony Ramos enquanto "Getúlio Vargas", não se prende só pelo facto de demonstrar uma tensão silenciosa na qual vive um conflito com os seus próprios fantasmas, mas também por conseguir evidenciar para o espectador a faceta de homem de Estado que percebe que só a sua morte poderá entregar um final digno (dentro dos possíveis) e coerente para com o seu passado. A sua encarnação do Presidente brasileiro mostra-nos um homem constantemente em descanso... talvez farto do poder e das suas nuances, e como o próprio diz a certa altura alguém que está "exausto e que precisa de dormir". Alguém cansado de saber que nunca lhe pediram nada para o bem do país mas sim para o bem pessoal, por vezes momentâneo, tendo perfeita consciência que o sentido de Estado era algo que apenas ele percebia. Um homem que passava metade do seu tempo numa imagem fantasmagórica de si próprio, bem evidente nos momentos em que se encontra de pijama e chinelos numa casa grande demais para o seu diminuído ego e que percebe este ser o seu fim.
"Aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória." dizia, sabendo que aqueles seriam os seus últimos dias. Os últimos dias do homem que atravessou guerras, revoluções, conspirações, e a sua própria ditadura sabendo que assim "saía da vida para entrar na História", num interessante ambiente de época e que conta ainda com as interpretações secundárias de Drica Moraes como "Alzira Vargas" - filha de Getúlio - Fernando Luís como "Benjamin Vargas" - o irmão - e José Raposo como "Nero Moura", um dos seus Ministros.
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"Getúlio Vargas: Eu vos dei a minha vida agora ofereço a minha morte."
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8 / 10
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