quarta-feira, 15 de julho de 2015

Dois Mil Pés (2014)

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Dois Mil Pés de Bruno Nacarato é uma curta-metragem portuguesa de ficção exibida numa das sessões do Shortcutz Viseu e que nos conta a história de Xico (Pedro Lamares) que um dia sai de casa deixando a sua mulher e filha para trás sem nunca revelar para onde iria.
Anos depois Daniela (Daniela Love) tenta procurar o pai desaparecido encontrando-o numa caravana perto de um aeródromo. Conseguirá esta relação ter algum futuro?
A dupla de argumentistas Bruno Nacarato e Andrés Sanjurjo apresentam-nos uma história que tanto aborda um afastamento como uma improvável aproximação familiar mas não de uma forma tradicional. Aqui ninguém procura explicações, pedidos de desculpa ou redenção pelos actos passados. Em Dois Mil Pés as personagens parecem ter encontrado não só o seu lugar no mundo como acima disso a plena consciencialização de que esse lugar não poderia ter sido outro.
"Xico" é um tipo despreocupado e sem qualquer vontade de "ter" uma família. Novo de mais para ser marido e pai, ele encontrou no isolamento a forma perfeita de se encontrar no mundo. Com um trabalho esporádico que lhe paga as poucas contas que eventualmente possa ter e ainda lhe garanta uns encontros sexuais sem qualquer tipo de consquência, "Xico" é um tipo satisfeito na (ir)responsabilidade que a sua fuga lhe proporcionou em tempos. Longe de família, amigos, casamento, casa e um trabalho "fixo", limita-se a estar no mundo sem que este note a sua presença e quando alguém tenta uma aproximação, ele rapidamente se descarta de que ela resulte e afoga todos os seus pensamentos em alcoól... em muito alcoól.
No entanto, "Daniela" - a filha - é uma rapariga pensativa, que lê e que sem fazer perguntas abertamente, não deixa de considerá-las no seu silêncio. Na prática é a filha do seu pai... esconde o que pensa e sente sem que, no entanto, pequenos gestos e momentos do seu comportamento o revelem ao espectador. Como hobbie tira retratos a todas as pessoas com quem se cruza captando os seus momentos, as suas expressões e o seu espaço. Capta-os para o futuro tal como a única fotografia que "Xico" guarda, vivendo assim as memórias de uma promessa passada que não se cumpriu.
Ambos vivem no seu silêncio o remorso de algo que não têm ou sabem ter - ele por impossibilidade de assumir uma responsabilidade e ela por nunca ter conhecido outra realidade que não a sua ausência - e é nos retratos que ele guarda e que ela tira que vivem a presença de memórias passadas e de momentos que podem um dia testemunhar a sua passagem. Percebem a relação mútua de pai e filha mas agem como dois amigos que se reencontraram após alguns anos de ausência. Partilham alguns momentos de conversa sem que, no entanto, percebam de facto quem é o "outro" que está ali ao lado. Existe empatia sem grande afecto... existe alguma cumplicidade sem muita entrega. Existe o "eu" no meio de um "nós" perceptível mas ausente. Estão ambos ali sem que na verdade se dê pela sua presença.
O último acto é aquele retrato final. Aquele que "Daniela" tira a "Xico" para testemunhar os anos passados desde o último retrato que ele guarda em que se encontra com a então mulher e filha. Agora só ele... ninguém o acompanha e finalmente tira os óculos. Pela primeira vez é captada uma sua expressão a olhar directamente para a filha - para a câmara. Sabendo que não se irão encontrar tão depressa - talvez nunca mais - mantém-se aquele o último testemunho da sua ligação que ele - sem nunca serem revelados os porquês - tenta esquecer através da bebida... de encontros furtuitos e de um isolamento voluntário que ele parece não querer abandonar. "Daniela" sabe que ele está ali... Possivelmente sempre esteve e sempre estará mas a liberdade que ele pretende não pode ser interrompida e menos ainda questionada. Existe uma certa e mútua admiração que apenas a ocasião do encontro permite manter. Ambos estão perdidos mas nenhum parece querer realmente ser encontrado.
Pedro Lamares e Daniela Love transmitem uma química imediata. Ao interpretarem este pai e filha separados mais pelo tempo do que pela distância, o espectador percebe que existe uma imediata cumplicidade que os faz conhecerem-se mesmo sem qualquer tipo de convivência. Funcionam bem na sua (ausente) relação e nenhum se tenta enganar com promessas que sabem não ir cumprir estando ambos, no entanto, numa aparente rota de mudança - talvez os tais voos - ela por desejar saber um pouco mais... ele talvez um pouco menos.
Ainda a contribuir para a sempre presente melancolia quer da história quer das personalidades e motivações destas duas personagens está uma muito interessante e inspirada música original de Tiago Nacarato e Rafael Silver que nos deixa levar por um conjunto de emoções sentidas mas não expressadas... percebemos que todos nós - actores/personagens e espectadores - somos levados para um lugar de transição, de mudança e onde o passado e o futuro se encontram... só não sabemos que transformações reais esse momento irá trazer.
Interessante e quase poético, relativamente positivo mas a esconder uma tristeza algo profunda, Dois Mil Pés é possivelmente a tal distância entre aquilo que fomos e que agora somos... a tal distância que permite ver os dois lados de uma mesma pessoa e por isso um certo purgatório que prevê uma espera para um outro rumo.
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8 / 10
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