quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A Viagem (2019)

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A Viagem de Henrique Lopes (Portugal) foi a curta-metragem vencedora do Sophia Estudante na categoria Experimental que relata, na primeira pessoa, um suicídio consumado de um jovem que cedeu às pressões de uma sociedade moderna. "Já te suicidaste? Não! Eu já!"... assim se dá início a este inesperado e turbulento relato que ocorre na mente de um jovem com todo um percurso por fazer.
O seu caminhar, agora em espírito, pelo seio de todo um conjunto de jovens que revelam ter ignorado a sua presença em vida tal como a ignoram agora que ele já não se encontra entre eles - subjacente o princípio da depressão alcançado pelo sentimento de invisibilidade que lhe foi atribuído -, denotam uma angústia escondida e que lentamente consumiu o seu pensamento e a sua certeza de que em morte lhes foi tão indiferente como em vida.
Nesta sua breve passagem para um qualquer "outro lado", o espectador compreende não só a angústia deste jovem como a incapacidade de ser (ou ter) qualquer tipo de presença junto dos seus pares que vivem uma vida depressa demais onde tudo pertence ao instante... as conquistas, os amores, as paixões, as amizades e até mesmo a vida que é, nesta perspectiva, tão ilusória como qualquer outro momento, sentimento ou elo de ligação àqueles e àquilo que os rodeia. Neste momento levanta-se a grande questão quando aquele jovem questiona, de certa forma, quem é (foi!) ele verdadeiramente se ninguém deu pela sua falta ou pior... pela sua presença?! Terá ele realmente existido quando ninguém parece ter dado pela sua presença física?
Ainda que A Viagem se fala "sentir" por uma mensagem de cariz social que expõe a vivência de uma depressão por um "eu" que procura um lugar no mundo, sente-se também que o argumento desta curta-metragem reflecte ainda o pensamento de um jovem necessitando de um amadurecimento que apenas a idade - e as experiências - podem conferir ao mesmo. Sentido pela sua honestidade e alma que lhe são conferidos, esta curta-metragem surge como um interessante alerta para uma doença vivida apenas em comunhão com a dor e tantas vezes ignorada especialmente em jovens cuja incerteza do seu lugar no mundo os coloca numa involuntária fragilidade, a qual apenas se compreende quando a tragédia "bate à porta".
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6 / 10
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